Assassinato do líder supremo impôs aos clérigos iranianos a tarefa de escolherem o sucessor do homem que liderou o país por mais de quatro décadas.
Depois de Estados Unidos e Israel terem matado o líder supremo do Irão, Ali Khamenei, segue-se a questão: quem lhe poderá suceder? Há quem aponte que a liderança poderá ser entregue a a um descendente do aiatola, mas ainda não há uma resposta clara. Para já, o que se sabe, na visão do presidente norte-americano, Donald Trump, é que "o ataque foi tão bem sucedido que eliminou a maioria dos candidatos". "Não será ninguém em quem estávamos a pensar porque estão todos mortos." Enquanto isso, Israel deixa avisos de que qualquer sucessor será abatido.
Hassan Khomeini, Mohammad Mehdi Mirbagheri e Gholam-Hossein Mohseni-EjeiDireitos Reservados
Segundo o jornalThe New York Times, Ali Khamenei começou a preparar a escolha do seu sucessor em junho do ano passado, enquanto se encontrava escondido num bunker, durante a guerra dos 12 dias entre Irão e Israel. Na altura, o aiatola chegou até a nomear três clérigos de alto escalão como candidatos para o suceder, caso fosse assassinado. Segundo a revista The Times, seriam o seu chefe de gabinete, Ali Asghar Hejazi - que Israel já disse ter assassinado, mas cuja morte Teerão não confirmou -, o presidente do Supremo Tribunal, Gholam-Hossein Mohseni-Eje'i, e o neto do ex-líder supremo Ruhollah Khomeini, Hassan.
Mas quem poderá ser o próximo líder supremo?
Mojtaba Khamenei
Mojtaba Khamenei, de 56 anos, é o segundo filho do aiatola Ali Khamenei e está entre os principais candidatos a suceder ao pai como líder supremo.
Apesar de Mojtaba ter evitado sempre os holofotes, e de não ter ocupado nenhum cargo no governo, sabe-se que tem influência junto dos administradores do Irão, a Guarda Revolucionária Iraniana - o órgão mais poderoso - e a força paramilitar Basij. Chegou até a ter um império de investimentos, possuindo contas bancárias na Suíça, segundo a Time. Além disso, tinha acesso a contas e propriedades de luxo britânicas avaliadas em mais de 100 milhões de dólares (85 milhões de euros) - isto apesar de ter sido sancionado pelos norte-americanos em 2019.
Ainda assim, o facto de Mojtaba ser filho do antigo líder supremo pode não jogar a seu favor, segundo a mesma revista, isto porque a sucessão de pai para filho num clero xiita pode gerar alguma cntrovérsia. O próprio Ali Khamenei também já se havia oposto à candidatura do seu filho; isto porque, segundo disse em 2024 uma fonte próxima do seu gabinete à Reuters, não queria presenciar o retorno de um governo hereditário já que muitos iranianos o consideram uma afronta à revolução de 1979.
Alireza Arafi
Alireza Arafi é um clérigo de 67 anos e uma figura influente no meio religioso da República Islâmica, segundo a Al Jazeera.
Arafi atua atualmente como vice-presidente da Assembleia de Peritos - órgão responsável por supervisionar a seleção do líder supremo - e é, desde 2019, membro do Conselho dos Guardiões - que avalia os candidatos às eleições e as leis aprovadas pelo parlamento.
Alireza Arafi é também líder da oração de sexta-feira em Qom - o centro religioso mais importante do Irão - e chefia o sistema de seminários do país. Agora, foi nomeado membro jurista do Conselho de Liderança do Irão - o órgão encarregue de liderar o Irão até que a Assembleia de Peritos eleja um novo líder.
Mohammad Mehdi Mirbagheri
Mohammad Mehdi Mirbagheri é membro da Assembleia de Peritos desde 2015 e é conhecido por ser conservador na linha do meio clerical iraniano. Muitos acreditam que adaptou esta posição mais conservadora devido às supostas ambições de liderança.
Atual líder da Academia de Ciências Islâmicas na cidade de Qom, no norte do Irão, ganhou notoriedade em 2024, após a morte repentina do presidente Ebrahim Raisi, ao expressar apoio ao candidato de linha-dura Saeed Jalili. Segundo o Iran Wire, fações "super-revolucionárias" dentro do governo passaram a ver Mirbagheri como potencial futuro líder.
Gholam-Hossein Mohseni-Ejei
Gholam-Hossein Mohseni-Ejei é um clérigo iraniano de alto escalão, que chefia atualmente o sistema judicial iraniano da República Islâmica desde que foi nomeado por Khamenei em julho de 2021. Jurista nomeado de 69 anos, ocupou diversos cargos oficiais, tendo atuado como ministro da Inteligência de 2005 a 2009, procurador-geral de 2009 a 2014, e primeiro vice-presidente do Supremo Tribunal de Justiça de 2014 a 2021.
Visto como um conservador de linha-dura, em 2011, chegou a ser sancionado pelo Departamento de Estado dos EUA e a União Europeia pelo seu papel na repressão dos protestos. De acordo com a decisão de sanção da UE, agentes da Inteligência, a comando de Mohseni-Ejei, detiveram, torturaram e coagiram centenas de ativistas, jornalistas, dissidentes e figuras públicas a obterem falsas confissões
Mohseni-Ejei chegou também a acusar os EUA e Israel de terem "apoiado explicitamente os distúrbios" no Irão.
Hassan Khomeini
Hassan Khomeini, de 54 anos, é neto do falecido aiatola Ruhollah Khomeini, fundador da República Islâmica e guardião do mausoléu (tumba) do seu avô em Teerão.
Embora não tenha ocupado nenhum cargo público, é apontado como potencial sucessor, devido às suas visões reformistas e moderadas sobre a vida pública e as políticas públicas. Chegou a candidatar-se à Assembleia de Peritos em 2016, mas acabou desqualificado pelo conselho de avaliação.
À agência de notícias Reuters, cinco fontes conhecedoras de Hassan disseram que ele tinha o respeito da Guarda Revolucionária Islâmica e dos seus principais clérigos e que, caso sucedesse a Ali Khamenei, poderia representar um Irão mais moderado em comparação com o filho do líder supremo, Mojtaba.
“Às vezes, a dignidade nasce da guerra, e às vezes, da firmeza no campo da negociação”, disse Hassan em maio do ano passado citado pelo Iran International.
Ali Larijani
Com 67 anos, Ali Larijani foi comandante da Guarda Revolucionária e chefe da emissora estatal iraniana de 1994 a 2004. Ao longo de quatro décadas, ocupou diversos outros cargos governamentais. Político veterano, foi também responsável pela repressão violenta que se registou durante os protestos antigovernamentais, que aconteceram ainda no início deste ano e acabou, por isso, a ser sancionado pelo governo norte-americano.
Larijani tentou candidatar-se à presidência do país, em 2005, mas sem sucesso, e o mesmo veio a ocorrer nas eleições presidenciais de 2021 e 2024, mas acabou desqualificado em ambas. Conhecido pela sua lealdade a Ali Khamenei, destaca-se pelo seu pragmatismo na gestão das relações entre as fações rivais dentro do país.
O político ainda chegou a liderar as negociações nucleares com o governo Trump. Após os ataques de 28 de fevereiro contra o Irão, comentou o sucedido nas suas redes sociais. "Faremos com que os criminosos sionistas e os americanos sem vergonha se arrependam dos seus atos", escreveu. "Os bravos soldados e a grande nação do Irão darão uma lição inesquecível aos infernais opressores internacionais."
Apesar da influência de Larijani, ele não é um clérigo xiita de alto escalão, o que o torna um sucessor improvável, segundo a Constituição do Irão.
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