É pelo Estreito de Ormuz que passam os navios que transportam um quinto do petróleo mundial. Há 500 anos, os produtos eram outros e no estreito quem mandava era Portugal.
Limitado a norte pelo Irão e a sul por Omã e pelos Emirados Árabes Unidos, o Estreito de Ormuz é um corredor marítimo que tem 33 quilómetros de largura no seu ponto mais estreito, ligando o Golfo Pérsico ao Mar Arábico. E a sua história também liga o Oriente a Portugal, país que durante um século, entre 1515 e 1622, dominou o estreito e as trocas comerciais que por ali passavam. Ainda hoje há vestígios da presença portuguesa no Estreito de Ormuz, que volta a estar no centro das atenções mundiais. A SÁBADO falou com o historiador João Paulo Oliveira e Costa.
Pormenor do Planisfério de Cantino (1502), com o golfo Pérsico (a Azul) e o Estreito de Ormuz
O Estreito de Ormuz é o ponto de passagem de cerca de 20% do petróleo e gás mundial. Mas o que habitualmente funciona como o canal de transporte de petróleo mais movimentado do mundo está praticamente parado, após o Irão ter ameaçado incendiar qualquer navio que tente atravessar o estreito. O general iraniano Sardar Jabbari, aliás, declarou que Teerão "não deixará sair uma única gota de petróleo da região", mas Teerão agora nega que tenha intenção de fechar o estreito. "Não o fechámos. São os navios e os petroleiros que não tentam atravessá-lo, pois temem ser atingidos por um dos lados", afirmou Abbas Araghchi, ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano, ao canal norte-americano NBC News.
Não é o primeiro conflito que se estende a este importante estreito e Portugal já por ali andou a levantar ondas. Há 500 anos, Afonso de Albuquerque (c.1453-1515) liderou uma armada para conquistar alguns pontos da região. E conseguiu, numa incursão que resultou na permanência portuguesa em Ormuz durante um século.
Um ponto forte dos portugueses
“Portuguese fortress”, lê-se em inglês numa placa junto a uma fortificação em ruínas na iraniana ilha de Ormuz (outrora chamada Gerum). É o Forte de Nossa Senhora da Conceição de Ormuz, e a descrição in loco, traduzindo, reza assim: “A construção da fortaleza foi ordenada pelo comandante português Afonso de Albuquerque em 1507 e levou 30 anos para ser concluída. A fortaleza foi utilizada pelos portugueses durante 115 anos. Este edifício é composto por uma torre, guarnição, quartel-general, capela, reservatório e masmorra. Os portugueses foram expulsos de Ormuz pelo comandante Imam Quli Khan em 1622, durante o reinado do rei safávida Abbas."
Assim se resume a história na mais importante fortificação portuguesa na região que hoje é uma frente de batalha entre os Estados Unidos da América (EUA) e Israel contra o Irão, país que tem ripostado contra países vizinhos que acolhem bases militares dos EUA. Mas há 500 anos, as batalhas opunham a armada portuguesa aos reinos locais, entre os quais o Reino de Ormuz.
A ocupação portuguesa no Golfo Pérsico tem lugar no reinado de D. Manuel I e um dos nomes que se destacou nestas incursões marítimas pelo Oriente foi o de Afonso de Albuquerque, destemido fidalgo e militar que – primeiro com Tristão da Cunha – conquista a ilha de Socotra, no Mar Arábico (hoje território do Iémen). Isto, numa fase em que ainda “estavam a tentar perceber quais os sítios que mais interessantes para controlarem as redes mercantis”, explica o João Paulo Oliveira e Costa. Rapidamente, esta aposta revelou-se pouco eficaz e Afonso de Albuquerque ruma para norte com os seus navios, em direção a Ormuz, em busca de provisões, acabando por conseguir ali fixar as suas forças. No entanto, uma frota reduzida e a falta de suprimentos ditaram um recuo para Socotra.
Albuquerque torna-se governador da Índia em 1509, conquista Goa em 1510 e Malaca em 1511 e, em 1515, regressa a Ormuz, mais bem preparado do que na primeira vez. “No princípio do século XVI, o território da Arábia estava nas mãos de tribos antes da conquista otomana, e o Irão estava a ser reunificado por uma dinastia de Xás, que eram os safávidas. E, portanto, os safávidas estavam mais preocupados nos combates contra a Mesopotâmia, não estavam preocupados com o comércio marítimo, era uma potência mais virada para a ocupação dos espaços”, explica o historiador.
“O que os portugueses fazem é, no fundo, obrigar Ormuz a aceitar tornar-se um protetorado dos portugueses, e com Ormuz todas as cidades do Golfo Pérsico que Ormuz dominava”, acrescenta. Por esta altura, Afonso de Albuquerque ordena a continuação da construção da fortaleza, cuja primeira pedra tinha sido lançada em 1507. Mas nesta época foram construídas várias fortalezas portuguesas, como o Forte do Barhein, num país que ataca os portugueses em 1521, sem sucesso. Uma construção recuperada há algumas décadas e que é Património Mundial da UNESCO desde 2005.
Era a partir do Bahrein, ilha do Golfo Pérsico, que se comercializava uns dos mais preciosos produtos que passavam pelo Estreito de Ormuz em direção à Índia: as pérolas. E se hoje é o petróleo que se destaca no comércio por Ormuz, no século XVI eram os cavalos de guerra. “O problema é que na Índia, embora usassem muito cavalaria nas guerras, os cavalos não se reproduziam”, diz o historiador (muito resumidamente, os cavalos de guerra têm, claro, capacidade de reprodução, mas eram habitualmente castrados). “O cavalo tinha um valor extraordinário para os estados guerreiros, porque tinham de estar sempre a comprar, não valia a pena comprar cavalos reprodutores, tinham de os comprar sistematicamente”, continua, sublinhando que “a importância de Goa, logo que a cidade é conquistada, é ser um grande centro de vendedor de cavalos para o interior da Índia”. Todo o dinheiro angariado com as taxas alfandegárias servia para “o financiamento do Estado Português da Índia, não para Portugal”, que teve sempre “orçamentos com superavit” até à queda da Ormuz em 1622 – na sequência de uma força combinada de ingleses e persas - quando passa a ter “orçamentos com prejuízo”.
Um homem com visão
Afonso de Albuquerque morreu pouco após o domínio de Ormuz, no seu regresso à Índia, vítima de doença. Não sem antes descobrir que D. Manuel I o iria substituir como Governador da Índia. “Os governos eram trienais e em 1515, o rei, em vez de o reconduzir no governo, enviou para o substituir o Lopo Soares da Albergaria, que chegou à Índia entre outubro e novembro. E, portanto, quando o Afonso de Albuquerque está a caminho da Índia, vindo do Golfo Pérsico, ainda recebeu a notícia de que ia ser substituído, quando queria ficar lá mais três anos. Aí foi claramente uma derrota política”, conta João Paulo Oliveira e Costa.
A verdade, é que as suas vitórias, como a conquista de Goa, Malaca e a dominação de Ormuz só foram possíveis pela “visão estratégica” de Afonso de Albuquerque: “Porque é ele que escolhe, não é o rei que o manda. Porque está no terreno e percebe que são as cidades cruciais para que os portugueses possam estar na Índia, autónomos”.
Para poder adicionar esta notícia aos seus favoritos deverá efectuar login.
Caso não esteja registado no site da Sábado, efectue o seu registo gratuito.
Para poder votar newste inquérito deverá efectuar login.
Caso não esteja registado no site da Sábado, efectue o seu registo gratuito.