Sábado – Pense por si

Miguel Costa Matos
Miguel Costa Matos Economista e deputado do PS
30 de junho de 2026 às 11:41

A verdade dos números da imigração

Tanto em 2020 como em 2025, o INE fez grandes correções às suas estimativas anteriores, aumentando retrospetivamente o crescimento de praticamente todos os anos.

A semana passada o INE reviu a sua estimativa da população residente em Portugal, aumentando a cifra de 2024 em 637 mil pessoas. O foco mediático foi no aumento da população estrangeira, que duplicou entre 2021 e 2025, e as consequentes ilações a tirar sobre política migratória e sobre o percurso da nossa economia nos últimos anos. 

Alguns não aguentaram o entusiasmo e dividiram logo o PIB antigo com os novos dados da população, concluindo que afinal não teríamos convergido com a Europa coisa nenhuma, que somos o 6.º país mais pobre da UE e que tudo isto foi uma “fraude” perpetrada pelos malvados socialistas. É, no limite, uma conclusão abusiva e precipitada. 

Em primeiro lugar, porque também os dados do PIB terão de ser revistos. Uma dimensão dessas contas depende da estimativa da população empregada – estimativa essa obtida através do Inquérito ao Emprego, realizado a uma amostra que agora compreenderá uma população maior. Estes dados serão revistos em fevereiro de 2027, sendo os dados do PIB consequentemente recalculados em março de 2027. Se quisermos ser rigorosos, só nessa altura poderemos tirar conclusões sobre a convergência da economia portuguesa. 

Todavia, a saga das revisões estatísticas é improvável que fique por aqui. Tanto em 2020 como em 2025, o INE fez grandes correções às suas estimativas anteriores, aumentando retrospetivamente o crescimento de praticamente todos os anos, tendo errado na cifra de 2017 uns impressionantes 0,7pp e de 2023 outros 0,5pp. Só nessa altura saberemos quanto é que Portugal convergiu com a Europa. 

O INE também não subestimou apenas os imigrantes. No ano de 2023, último ano com dados disponíveis, contam-se agora mais 305 mil estrangeiros. Contudo, também a população nacional foi revista em alta em 260 mil pessoas. A nota metodológica que o próprio INE publica revela como isto é uma base da população “potencialmente” residente. “Potencialmente” porque, apesar de agora contar com mais informação da AIMA e não só sobre as chegadas de imigrantes, o INE ainda tem uma noção muito débil das partidas. Seja porque estão a ir para outras paragens ou porque estão a regressar a casa, essa é uma realidade crescente da imigração em Portugal. 

É certo que esta peripécia estatística oferece ao Governo um bode expiatório. A Ministra da Saúde já tinha culpado a falta de médicos de família na imigração. A Ministra do Trabalho estaria disponível para excluir imigrantes que pagam impostos das prestações sociais. O Secretário de Estado da Imigração não exclui mesmo regressar à perda de nacionalidade, considerada inconstitucional duas vezes pelo Tribunal. 

A polarização e pobreza do nosso discurso político, no entanto, impede-nos de falar sobre estes assuntos com a seriedade que merecem. Podem dizer que a transição do SEF para a AIMA foi demasiado demorada. É difícil discordar. Mas alguém pode dizer que a situação nos aeroportos estaria melhor se as antigas funções do SEF não estivessem a ser feitas por um efetivo muito maior da PSP e GNR? Podem alegar que havia fraude em algumas vias de entrada legal da imigração, mas a verdade é que praticamente todos os imigrantes vieram estudar ou trabalhar – mesmo a manifestação de interesses exigia que a pessoa trabalhasse e descontasse para a Segurança Social. Queremos voltar ao tempo em que o Estado estabelecia uma quota no papel que limitava a liberdade das empresas em contratar? 

Há que ser absolutamente claro em relação às consequências desta visão: encerrar as portas da imigração é fechar as portas não só da agricultura e da restauração, mas de muita indústria e da respetiva logística. É atrasar a construção e pôr em risco o setor social e da saúde, que depende de imigrantes para cuidar dos nossos idosos e não só.  

Não é só pôr em risco a sustentabilidade da Segurança Social, obrigando a um aumento da carga fiscal. É que, sem eles, não havia tanto investimento empresarial. Para muitas empresas, no setor dos serviços, o problema chega mais longe – um programador numa grande multinacional não quer esperar anos para poder trazer o cônjuge e os filhos para o mesmo país. Infelizmente, a nova obsessão da direita com este tema é insensível às realidades concretas das empresas e de quem trabalha nelas. 

É certo que uma parte destas necessidades podem ser supridas por portugueses que regressem e, no futuro, por maior natalidade. Mas também aí os imigrantes são uma desculpa curta para um país no rumo errado. Os rendimentos são o fator decisivo para tanto a decisão de regressar como a de procriar. Infelizmente, em dados também divulgados esta semana pelo INE, nestes 2 anos, o crescimento dos salários nas empresas abrandou de 12 para 7%. Já enquanto o CDS propõe aumentar a dedução no IRS para o terceiro filho em 1,23€ por dia, é preciso ter atenção às instituições que estão a sair do Programa Creche Feliz, oferecendo um rombo bastante maior a milhares de famílias. 

É legítimo que se olhe criticamente para a duplicação da população estrangeira e se alimente o medo de que isso fira a nossa coesão social. É importante que se discuta o impacto da imigração no crescimento económico e na disponibilidade de serviços. Mas a discussão não tem só dois lados. Tem factos e tem alternativas que importa serem postas em cima da mesa. Quem não os quiser reconhecer pode-se agarrar a estes dados estatísticos, mas percebemos bem que continuam a não estar acima das meras perceções. 

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