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As sagas de quem fugiu de Angola há 50 anos

Bruno Faria Lopes
Bruno Faria Lopes 22 de julho de 2025 às 23:00

Partiram em colunas de mil carros, com bebés e crianças, atravessando a guerra e a natureza hostil. Saíram de traineira para a Namíbia e para Portugal. Penaram durante meses em campos de refugiados. Meio século depois contam o que viveram como se tivesse sido ontem.

Ofélia Pereira dormia há três noites no chão quando se lembrou do tabaco guardado no banco. Tinha 26 anos em julho de 1975 e estava sozinha na capital provincial de Malanje, palco de combates intensos entre os movimentos angolanos FNLA e MPLA. No fim do mês havia seis mil pessoas refugiadas no quartel militar português, mas não era aí que Ofélia se encontrava. “Um dia estavam a bombardear tudo perto de minha casa e fui ter com eles – fui sempre assim, muito atrevida”, conta. Não sabia a que movimento angolano pertenciam aqueles homens armados, que se ofereceram para a tirar do meio do tiroteio. “Tu tens carro? Levas as luzes apagadas e vais entre os nossos dois carros de combate”, disseram-lhe. “Quando vi a direção pensei ‘vou para o quartel da FNLA’”, recorda. Ao entrar viu mais refugiados. Também reparou, ao fim de algum tempo, que os soldados não tinham tabaco. “Disse-lhes que o banco tinha”, conta. “Tens a chave do banco?”, perguntaram-lhe.

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