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A onda de calor afetou vários países europeus da mesma forma: temperaturas extremas que mantêm o corpo humano sob pressão térmica 24 horas por dia, com mortes associadas ao calor, segundo a OMS.
Há dias conversava com uma amiga que vive fora de Portugal, num país do centro da Europa. E não interessa qual, estão todos a passar pelo mesmo. Dizia-me que ia usar o gel para pernas pesadas nos pés, para se refrescar. Era noite. Em casa e na rua, a mesma temperatura. As casas, aqui, dizia, foram feitas para reter o calor e não há ar condicionado em lado nenhum. Ventoinhas também não há muitas. Ou são baratas e ineficientes, ou muito grandes e caras. E ninguém quer um “mono desses” na sala. É uma vaga de calor, vai passar, afirmava. E pensei: será? Vai passar ou voltar ainda com maior intensidade?
Pedi-lhe para me explicar o calor, comparando-o com o que conhecemos. Não era como o nosso, dizia. Nem seco como no Alentejo, ou aquela sensação de que até o betão vai rachar, como por vezes acontece em Lisboa. Talvez aquele calor beirão mas, ainda assim, diferente. E acrescentou que, na véspera, a água no lago parecia “sopa”, mais quente do que o ar.
Vagas de calor sempre existiram, tal como as tempestades, os incêndios, os tsunamis. Estão cada vez mais intensos e frequentes. Na Europa, e no mundo, não sabemos como lidar. Aqui estamos pouco preparados para os extremos. Fomos sempre mellanmjölk, como dizem os suecos. Leite meio gordo, a metáfora para o que é assim-assim. O normal, sem grandes emoções. As emoções, se assim quisermos dizer, estão ao rubro e as pessoas estão a morrer. Literalmente.
Portugal é um país de verões quentes, por vezes demasiado quentes, e tem sido poupado ao calor que assola a Europa. Se aqui só nos lembramos de comprar aquecedores quando faz frio, e ar condicionado quando faz calor, o que dizer de quem nunca teve sequer essa necessidade? Os aparelhos esgotaram na Alemanha. E a minha amiga lembrava-me que, onde vive, quase não há ar condicionado em lado nenhum. O que fazer quando está mais quente em casa do que na rua? Como sobreviver a uma canícula que derrete corpo e mente? Aguentar? E se a coisa se repetir indefinidamente, com picos que não nos deixam respirar?
Tenho mais perguntas do que respostas. Entretanto, querem que levemos as garrafinhas para reciclar. Já não chegava separar o lixo em quatro caixotes, levá-lo limpo para os respetivos contentores na rua. Agora há uns cêntimos a ganhar por depositar plásticos e latas no sítio certo. A questão é mais ampla: são umas garrafinhas que nos vão salvar, ou estamos a tentar parar o vento com as mãos? A salvar tartarugas, uma palhinha de cada vez?
A onda de calor afetou vários países europeus da mesma forma: temperaturas extremas que mantêm o corpo humano sob pressão térmica 24 horas por dia, com mortes associadas ao calor, segundo a OMS. Os especialistas dizem que estas vagas sempre existiram, mas que a probabilidade de se repetirem, na Europa, aumentou. Até à próxima, teremos tempo de implementar medidas, ou vamos depender de ar condicionado, que nestes países não é a regra, sobretudo em edifícios públicos? Vamos concretizar políticas públicas de combate à desigualdade social, ou deixar andar? Mudar a mentalidade, ou continuar a confiar? Confiar em quê? São perguntas como este calor. Insustentáveis.
A onda de calor afetou vários países europeus da mesma forma: temperaturas extremas que mantêm o corpo humano sob pressão térmica 24 horas por dia, com mortes associadas ao calor, segundo a OMS.
A pressão do excesso, da aparente importância em captar a imagem perfeita, ou mostrar que se esteve no mesmo local que milhões de outras pessoas é real.
Ouço cada vez mais que se perdeu a paciência para redes sociais. Ainda não se queixam sobre a Inteligência Artificial com a mesma bonomia mas, acredito, não vai demorar.
A caderneta Panini existe desde 1961. Sessenta e cinco anos depois, o modelo é o mesmo: compra-se a caderneta, abrem-se saquetas com cromos aleatórios, cola-se. A diferença é a escala.
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