Advogado e político ao espelho

Tiago Carrasco 15 de setembro

Defendeu presos políticos como o comunista Domingos Abrantes. Spínola considerou-o um perigoso esquerdista e o embaixador dos EUA Carlucci descreveu-o como “fala-barato”. Enfureceu várias vezes Soares e avançou para a câmara de Lisboa quando ninguém no PS queria.

Jorge Sampaio iniciou o estágio como advogado em 1962, logo após a crise académica. Entrou no escritório do patrono José Olímpio, situado na Av. Duque de Palmela, adjacente ao Marquês de Pombal. No mesmo prédio, estava a empresa Raul César Ferreira Lda., Especializada em marcas e patentes, que era dos principais clientes do escritório. Tornou-se assim especialista nessa área. “Era um belíssimo advogado, muito batalhador, nunca desistia”, diz Vera Jardim. “Só havia três ou quatro advogados no País que sabiam tratar de casos de patentes industriais e tecnológicas.”

Logo ao lado, estava no Hotel Flórida. Durante décadas, foi lá que se encontrou diariamente ao com amigos, aliados políticos e outros advogados. “Era uma mesa aberta, mas os habituées eram ligados à esquerda. Os almoços passaram pelo 25 de Abril e duraram até ao restaurante do hotel passar a servir hambúrgueres ”, diz Jardim. “Sabíamos que se fôssemos à Flórida tínhamos companhia. Era um ponto de encontro, um almoço-tertúlia. ” Rodeada por múltiplos escritórios de advogados e pela redação do semanário Expresso, uma mesa reservada em nome de Sampaio denominado nomes sonantes: Miguel Galvão Teles, César Oliveira, Vera Jardim, Arons de Carvalho, Nuno Brederode Santos, Pinto Balsemão e Marcelo Rebelo de Sousa. “Poucas serão como mesas do país que se podem orgulhar de ter sentado dois Presidentes da República”, diz Castanheira.

Foram tiradas todas as decisões importantes na vida política de Sampaio, mas não só. “Era uma espécie de distribuição de processos políticos”, acrescenta Joaquim Mestre. “Aparecia lá malta à procura de advogados para os defensores e nós distribuímos os casos entre mim, o Jorge Sampaio, o Jorge Santos, e outros. Não era fácil. Não se ganhava dinheiro e obrigava-nos a passar tardes na espelunca da prisão de Caxias. Mas fazíamo-lo por razões de ordem política e moral. ”

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