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Ricardo Borges de Castro
Ricardo Borges de Castro Analista e Consultor
06 de março de 2026 às 07:52

O exame

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Edição de 3 a 9 de março

O ano de 2026, que só leva 2 meses e uns dias, é já uma eternidade em termos geopolíticos e a UE não parece estar a passar no exame que tem pela frente para se afirmar como um ator global estratégico.

Visto de Bruxelas, o curso intensivo de geopolítica da União Europeia continua. Quando pela primeira vez sobre este tema, em 2021, embora estivesse convencido de que os meses e anos que se seguiriam seriam exigentes, confesso que não esperava que fossem tão difíceis como têm sido. O ano de 2026, que só leva 2 meses e uns dias, é já uma eternidade em termos geopolíticos e a UE não parece estar a passar no exame que tem pela frente para se afirmar como um ator global estratégico.

Sem surpresa

A Europa sabia que ia haver um ataque ao Irão. Só não sabia quando. E também não sabia a dimensão, os contornos e os objetivos de uma eventual intervenção. Mas, com a quantidade de meios militares que os EUA tinham deslocado para o Médio Oriente, seria difícil que o desfecho não fosse a sua utilização para um qualquer fim. Não foi, pois, uma surpresa.

Como normalmente reza a história, pelas reações de muitos líderes europeus desde o início do ataque, a ideia que transpira é que a política externa europeia continua a ser feita em cima do joelho e ao sabor do vento, das preferências ou dos interesses de cada ator individualmente.

É verdade que às vezes há coordenação, como aconteceu com a declaração inicial de e na rede social X sobre a intervenção israelo-americana (sem a chefe da diplomacia da UE, Kaja Kallas, que se antecipou – não têm um grupo de WhatsApp?). Mas, a partir dai, foi cada cabeça sua sentença tanto em Bruxelas como nas capitais dos 27. Não devia ser assim.

O que a Europa não controla

Nas relações internacionais há muitos fatores e dinâmicas que a UE não controla. Pode tentar influenciar através de incentivos (as ditas cenouras) ou coagir através de punições (os ditos bastões), levando outros atores internacionais a adotar posições mais próximas das suas, mas dominar está, frequentemente, fora do seu alcance.

No caso presente do ataque ao Irão, a Europa não tem capacidade para travar nem os EUA, nem Israel. Também não tem influência relevante sobre o regime teocrático iraniano que parece querer agora semear o caos na região. Mais, a UE não controla a evolução do conflito que, como é típico das guerras, sabe-se como começam, mas não como evoluem ou acabam. Infelizmente, a Ucrânia é um exemplo vivo disto quando a agressão russa entra no seu quinto ano – não foi (e bem) o passeio de poucos dias que Putin arrogantemente pensou, mas cinco anos de destruição é um peso brutal sobre os ucranianos. Bruxelas também não controla a forma como outros estados – da região ou mais distantes – se posicionam nesta disputa e o modo como as decisões que forem tomando impactam a segurança e os interesses europeus.

Ou seja, numa situação destas muito do que a UE está a fazer e irá fazer é reagir a acontecimentos e gerir os seus efeitos tentando mitigar os mais negativos. Dito isto, existem áreas em que os europeus podem e devem ter um papel antecipatório e pró-ativo.

O que a Europa pode (tentar) controlar

Para um conflito que pode ter profundas ramificações para a Europa no seu conjunto, a diplomacia e o posicionamento externo da UE não deveriam ser atividades ad hoc ou para freelancers em que cada um dá a sua sentença, por mais legítima e soberana que seja. Sabendo também que o Médio Oriente é uma região onde os europeus normalmente se desentendem, tem de haver um cuidado especial de antecipação estratégica de riscos e de coordenação mínima para salvaguardar interesses europeus e prevenir ameaças. E elas são muitas.

Excluindo a instabilidade e insegurança ‘direta’ que este conflito pode criar para a Europa – veja-se o ataque com drones a uma base militar em ou a quantidade de europeus em risco na região do Golfo e que porventura quererão ser evacuados –, ele pode ter efeitos ‘indiretos’ muito negativos num contexto que é já muito exigente: um choque de aumento de preços da energia com custos para as famílias e empresas europeias e com o efeito perverso de poder contribuir para ou encher os cofres de guerra de Moscovo; uma potencial nova vaga de refugiados que querem fugir da guerra, mas que poderá alimentar o discurso dos partidos populistas e radicais no continente; uma deterioração a nível global das trocas comerciais, das cadeias de distribuição e da mobilidade aérea que dependem de países do Golfo; um acentuar da perceção de duplicidade de critérios ocidental por parte do dito Sul Global em virtude da posição ambígua da EU e de alguns dos seus países relativamente ao direito internacional; um agravamento das relações transatlânticas à medida que o conflito se expande, podendo também comprometer ainda mais os apoios à Ucrânia; e uma crise e quebra de solidariedade entre europeus que se posicionam de forma diversa tanto sobre a situação no Médio Oriente, como sobre a postura a adotar face à política intervencionista da administração Trump.

Se à partida alguns destes problemas poderiam ser evitados, os sinais parecem ser claros de que alguns deles já se estão a manifestar. A ser assim, ou há um esforço de unidade, compromisso, cabeça-fria e sentido estratégico comum ou a UE arrisca-se a sair muito mal de uma situação que não criou, mas para a qual, mais uma vez, ou não antecipou ou não se preparou devidamente.

Não parte, mas paga?

Às vezes, ouve-se dizer, sobre conflitos externos pelos quais Bruxelas não tem responsabilidades, que: “uns partem; a UE paga”. Com interesses europeus por esse mundo fora esta situação é praticamente inevitável. Seria bom que desta vez a fatura não incluísse também uma crise grave de desunião e de quebra de solidariedade entre europeus, mas que servisse antes para a Europa se afirmar mais estrategicamente. Talvez já seja tarde para passar neste exame…

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