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Bab el-Mandeb: o novo estreito que pode entrar na guerra e agravar ainda mais a crise energética

Isabel Dantas 29 de março de 2026 às 10:25

Houthis do Iémen apoiam Irão e estão a postos para fechar a passagem que no Médio Oriente tem sido a alternativa a Ormuz.

Com o Mundo ainda fazer contas ao aumento do preço dos combustíveis, decorrente do fecho do Estreito de Ormuz por parte do Irão, eis que um novo estreito entra em cena, ameaçando escalar ainda mais os efeitos económicos desta guerra que Donald Trump e Benjamin Netanyahu iniciaram há um mês no Médio Oriente. Trata-se do Estreito de Bab el-Mandeb, "Portão das Lágrimas" em árabe, que tem nesta altura um papel crucial no comércio internacional e que está à mercê dos houthis, grupo armado do Iémen apoiado pelo Irão.

O Estreito de Bab el-Mandeb Getty Images

Situado entre o Iémen (na península arábica), o Djibuti e a Eritreia, o estreito tem 115 km de extensão e 36 km de largura, liga o Mar Vermelho ao oceano Índico e controla o tráfego marítimo em direção ao Canal de Suez, por onde passa cerca de 12% do petróleo comercializado por via marítima no mundo. No último mês esta rota ganhou ainda mais importância, uma vez que se tornou numa alternativa ao escoamento de petróleo do Oriente Médio, depois do encerramento de Ormuz.

Perante a ameaça de invasão terrestre por parte dos Estados Unidos, a agência iraniana Tasnim, ligada à Guarda Revolucionária, informou que os houthis estariam a postos para assumir o controlo do estreito. "Se houver necessidade de controlar o Estreito de Bab el-Mandeb para punir ainda mais o inimigo, os heróis do Ansar Allah do Iémen estarão totalmente preparados para desempenhar um papel fundamental", disse uma fonte militar iraniana àquela agência, acrescentando que os houthis já provaram que fechar aquela rota "é uma tarefa fácil".

Em outros momentos, como aconteceu durante a recente Guerra em Gaza, o Estreito de Bab el-Mandeb foi alvo dos houthis, que bloquearam a passagem atacando navios com drones e mísseis. Só que um eventual bloqueio do estreito no atual contexto agravaria ainda mais a crise enérgica mundial.

No sábado de entrada na guerra, após terem lançado uma salva de mísseis balísticos contra o sul de Israel, afirmando tratar-se da primeira fase de uma intervenção militar direta em apoio ao Irão e aos aliados no Médio Oriente.

Se a interrupção do transporte marítimo no Golfo fez os preços do petróleo Brent passarem de cerca de 70 dólares por barril para mais de 100 no espaço de um mês, o bloqueio de mais mais uma rota marítima poderia levar estes valores para níveis estratosféricos, agudizando ainda mais os impactos da guerra no Irão na economia global.

Desde o encerramento do Estreito de Ormuz, a Arábia Saudita passou a usar Bab el-Mandeb para escoar o seu petróleo proveniente do porto de Yanbu. Riade envia milhões de barris de petróleo bruto por dia dos seus campos orientais para este estreito através de um oleoduto. E é por ali que passa também uma parte significativa das exportações russas de petróleo.

Irão ameaça 'colocar' o estreito de Bab el-Mandeb na guerra DR

Um analista do Atlantic Council não tem dúvidas do que pode acontecer se Trump não terminar rapidamente esta guerra: "O regime iraniano demonstrou o imenso poder global que pode exercer ao fechar o Estreito de Ormuz e ao pressionar a economia mundial. Se Trump agravar a situação ao atacar a ilha iraniana de Kharg, de onde é exportado 90% do petróleo do Irão, ou atacar a infraestrutura energética regional, o Estreito de Bab el-Mandeb tornar-se-á uma via crucial para o regime demonstrar o seu poder. Não estamos numa situação em que os iranianos estejam a capitular, já que Trump também está desesperado para negociar", constatou Danny Citrinowicz, citado pelo El País.

Piratas e outros ataques

Entre 2008 e 2012 o Estreito de Bab el-Mandeb foi alvo de ataques de piratas, principalmente da Somália, que sequestrou  navios e exigiu dinheiro em troca da libertação das cargas e das tripulações, o que levou a comunidade internacional, bem como as companhias marítimas, a reforçar a segurança.

Mas nos últimos anos a ameaça veio do extremo oposto do estreito, com os ataques dos houthis. Depois da invasão de Israel a Gaza, em outubro de 2023, o grupo rebelde passou a atacar embarcações no Mar Vermelho e no Golfo de Aden, alegando solidariedade para com o povo palestiniano, com o objetivo de pressionar Israel a aceitar um cessar-fogo.

De novembro de 2023 a janeiro de 2024, os houthis atacaram mais de 100 navios comerciais com mísseis e drones, afundando duas embarcações.

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