Morreu Saeb Erekat, veterano das negociações de paz e apaixonado defensor da Palestina

Lusa 10 de novembro de 2020
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Erekat era desde 2015 secretário-geral da Organização de Libertação da Palestina, ou o número dois da Palestina.

Saeb Erekat, que morreu hoje de covid-19 aos 65 anos, foi durante décadas o negociador-chefe dos palestinianos, embora nos últimos anos, na ausência de discussões, tivesse de se contentar com a defesa eloquente da causa da Palestina.

EPA/YURI KOCHETKOV

Parte do grupo de palestinianos que acredita mais nas negociações do que na luta armada, Erekat era desde 2015 secretário-geral da Organização de Libertação da Palestina (OLP), ou seja, o "número dois" a seguir ao presidente da Autoridade Nacional Palestiniana, Mahmud Abbas.

Académico – deu aulas na Universidade Na-Najah de Nablus (Cisjordânia) de 1979 a 1991 - falava com à vontade em inglês, com um toque de humor e expressões marcantes, e integrou todas as equipas de negociadores com Israel desde 1991, com a notável exceção da que discutiu secretamente os acordos de Oslo em 1993.

Era prezado e respeitado por colegas norte-americanos e israelitas, que o consideravam franco e conhecedor dos assuntos.

Erekat, que também tinha cidadania norte-americana, formou-se e obteve um mestrado em relações internacionais na Universidade de São Francisco, nos Estados Unidos, e mais tarde concluiu um doutoramento em resolução de conflitos na Universidade de Bradford, no Reino Unido.

Nomeado em 2003 chefe da equipa de negociações da OLP, Erekat demitiu-se do cargo durante um período breve em 2011 devido à divulgação de centenas de arquivos sobre as discussões com Israel de 1999 a 2010 – os "Documentos da Palestina" – divulgados pela televisão do Qatar Al-Jazeera.

Os documentos mostravam que os emissários palestinianos, nomeadamente Saeb Erekat, estavam prontos para concessões importantes sem aparentes contrapartidas de Israel, em assuntos tão cruciais como o estatuto de Jerusalém ou os refugiados palestinianos.

O escândalo foi contido, mas Erekat viu-se fragilizado por informações de que o principal responsável pelas alegadas fugas de informação trabalhava no seu gabinete.

O veterano da diplomacia retomou, entretanto, a sua posição de negociador principal e liderou as discussões do lado palestiniano durante a última tentativa de paz, lançada durante a Presidência de Barack Obama e abortada em 2014.

Desde então assistia impotente ao colapso - devido a interesses contrários, má vontade, violência ou colonização - do sonho pelo qual lutava, o de um Estado palestiniano independente.

Nos últimos meses multiplicou as declarações contra o plano israelita de anexação de partes da Cisjordânia ocupada e mais tarde contra a normalização das relações entre Israel e países do Golfo, acordada sem um acordo de paz prévio entre os palestinianos e o Estado hebreu.

Nascido em Jerusalém em 1955, sete anos após a criação de Israel, foi próximo de Yasser Arafat, líder histórico do movimento nacional palestiniano, apesar de não o ter seguido nos seus sucessivos exílios.

Tornou-se também próximo do sucessor daquele à frente da Autoridade Palestiniana, Mahmud Abbas, fazendo parte do seu círculo restrito e passando por um dos seus potenciais sucessores.

Sempre de fato e gravata, era um interlocutor essencial dos diplomatas estrangeiros e um dos responsáveis palestinianos mais expressivos na rede social Twitter, onde divulgava mensagens quase diariamente em árabe e inglês.

Ultimamente, tornou-se um dos mais loquazes críticos da política de Israel de não devolver os corpos de palestinianos mortos pelo seu exército.

Um seu sobrinho foi morto em junho num controlo de passagem militar na Cisjordânia e os seus restos mortais continuam em Israel.

Sofrendo de fibrose pulmonar, Erekat foi submetido a um transplante de pulmão num hospital norte-americano em 2017.

Foi jornalista do diário independente Al-Qods de Jerusalém Oriental e escreveu uma dezena de livros sobre a diplomacia e a resolução de conflitos, tendo contribuído para uma obra saída em maio de 2020 sobre os efeitos da pandemia da covid-19 na sociedade palestiniana.

A OLP anunciou a 9 de outubro que tinha sido infetado com o novo coronavírus e foi transferido dia 18 do mesmo mês para o hospital Hadassah de Jerusalém, onde morreu.

Tinha quatro filhos e vivia em Jericó, no vale do Jordão. Abbas declarou três dias de luto, com as bandeiras a meia haste.

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