Investigação. A morte rápida do Rio Mira

Paulo Barriga 01 de novembro

Anos seguidos de seca, uma barragem que perde 40% da água, enormes eucaliptais e áreas de rega que não param de crescer – assim desaparece a água ao longo de 140 km.

Da floresta primitiva, pouco resta. As escassas manchas de azinheiras e de medronheiros, sobreviventes dos incêndios e da desmatação, são agora uma espécie de retrato a sépia, parado no tempo, do que outrora foi o cenário natural envolvente dos primeiros quilómetros do curso do Mira. “Não é difícil imaginar o que isto seria antigamente”, sugere José Paulo Fernandes, enquanto dirige um velho Land Rover por um caminho tão pedregoso quanto os cerros desérticos que o ladeiam.

Um vasto eucaliptal, propriedade da maior “papeleira” portuguesa, antecipa o fim do safári. “É aqui”, revela Paulo Fernandes, “este é o sítio dos passadiços”, um local simbólico, sobretudo após a inauguração da barragem Professor Doutor Marcello Caetano – hoje barragem de Santa Clara –, em maio de 1969. Com a retenção do caudal do Mira junto à pequena aldeia de Santa Clara-a-Velha, 24 quilómetros a jusante, os “passadiços” passaram então a marcar o local exato onde as águas livres do rio se juntavam às águas em represa. Hoje, só com uma boa dose de criatividade se pode conceber tamanha abundância.

Há pelo menos oito anos, quando José Paulo Fernandes tomou conta do restaurante Castro da Cola, que “não se vê por aqui uma pinga de água”. A escassos metros dos “passadiços”, no Moinho da Lã, azenha que em tempos alimentou uma pequena indústria de lavagem de lã de ovelha e que hoje está transformada em turismo rural, a desolação é absoluta. Em direção à “nascente”, os consecutivos anos de seca hidrológica fizeram o Mira evaporar-se. Por completo. No caminho oposto, a agricultura intensiva fez recuar o caudal da barragem em mais de sete quilómetros. “Era uma vez um rio”, lamenta José Paulo Fernandes.

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