Quando o desequilíbrio aparece nas contas públicas, surge então a inevitável expectativa de que o Estado central venha resolver o problema.
Persiste um rumor político que começa a ganhar corpo
em Lisboa: a possibilidade de o Governo de Luís Montenegro vir a conceder aos
Açores uma espécie de plano de ajustamento económico e financeiro, um PAEF
informal, para acudir à deterioração acelerada das contas públicas da Região.
Se tal vier a confirmar-se, será difícil não olhar para essa decisão com algum
espanto. Não porque os Açores não mereçam solidariedade nacional, naturalmente
merecem, mas porque a situação que hoje enfrentam resulta, em larga medida, de
opções políticas tomadas ao longo de anos por sucessivos executivos regionais,
envolvendo praticamente todo o espectro partidário representado na Assembleia
Legislativa açoriana. Falamos de políticas fiscalmente sedutoras, mas
estruturalmente frágeis: redução da taxa normal do IVA para 16%, no mínimo
legal permitido; congelamento ou fixação administrativa de preços de bens
essenciais, como o gás; e um conjunto de medidas com evidente retorno político
imediato, mas com impacto prolongado nas receitas públicas, aliado a uma
política fortemente subsidiária e pouco amiga do investimento.
O problema é
simples: baixar impostos e fixar preços é popular; voltar atrás nessas decisões
é politicamente quase impossível. Quando o desequilíbrio aparece nas contas
públicas, surge então a inevitável expectativa de que o Estado central venha
resolver o problema. Os números ajudam a perceber o contexto. Em 2024, a
receita de IVA nos Açores rondou os 395 milhões de euros. Na Madeira
ultrapassou 625 milhões. E isto já considerando o mecanismo de capitação
previsto na portaria de repartição do imposto, que tenta estimar o consumo real
nas ilhas quando as operações são registadas no continente. Sem esse mecanismo,
a diferença seria ainda maior. E enquanto a Madeira pugna pela baixa do IRC,
para favorecer a atração de empresas, a criação de novas, ou maior investimento
das já existentes, numa lógica de redução da taxa tributária para aumento da
base tributária, nos Açores a opção foi de baixar a âncora da receita fiscal,
com efeitos que agora conhecemos. Em termos orçamentais, a diferença nas
receitas fiscais é de quase 500 milhões que a Madeira arrecada a mais que o seu
arquipélago irmão ( em 2024 pouco mais de 850 milhões nos Açores e cerca de
1320 milhões na Madeira).
São escolhas políticas diferentes, evidentemente.
Continuando a analisar “escolhas”, um dos fatores que ajuda a compreender a
deterioração recente das contas públicas açorianas foi precisamente a
integração de empresas do grupo SATA no perímetro orçamental regional. De
acordo com o Conselho das Finanças Públicas, essa integração contribuiu para
que o défice da Região Autónoma dos Açores atingisse 4,3% do PIB regional em
2024, agravando-se significativamente face ao ano anterior. Este dado recorda
uma realidade muitas vezes esquecida no debate político: não basta querer ter
companhias aéreas regionais públicas, é preciso ter capacidade financeira para
as sustentar. Na Madeira também existe, ciclicamente, quem defenda a criação de
uma companhia aérea pública regional ou até de uma companhia marítima regional.
Mas essas ideias devem sempre ser avaliadas à luz do impacto nas contas
públicas e do compromisso orçamental que implicam. A manta, como se costuma
dizer, não estica: se se tapam os pés, destapa-se a cabeça. Empresas públicas
de transporte exigem capitalização permanente, cobertura de prejuízos e
garantias financeiras que acabam inevitavelmente refletidas no défice e na
dívida.
Não por acaso, a própria União Europeia acabou por dar luz verde a um
processo de reestruturação e privatização da SATA Internacional (Azores
Airlines), precisamente para reduzir o peso dessas responsabilidades no
perímetro financeiro da Região. A diferença de abordagem também se nota nas
opções fiscais adotadas ao longo da última década. Nos Açores, as reduções de
impostos sobre o rendimento e sobre as empresas foram introduzidas com forte
impulso político, mas sem os estudos de impacto económico e orçamental que, no
caso da Madeira, precederam reformas fiscais semelhantes. A consequência acabou
por refletir-se na evolução da receita fiscal e no equilíbrio das contas
públicas regionais. Curiosamente, mesmo quando recuamos ao período do Programa
de Ajustamento Económico e Financeiro da Madeira, há cerca de década e meia,
encontramos outro contraste relevante.
A Madeira foi sujeita a um escrutínio
extremamente rigoroso e acabou por criar instrumentos particularmente exigentes
de acompanhamento e controlo orçamental. Nos Açores, pelo contrário, o período
foi marcado por uma relativa inércia reformista, sem consequências políticas ou
institucionais comparáveis. Paradoxalmente, enquanto a Madeira era apontada
como exemplo de excesso orçamental que exigia disciplina, o marasmo açoriano
parecia ser tolerado, ou até premiado, pela ausência de pressão reformista
equivalente. E , no país, a voz corrente continua a ser de que a Madeira é
despesista, e “vive à custa do contribuinte nacional” , uma formulação que o
líder parlamentar do PSD quase recuperou recentemente no debate do Subsídio de
Mobilidade, quando o percurso da dívida da Pérola do Atlântico diz exatamente o
contrário. Mas, regressando às escolhas de natureza política e orçamental,
quando produzem resultados distintos nas contas públicas das duas Regiões, é
legítimo perguntar se o Estado deve responder da mesma forma a todas as
situações. Basta olhar para o Orçamento do Estado de 2026. Ao abrigo do artigo
48.º da Lei de Finanças Regionais, a Madeira recebe 214 milhões de euros,
enquanto os Açores recebem 220 milhões. A fórmula matemática beneficia sempre a
outra Região, pois relaciona ilhas povoadas com a “distância para a capital de
distrito mais próxima”.
Com o fim dos governos civis, e respetivos
governadores, ainda alguém me explicará o que são, em 2026, “capitais de
distrito”! Os açorianos ainda recebem 121 milhões do Fundo de Coesão Nacional
(artigo 49º) como “prémio” por não crescerem ao nível da média nacional. Para
mitigar a penalização por a Madeira governar-se bem, recebemos 79 milhões
extraordinários, ficando, contudo, aberta a porta para oferecer aos
Açores 150 milhões para ajudar a executar o PRR, seja lá isso o que significar.
Este quadro liga-se a um problema estrutural da própria Lei de Finanças das
Regiões Autónomas. O atual artigo 49.º cria um paradoxo curioso: quanto mais uma
economia regional cresce, menos transferências recebe. É o chamado efeito do
“bom aluno”. A Madeira ultrapassou a média nacional de PIB per capita e, por
isso, passa a receber menos apoio relativo. No caso do Fundo de Coesão
Nacional, a letra de lei, e respetiva fórmula, reserva-nos 0(zero) euros nas
atuais circunstâncias. Crescer transforma-se num castigo estatístico. É
precisamente por isso que a proposta de revisão apresentada pela Assembleia
Legislativa da Madeira faz sentido: retirar a indexação automática ao PIB
comparado e reconhecer que os custos da ultraperiferia são permanentes, porque
crescer economicamente não elimina a distância geográfica nem os custos da
insularidade. Sem esquecer as obrigações constitucionais de financiamento da
saúde e educação, pilares fundamentais do modelo social europeu, que as Regiões
têm suportado, substituindo-se ao Estado central.
É aqui que regressamos à
velha metáfora familiar. Durante décadas, a Madeira foi tratada como o “enfant
terrible” dos territórios nacionais. Na metáfora doméstica, aquele parente um
pouco irreverente, por vezes considerado arrogante, que insiste em discutir as
regras da casa e reclamar reconhecimento estratégico. Essa fama de irrequieta
nasce muitas vezes da necessidade permanente de se defender de narrativas
incompletas. Um exemplo clássico voltou recentemente ao debate público a
propósito das cheias na zona centro do país: a ideia de que a Madeira recebeu
1080 milhões de euros do Estado para reconstrução após a aluvião de 2010. Essa
afirmação é simplesmente falsa. É muito comum propagandear-se “dádivas” para a
Madeira, vide o alegado perdão da dívida no início do século, que nunca
chegaram a existir. Como escrevi num artigo em 2020, criou-se a perceção de que
a República transferiu integralmente esse montante para a Região. Na realidade,
isso nunca aconteceu. Dos valores anunciados, apenas 200 milhões de euros do
Orçamento do Estado foram efetivamente transferidos. Do IHRU ficaram cerca de
6,7 milhões por pagar. Do IAPMEI, 3,2 milhões nunca chegaram. Do empréstimo do
Banco Europeu de Investimento ficaram por executar 187,5 milhões, sendo que os
67,5 milhões utilizados contaram como dívida da própria Região. Quanto ao
alegado reforço de 265 milhões do Fundo de Coesão, sempre sustentei que não existiu
como reforço autónomo: tratava-se essencialmente de reprogramações de fundos
que já pertenciam à Madeira dentro do envelope nacional. Ou seja, os famosos
“1080 milhões” transformaram-se num mito político conveniente. As próprias
finanças regionais chegaram a contabilizar receitas próprias como sendo verbas
da lei de meios, entendimento político-administrativo, entretanto retificado. E
é curioso notar que hoje, num único ano orçamental, 2026, surgem transferências
extraordinárias para os Açores que se aproximam das que a Madeira recebeu para
enfrentar a maior catástrofe natural da sua história recente.
A Madeira conhece
bem a metáfora das enxurradas. Em 2010 foram de água e lama. Hoje são de
números e decisões orçamentais. Se vier a confirmar-se a criação de um
mecanismo semelhante a um PAEF para os Açores, financiado pelo Estado central,
a pergunta política torna-se inevitável: estará o país disposto a transformar
erros de governação regional em responsabilidades nacionais permanentes? A
solidariedade entre regiões é essencial. Mas também deverá existir
responsabilidade política pelas escolhas feitas. No fundo, aquilo que se espera
de uma relação madura entre o Estado e as Regiões Autónomas: transparência,
previsibilidade e equilíbrio. Sem dádivas, compensações e transferências
extraordinárias, como método habitual, para manter os territórios que dão
profundidade atlântica ao antigo império eternamente agradecidos pela
generosidade ocasional do governo paternal. Até porque começam já a surgir
sinais de outra tempestade financeira no horizonte nacional.
O recurso
crescente ao endividamento, a possibilidade admitida pelo próprio
Primeiro-Ministro de regressar ao défice, a propósito de um PTRR que se espera
não ser apenas pretexto para autorizar endividamento e "alívio" dos
mecanismos de controlo de despesa e contratação, e o inevitável confronto
político que isso provocará, fazem recordar tempos que muitos julgavam
ultrapassados. Se vierem novas cheias nas contas públicas, convinha que não se
repetisse o velho reflexo de apontar o dedo às ilhas. Porque, se há território
habituado a enfrentar tempestades, de água ou de números, é precisamente aquele
“enfant terrible” que insiste em lembrar à família que o Atlântico também faz
parte do país.
Fala-se do filho do Xá. Fala-se de líderes no exílio. Fala-se de figuras que, do exterior, prometem um novo Irão. Mas raramente se equaciona um nome que está, e sempre esteve, dentro da própria história política da República Islâmica: Mohammad-Reza Khatami.
Ana Abrunhosa foi com a lição bem estudada. Surgiu com o colete da proteção civil, sublinhando visualmente o contexto que justificava a oportunidade: as cheias que devastaram a zona centro do país. Foi uma escolha cénica eficaz.
Nas suas intervenções recentes, Passos voltou a colocar-se como figura incontornável do centro-direita e da direita democrática. Fê-lo com um discurso claro: crítica à “reforma do Estado em PowerPoint”, denúncia da viciação de concursos públicos, defesa da meritocracia, transparência e exigência na administração.
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