Se o povo não confia no governo?... Dissolva-se o povo!
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A Europa precisa de imigração. Não é uma opinião. É uma evidência demográfica.
Confesso que este não é um tema particularmente propício ao humor. E é pena. Talvez porque a imigração, a identidade, a nacionalidade ou a demografia sejam assuntos que fazem as pessoas perder o sentido de humor antes mesmo de começarem a discutir. Ainda assim, permitam-me um sorriso irónico para abrir caminho.
Em 1953, na então República Democrática Alemã, milhares de operários saíram à rua para protestar contra o aumento das metas de produção impostas pelo regime comunista. A receita foi a do costume: salada russa de tanques soviéticos, Strogonoff de repressão e Pavlova de defuntos. Poucos dias depois, Bertolt Brecht escreveu um dos mais brilhantes poemas políticos do século XX, "Die Lösung" ("A Solução").
Depois de referir que o governo considerava que "o povo tinha perdido a confiança" das autoridades, Brecht remata com uma ironia devastadora:
"Não seria mais simples que o governo dissolvesse o povo e elegesse outro?"
Mais de setenta anos depois, a frase continua atual.
Não porque alguém proponha literalmente dissolver um povo, mas porque continua a existir uma tentação recorrente em muitos sistemas políticos: quando os cidadãos deixam de votar "como devem", em vez de se perguntar o que falhou nas políticas, pergunta-se como alterar o eleitorado.
Naturalmente, ninguém o admite nestes termos. Seria demasiado grosseiro. A engenharia democrática moderna é muito mais sofisticada.
A História está repleta de tentativas de alterar artificialmente a composição política das sociedades.
Houve quem o fizesse pela violência. Stalin deportou populações tártaras inteiras da Crimeia e substituiu-as por outras consideradas mais fiéis ao regime. Pol Pot dividiu o Camboja entre o "velho povo" (camponeses ideologicamente puros) e o "novo povo" ( malha urbana já eivada pela subversão), convencido de que bastava mudar as pessoas para criar uma sociedade perfeita. O apartheid sul-africano tentou retirar cidadania à maioria negra através dos Bantustões. No Bahrain, já neste século, opositores perderam a nacionalidade enquanto outros a receberam por conveniência política.
São realidades profundamente diferentes entre si, e incomparáveis na sua dimensão e gravidade. Mas todas partilhavam uma ideia inquietante: quando o povo deixa de servir o poder, muda-se o povo.
É precisamente por isso que este tema exige enorme prudência. Porque é simultaneamente um dos mais importantes e dos mais manipulados da política contemporânea.
A extrema-direita transformou qualquer imigração numa teoria conspirativa sobre uma alegada "grande substituição". A extrema-esquerda responde frequentemente tratando qualquer preocupação sobre integração, identidade cultural ou coesão social como xenofobia. Entre um delírio e outro, desaparece o debate sério.
E esse debate é indispensável.
A Europa precisa de imigração. Não é uma opinião. É uma evidência demográfica.
Envelhecemos, temos menos natalidade, faltam trabalhadores em praticamente todos os sectores económicos e o próprio Estado Social , aquele mesmo que muitos dizem defender, depende de pessoas que trabalhem, descontem e sustentem um número crescente de pensionistas.
A ideia da "remigração" em massa, hoje repetida por alguns movimentos populistas, é economicamente absurda e socialmente impossível. Bastaria fechar metade das portas da imigração para muitos sectores entrarem rapidamente em colapso.
Mas reconhecer esta realidade não implica aceitar outra igualmente simplista: a de que qualquer fluxo migratório, qualquer política de nacionalidade ou qualquer modelo de integração produz exatamente os mesmos resultados.
A imigração nunca foi apenas uma questão económica. Sempre foi também uma questão cultural, institucional e civilizacional.
A Europa construiu, ao longo de mais de dois séculos, um património político extraordinário. O Iluminismo, a Revolução Francesa, a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, a separação entre religião e Estado, a igualdade jurídica entre homens e mulheres, a liberdade religiosa, os direitos civis, a democracia representativa.
Nada disto caiu do céu.
Foram conquistas lentas, muitas vezes sangrentas, obtidas contra absolutismos, clericalismos, anti-clericalismos e totalitarismos de todas as cores.
Seria um erro histórico pensar que estes valores são irreversíveis apenas porque hoje nos parecem naturais.
O problema começa quando se confunde integração com relativismo.
Receber quem procura uma vida melhor é um dever moral e, em muitos casos, uma necessidade económica. Mas integrar não pode significar importar conflitos que a Europa levou séculos a resolver, nem aceitar que, em nome do multiculturalismo, se suspendam princípios que consideramos universais.
Não me refiro apenas à igualdade entre homens e mulheres. Refiro-me também à liberdade religiosa, que inclui o direito de não ter religião, aos direitos das crianças, à liberdade de orientação sexual, à autonomia individual e ao primado da lei civil sobre qualquer norma religiosa.
Se passarmos a aceitar que determinados valores deixam de ser universais consoante a origem cultural de quem chega, então já não estamos a integrar pessoas na sociedade europeia. Estamos, pelo contrário, a fragmentar a própria sociedade.
É curioso observar como alguma esquerda europeia, que durante décadas travou batalhas justas pelos direitos das mulheres, das pessoas LGBT ou pela laicidade do Estado, revela hoje um embaraço quase existencial quando esses mesmos direitos entram em colisão com setores mais conservadores de algumas comunidades religiosas.
A tolerância deixa de ser um princípio para passar a ser uma exceção geográfica.
E isso é um erro.
Defender a integração não é abdicar dos valores europeus. É precisamente o contrário: é garantir que quem chega encontra uma sociedade aberta, plural e democrática, mas também consciente daquilo que é.
É neste contexto que surge outra discussão, igualmente delicada: até que ponto alterações às leis da nacionalidade, da imigração ou do recenseamento eleitoral podem influenciar o equilíbrio democrático?
Não vale a pena fingir que este debate não existe.
Em Espanha, por exemplo, a chamada Lei da Memória Democrática, conhecida popularmente por "Lei dos Netos", permitiu alargar significativamente o acesso à nacionalidade espanhola a descendentes de antigos emigrantes e exilados. Trata-se de uma opção política perfeitamente legítima, que assenta numa determinada visão histórica.
Mas é igualmente legítimo discutir os seus efeitos políticos.
Tal como é legítimo debater a eliminação do chamado voto rogado, que facilitou a participação eleitoral dos cidadãos inscritos no CERA — o Censo de Eleitores Residentes Ausentes.
Estas alterações têm consequências eleitorais? Naturalmente que sim. Todas as alterações às regras eleitorais têm.
A questão relevante não é saber se existem efeitos. A questão é perceber quais são esses efeitos e se a perceção pública é de que as regras foram desenhadas para reforçar a participação democrática ou para beneficiar conjunturalmente quem governa.
Quando estes " Novos Espanhóis" passam a podem votar em modo " pudim flan instantâneo", tendo a veleidade, inclusive, de escolher o círculo eleitoral, na península e não num círculo de emigração com expressão simbólica de mandatos, então podemos estar perante uma potencial fraude nunca antes vista. Recordemos o fenómeno dos círculos eleitorais mais pequenos e despovoados da "Espanha Vazia", onde poucos votos decidem um deputado, e o impacto que esta votação externa pode ter na inversão dos resultados locais.
Curiosamente as primeiras eleições já com a lei dos netos em vigor beneficiou o PPE, mostrando que o eleitorado da diáspora é normalmente mais conservador, e revelando que os eleitores da América Latina estão escaldados com grandes projectos socialistas/ progressistas do séc. XXI, preferindo depositar o voto na direita espanhola, mesmo que não tenham qualquer ligação, de facto, a Espanha e ao Estado Espanhol.
A democracia, no entanto, vive tanto da legalidade como da confiança.
Quando metade do país começa a suspeitar das regras do jogo, mesmo que essas suspeitas sejam injustificadas, o problema deixa de ser jurídico e passa a ser político. Até porque é inevitável associar estas fragilidades legislativas aos escândalos de compra e desvio de votos por correspondência (como o caso que envolveu Melilla e outras autarquias do PSOE), e constatar que estas malhas burocráticas abrem a porta ao caciquismo transnacional.
Já em França, o fenómeno assume contornos diferentes.
A antiga esquerda operária perdeu grande parte da sua base eleitoral para a direita nacional-conservadora. As regiões industriais, outrora bastiões comunistas e socialistas, votam hoje maioritariamente em Marine Le Pen.
Não é um acaso.
A globalização alterou profundamente a composição social da esquerda europeia. O velho conflito entre capital e trabalho foi sendo substituído por novas clivagens: centros urbanos versus periferias; licenciados versus trabalhadores industriais; cosmopolitismo versus identidade nacional.
Neste contexto, Jean-Luc Mélenchon apostou claramente nas grandes áreas metropolitanas e nas comunidades de origem imigrante, estratégia que ele próprio nunca escondeu.
É uma opção política legítima. Tal como é legítimo discuti-la.
Os dados recolhidos por institutos de sondagens europeus (como o IFOP em França ou o Pew Research Center) demonstram que as comunidades imigrantes naturalizadas e os cidadãos de segunda/terceira geração de matriz islâmica votam maioritariamente em partidos de esquerda. A taxa de apoio a Jean-Luc Mélenchon ou ao Partido Trabalhista britânico nestes segmentos supera frequentemente os 65-70%.
O impacto deste eleitorado é amplificado pela sua concentração geográfica. Nos subúrbios das grandes metrópoles (como a cintura parisiense em França ou cidades como Birmingham e Bradford no Reino Unido, ou nas principais urbes belgas), o voto destas comunidades dita a eleição direta de deputados e autarcas, tornando os partidos de esquerda estruturalmente dependentes da mobilização deste eleitorado comunitário.
Não foi sem razão que Jean-Luc Mélenchon no dia 9 de abril de 2026, durante uma intervenção no Institut La Boétie (o laboratório de ideias do seu partido, La France Insoumise), afirmou textualmente: "Se contam com os operários brancos católicos para fazer o socialismo em França, isso não vai acontecer". Ele sabe que nas eleições presidenciais, cerca de 69% dos eleitores franceses de confissão muçulmana votaram em si logo na primeira volta.
Além disso, é inescapável recordar o célebre relatório de 2011 do think tank socialista Terra Nova. Esse documento recomendava explicitamente que a esquerda francesa abandonasse a classe operária histórica (culturalmente mais conservadora) e desenhasse uma nova coligação eleitoral baseada nos jovens, nos licenciados, nas mulheres e, crucialmente, nos imigrantes e nas minorias residentes nos bairros populares.
Tal materializou-se numa Deriva Racialista em que, ao longo de 2026, várias figuras do partido de Mélenchon adotaram um discurso abertamente identitário para as campanhas autárquicas, utilizando linhas fraturantes de raça e religião para mobilizar o voto comunitário, o que motivou críticas que englobaram nomes insuspeito da esquerda francesa como Manuel Valls (Ex-Primeiro-Ministro Socialista), uma das vozes mais duras a denunciar o chamado "islamo-esquerdismo", acusando Mélenchon e os seus aliados de "clientelismo eleitoral cínico" e de "capitulação perante o islamismo político" para garantir maiorias parlamentares, quebrando o princípio secular histórico da República Francesa (a laïcité).
Também Fabien Roussel (Líder do Partido Comunista Francês)demarcou-se publicamente da estratégia de Mélenchon, defendendo que a esquerda deve falar para a "França profunda" e para os trabalhadores rurais e industriais, criticando a fixação do partido parceiro apenas nos temas fraturantes das metrópoles multiculturais.
O problema, portanto, surge quando algum partido começa a olhar para a política migratória, para a nacionalidade ou para o recenseamento eleitoral como instrumentos destinados, antes de mais, a moldar o futuro eleitorado.
Porque, nesse momento, deixamos de discutir cidadãos e passamos a discutir clientes eleitorais.
É precisamente aqui que Brecht volta a entrar na conversa.
O grande dramaturgo alemão não escreveu sobre imigração. Escreveu sobre poder.
Escreveu sobre a tentação permanente dos governantes de acreditarem que o problema nunca são as políticas; é sempre o povo.
Hoje já ninguém dissolve povos com tanques.
Faz-se de forma muito mais subtil.
Uns tentam convencer os cidadãos de que qualquer preocupação com identidade, integração ou coesão social é uma manifestação de extremismo.
Outros respondem convencendo-os de que toda a imigração faz parte de uma conspiração para substituir populações.
Nenhum destes extremos resiste a cinco minutos de bom senso.
A Europa precisa de imigração.
Mas precisa igualmente de integração, de coesão social, de respeito pelos valores constitucionais e de políticas públicas que inspirem confiança.
Porque a democracia assenta numa ideia simples: quem perde eleições deve procurar convencer mais pessoas.
Não procurar pessoas diferentes para ganhar eleições.
Brecht percebeu isso em 1953.
Talvez alguns governantes europeus devessem reler o poema.
Mesmo correndo o risco de descobrirem que o problema nunca foi o povo.
Se o povo não confia no governo?... Dissolva-se o povo!
O regime cubano, que passou mais de 60 anos a acreditar que a economia podia ser gerida como quem organiza uma festa de aniversário, "tu levas os salgadinhos, eu trato dos refrigerantes e o Estado decide quanto custa cada um", descobriu agora uma realidade surpreendente: tabelar preços produz escassez, filas, mercado paralelo, corrupção e desinvestimento.
O salário médio é uma estatística simpática. Faz-nos sentir melhor. É como aquelas fotografias de Natal da família do Cristiano Ronaldo em o primo em terceiro grau, por contágio estatístico, se sente momentaneamente milionário.
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