Sábado – Pense por si

Tiago Freitas
Tiago Freitas Analista em Assuntos Europeus
25 de junho de 2026 às 08:11

O Chega e o barco insuflável

A história recente demonstra que a relação do líder do Chega com a verdade e com a reserva negocial é, digamos, criativa.

Três dias após o inusitado e caricato chumbo, por parte do Chega , da reforma laboral na Assembleia da República, André Ventura veio garantir que a ministra do Trabalho teria admitido reduzir em dois anos a idade da reforma para os trabalhadores por turnos. Pode ser verdade. Pode não ser. Quando o mensageiro é Ventura, a prudência aconselha a não tomar nada como adquirido. A história recente demonstra que a relação do líder do Chega com a verdade e com a reserva negocial é, digamos, criativa.

Foi assim na eleição de Aguiar-Branco para a presidência da Assembleia da República. Foi assim nos Orçamentos do Estado. Foi assim em processos de revisão constitucional.

Aliás, este padrão não nasceu com a reforma laboral. Recorde-se que, logo no início da legislatura, o Chega garantiu viabilizar a eleição de José Pedro Aguiar-Branco para a Presidência da Assembleia da República, no âmbito das conversações normais e indispensáveis para a composição da Mesa. Depois de assegurar nos bastidores aquilo que a praxe parlamentar sempre exigiu, André Ventura decidiu transformar negociações institucionais em supostos "acordos secretos de poder", roeu a corda e mandou chumbar o candidato nas primeiras votações, vendendo para a opinião pública lugares regimentais como se de "tachos" se tratassem, e revelando publicamente conversas que deveriam permanecer na reserva negocial. O mesmo padrão repetiu-se nos processos orçamentais, tanto com o PS como com a AD. Em 2024 e 2025, o partido começou por dar sinais de abertura, participou em reuniões, discutiu medidas e exigências concretas, para depois abandonar as negociações, revelando detalhes das propostas e acusando os governos de "traição", numa tentativa de capitalizar politicamente o fracasso dos entendimentos. E nem a revisão constitucional escapou a esta lógica. Depois de participar em reuniões à porta fechada, onde se procuram inevitavelmente consensos qualificados, o Chega recuou em várias matérias, optando por expor publicamente posições e cedências dos restantes partidos, inviabilizando compromissos e transformando aquilo que deveria ser um exercício de construção institucional numa arma de combate mediático. O método é sempre o mesmo: a negociação serve enquanto palco; quando chega a hora da responsabilidade, entra em cena a vitimização e a denúncia dos "arranjinhos do sistema" dos quais, até cinco minutos antes, o próprio partido participava.

Foi assim também, mais recentemente, no já referido e anedótico episódio da votação da reforma laboral, em que, após dias de negociações, o Chega acabou por chumbar um diploma que, nas suas linhas gerais, sempre disse defender.

Convém separar as coisas. Cerca de 800 mil portugueses trabalham por turnos. São 15% da população empregada. Não são meia dúzia de pessoas, mas também não são todos os trabalhadores. Trata-se de um universo expressivo, mas perfeitamente suscetível de justificar medidas específicas. Tal como se fizeram adaptações para forças de segurança e defesa, uma redução de um ou dois anos da idade da reforma para determinadas profissões particularmente desgastantes é matéria que merece ser discutida. Um ano pode ter um impacto significativo para quem trabalha e um efeito substancialmente diferente nas contas da Segurança Social. Mas a matéria seria debatível se o interlocutor fosse sério. Aliás, se existisse, sequer, interlocutor. 

Mas é precisamente aí que Ventura joga. Pega numa eventual medida cirúrgica para um nicho profissional e vende-a como prova de que não seria uma loucura reduzir genericamente a idade da reforma. É a velha arte de convencer as pessoas de que a beira da estrada e a estrada da Beira são a mesma coisa.

No fundo, o líder do Chega nunca quis aprovar a reforma laboral. Quis apenas garantir que não era responsabilizado pelo seu chumbo. O guião já é conhecido: apresentar uma exigência maximalista, esperar que o Governo não a aceite e, depois, proclamar que foi traído.

Aliás, o problema do Chega não é ideológico. Já o escrevi várias vezes. É infra-ideológico. O partido adapta-se à conveniência do dia. Num momento reclama uma "histórica maioria de direita" para mudar o regime. No seguinte, André Ventura descobre que afinal não é de direita em matérias laborais. E, no hemiciclo, levanta o punho cerrado, enquanto a sua própria bancada, transformada numa coleção de marionetas perplexas, nem sabia em que sentido ia votar.

A cena teria sido cómica, não fosse trágica. Arnaldo Matos, se assistisse, talvez pedisse direitos de autor.

Mas não surpreende. Estamos a falar de um partido que não se preocupa particularmente em escrutinar os seus candidatos. Meliantes, pedófilos, estupradores ou outros espécimes vão entrando pela porta dentro. Quando são apanhados, a resposta é sempre a mesma: "foram expulsos". Como se a falta de critério no recrutamento fosse uma fatalidade meteorológica e não uma escolha.

Ventura sabe perfeitamente o eleitorado que alimenta. Uma parte significativa dos seus apoiantes é composta por aqueles portugueses de esplanada,  normalmente uns tipos porreiros, diga-se,  que adoram lançar bojardas sobre matérias que desconhecem. São os mesmos que garantem que os imigrantes vêm roubar os empregos, as mulheres e o património nacional, mas que ao mesmo tempo defendem uma legislação laboral tão rígida que só falta incluir no Código do Trabalho uma pausa obrigatória para o café entre as dez e o meio-dia e outra entre as duas e meia e as quatro da tarde.

São também os que bradam contra a "pouca vergonha dos subsídios", exceto os que eles próprios recebem, porque esses "fazem falta".

Há aqui um efeito Dunning-Kruger em versão portuguesa, servido com imperial e tremoços. 

O mais preocupante é que existe hoje um problema de regime. O terceiro partido mais votado, que por uma particularidade do sistema é o segundo grupo parlamentar, tornou-se politicamente inútil como parceiro de governação séria. Não conta para ninguém. Não é fiável para o PSD. Não é aceitável para o PS. E nem sequer se preocupa com isso. O seu crédito político é nulo. E Ventura parece viver perfeitamente confortável nessa condição.

O Governo ficou descalço com o chumbo da reforma laboral. Ventura também saiu maculado. A diferença é que Montenegro precisa de governar. Ventura precisa apenas de continuar a produzir indignações para consumo imediato.

Luís Montenegro terá de aprender que o jogo do gato e do rato com José Luís Carneiro,  "se não aprovares isto, vou negociar com o Chega" ,  tem limites. Porque ameaçar negociar com alguém que se especializou em romper acordos é como ameaçar atravessar o Atlântico num barco insuflável. Pode impressionar na fotografia, mas dificilmente inspira confiança.

O próximo Orçamento promete ser mais um teste de nervos.

E as eleições de 2027, que há poucos meses pareciam uma miragem distante, começam a ganhar contornos de inevitabilidade.

Talvez porque um país se pode governar com divergências. O que não se consegue é governar com parceiros que confundem negociação com emboscada e política com espetáculo.

E isso, infelizmente, já não é uma suspeita. É um padrão.

Mais crónicas do autor
25 de junho de 2026 às 08:11

O Chega e o barco insuflável

A história recente demonstra que a relação do líder do Chega com a verdade e com a reserva negocial é, digamos, criativa.

18 de junho de 2026 às 07:21

O Triunfo da pataniscas, ou o país do forno desligado!

O salário médio é uma estatística simpática. Faz-nos sentir melhor. É como aquelas fotografias de Natal da família do Cristiano Ronaldo em o primo em terceiro grau, por contágio estatístico, se sente momentaneamente milionário.

10 de junho de 2026 às 07:00

Deixem-nos respirar

Henry Nowak tornou-se mártir precisamente porque tentaram silenciá-lo.

28 de maio de 2026 às 08:07

Façam de conta que somos moçambicanos

Se continuarmos neste ritmo, qualquer dia descobre-se em Lisboa as ceroulas da dona Carlota Joaquina, recuperada da escala que o D. João VI fez na Madeira quando se “pisgou” para o Brasil e algum burocrata iluminado decide pedir de volta metade do Jardim Municipal.

20 de maio de 2026 às 20:00

Orçamento Terminal

O Conselho das Finanças Públicas já alertou que 2027 e 2028 serão anos “muito desafiantes”, contando que o crescimento da economia portuguesa estagnou entre os 1,6% e 2%, ancorado sobretudo no consumo privado e no turismo.

Mostrar mais crónicas