Ouço cada vez mais que se perdeu a paciência para redes sociais. Ainda não se queixam sobre a Inteligência Artificial com a mesma bonomia mas, acredito, não vai demorar.
Há dias escrevi um artigo para um jornal e dei-me conta das vezes em que quase comecei um texto dizendo que o mundo mudou. Evito fazê-lo porque é uma afirmação óbvia, mesmo que verdadeira. Contudo, a mudança é impossível de ignorar, mesmo que queiramos resistir-lhe. Queremos?
Acho seguro dizer que todos gostamos da maior parte das comodidades modernas mas tenho dúvidas se podemos afirmar o mesmo em relação ao preço que pagamos por essa cómoda forma de fazer as coisas. Primeiro porque cada comodidade acarreta um vício facilmente transformado em dependência, como de deixássemos de ser capazes de estar, fazer ou viver sem aquela nova ferramenta ou funcionalidade. Terá sido assim a evolução da técnica e da tecnologia, com ferramentas, práticas e dispositivos que se complementam e substituem, alterando também o que, e como fazemos. Agora chega. Creio que todos o sentimos. Foi bom mas está a ser demais.
Os sinais estão por todo o lado e ouço cada vez mais que se perdeu a paciência para redes sociais. Ainda não se queixam sobre a Inteligência Artificial com a mesma bonomia mas, acredito, não vai demorar. O problema é real e ultrapassa largamente o que ouvimos dizer, ou o que comentam os amigos. E o problema também passa pela ténue linha que separa a observação da teoria da conspiração.
Em teoria, a tecnologia é neutra. Contudo, a sua criação, e desenvolvimento, depende sempre de uma (ou várias) decisão humana. E nenhum ser humano é totalmente isento de culpa. Na razão sobre a qual as coisas são como são, interferem múltiplos aspetos, do ego à motivação individual, sede de poder ou altruísmo social, da sociedade como um todo e do indivíduo enquanto parte dela. Os modos de agenciamento ultrapassam a nossa compreensão e vão muito além do poder ou ganância. De fato, os indícios são cada vez mais óbvios e a IA não é apenas uma ferramenta quotidiana mas, antes, uma forma de centralizar o processo de tomada de decisão à escala global. O controlo da mente é a forma mais básica e bem sucedida de controlo social e temos estado a entregar de bandeja o que nos garantiu autonomia: a nossa privacidade e a capacidade para pensar.
A mais recente inovação da Google, a empresa que detém aquele que será, talvez, o motor de busca mais popular do mundo, o Google, foi testada e avançou. Até aqui, qualquer pesquisa resultava numa lista de páginas que poderíamos visitar para encontrar o que estaríamos a procurar. Depois de um período em que os resultados incluam IA, agora, em vez de listar páginas nas quais pode estar a resposta, o Google quer responder à pergunta, criando uma dinâmica de conversação, tal como qualquer LLM (Large Language Model), um modelo de linguagem treinado a partir de uma vasta (muito vasta) base de dados de informação, para reconhecer padrões de linguagem e, dessa forma, poder prever as palavras e frases que usamos, criando as respostas a partir do cálculo de probabilidades, permitindo que qualquer utilizador possa conversar com a ferramenta, sem necessidade de saber programar. É, no fundo, semelhante ao ChatGPT que todos certamente conhecemos. Vantagens? Vejo poucas, começando pelo fato desta ser uma opção que é oferecida por defeito e que, seguramente, a maior parte dos utilizadores não reconhece, entendendo o processo como uma evolução natural do Google. Estes modelos tendem a ser imparciais mas procuram sempre responder à questão. Ainda que indiquem as fontes, há uma credibilização destes modelos. A maior parte dos utilizadores assume os resultados como verdadeiros, sem os confirmar, sequer questionar. Os mais atentos sabem que, muitas vezes, a IA erra. Mas as crianças e os jovens estão a ser educados e socializados num contexto em que a IA tudo sabe e a tudo responde. E se antes diziamos para ‘procurar no Google’ e tal obrigava a uma capacidade de seleção e análise dos resultados, os utilizadores menos experientes e mais jovens vão rapidamente habituar-se a receber resultados para as perguntas que fazem sem os questionar. É isso que queremos para os nossos filhos? Antigamente - ou seja, algures nos últimos vinte anos -, procurar dava trabalho e exigia algum empenho. Era preciso avaliar as ligações que nos eram apresentadas, verificar a sua credibilidade e, muitas vezes, descobrir o inesperado através de um link sugerido. A pesquisa não era o resultado mas sim o processo. O processo, acabou.
A Google, através do seu motor de busca, o Google, passou a decidir qual a resposta à nossa questão e eu lamento mas quero uma lista de opções antes de tomar uma decisão. Quero o trabalho que representa, e o tempo que me obriga a pensar sobre o que estou a procurar, e os resultados que estou a obter. Mudar a frase ou a palavra para melhorar os resultados. Tentar, uma e outra vez até dar. Se para as pequenas coisas do dia-a-dia esta mudança pode ser de grande utilidade, o problema são as grandes coisas, e as grandes questões da vida, que deixam de nos ser apresentadas e passam a ser uma resposta cuja fonte desconhecemos e nem sabemos quem escreveu. E se não questionamos, apenas aceitamos.
Golpe de marketing ou boa intenção, Jack Clark, co-fundador da Anthropic (Claude, um modelo em tudo semelhante ao ChatGPT), veio a público dizer que era preciso abrandar antes que a IA fosse capaz de se auto-controlar e escapar ao nosso controlo ou seja, capaz de aprender sem intervenção humana. Se pensarmos que é esta mesma IA que nos anda a dar respostas às nossas perguntas, será tempo de dizer, “Houston, we have a problem”.
‘Houston, we have a problem’: a IA completamente insustentável
Ouço cada vez mais que se perdeu a paciência para redes sociais. Ainda não se queixam sobre a Inteligência Artificial com a mesma bonomia mas, acredito, não vai demorar.
A caderneta Panini existe desde 1961. Sessenta e cinco anos depois, o modelo é o mesmo: compra-se a caderneta, abrem-se saquetas com cromos aleatórios, cola-se. A diferença é a escala.
Com uma pequena alteração nos termos e condições, a Meta passou a poder aceder ao conteúdo das mensagens diretas do Instagram, incluindo imagens, vídeos e notas de voz. Encriptação? Foi-se. Termos e condições? Os que aceitamos sem ler e os quais, sem aceitar, não podemos usar a aplicação. Justo?…
Há quem acuse os media de apresentar problemas sem soluções. Uma análise prévia aos media de serviço público, sobre as notícias relativas às alterações climáticas, concluiu isso mesmo.
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