O que separa negros e brancos nos EUA? E em Portugal?

O que separa negros e brancos nos EUA? E em Portugal?
Leonor Riso 03 de junho de 2020

Os dados revelam grandes diferenças em Portugal e nos EUA, no que toca à educação e população prisional. No nosso país, ainda está por arrancar o inquérito do INE sobre discriminação racial.


Em 2020, os Estados Unidos estão a travar duas batalhas: a pandemia de Covid-19 e o racismo. Se o novo coronavírus surgiu este ano no país, a discriminação racial e a violência policial são bem mais antigas. Mais de cinco mil pessoas já foram detidas na última semana devido aos protestos nos EUA e pelo menos três pessoas morreram. Lojas e centros comerciais foram saqueados. 

Os protestos foram desencadeados pela morte de George Floyd às mãos da polícia. A 25 de maio, Floyd foi detido por ter tentado pagar um maço de tabaco com uma nota que seria falsa. Entre os polícias que responderam à ocorrência, estava Derek Chauvin, que se ajoelhou em cima do pescoço de Floyd durante mais de oito minutos. 

Partindo deste caso, o Fórum Económico Mundial compilou vários dados sobre a desigualdade racial recolhidos por várias instituições norte-americanas. Em Portugal, este tipo de dados não é recolhido pelo Instituto Nacional de Estatística nos Censos, a mais extensiva recolha estatística no país. Em 2019, foi aceite no Parlamento a possibilidade de introduzir, nos Censos a realizar em 2021, uma pergunta sobre a origem étnico-racial das pessoas. Porém, o Instituto Nacional de Estatística (INE) recusou mas garantiu que faria um inquérito acerca da discriminação racial. Porém, em fevereiro de 2020, ainda não tinha sido escolhida uma data. 

E o que dizem os dados? Nos Estados Unidos, os estudantes negros têm uma probabilidade menor de se licenciarem do que os estudantes brancos. Em 2018, 79% dos estudantes negros acabaram o liceu em comparação com 89% dos colegas brancos. Já em Portugal, uma investigação do CIES-ISCTE de 2016, conduzida pelos investigadores Cristina Roldão e Pedro Abrantes, encontrou sinais de "segregação" e até "racismo institucional" nas escolas e revelou que 80% dos alunos com nacionalidade de um dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP) seguia para os cursos profissionais no ensino secundário. 

Também em Portugal, segundo o jornal Público, um em cada 73 cidadãos dos PALOP com mais de 16 anos está numa prisão. É um número dez vezes maior que o relativo aos cidadãos portugueses: 1 em cada 736 é recluso. Nos EUA, em 2018, havia 1.501 reclusos negros por cada 100 mil adultos negros. É um número cinco vezes maior que o relativo aos brancos. 

Quanto à taxa de desemprego, em abril, era de 17% na população negra norte-americana. Quanto aos brancos, ficam pelos 14%. E se em média, em 2018, um branco ganhava 916 dólares por semana caso trabalhasse a tempo inteiro, um negro ganhava 694 dólares. 

Nos EUA, 41% da população negra é proprietária da sua casa, comparada com 72% da população branca. 

Quanto à Covid-19, os dados até ao fim de maio indicavam que a taxa de mortalidade entre a população afroamericana era 2.4 vezes mais alta que a entre a população branca. 

Um polícia dispara mais depressa sobre um suspeito negro?

Sempre que um jovem negro é atingido pela polícia norte-americana, Rui Costa Lopes, 37 anos, volta a ler sobre o guineense Amadou Diallo nas notícias. A morte deste imigrante, em Nova Iorque, iniciou uma linha de pesquisa sobre como os preconceitos influenciam a tomada de decisões de profissões críticas, como os polícias (e os juízes ou os médicos), e que o investigador do Instituto de Ciências Sociais (ICS) tem seguido também em Portugal.

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