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João Paulo Batalha
João Paulo Batalha
14 de maio de 2026 às 09:16

Pedro e a Carochinha

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Edição de 12 a 18 de maio

Passos Coelho tem razão nas suas críticas a Montenegro. E mau currículo na mesma matéria

A sessão era aberta ao público, mas fechada à imprensa – um formato que parece desenhado à medida para autorizar o orador a ser especialmente acutilante, facilitar que o conteúdo da palestra chegue à imprensa (como chegou), mas permitir ao palestrante e à opinião pública, se necessário, culpar uma desleal “fuga de informação” pelo impacto das suas palavras. É a facada perfeita. Pedro Passos Coelho , acusando Luís Montenegro de falta de coragem reformista e alargando as críticas à generalidade da classe política: “A maior parte dos políticos são populistas. Fazem sondagens, veem do que é que as pessoas gostam e alinham-se por aí. Dizem o contrário, mesmo que pensem diferente”, apontou. O ex-primeiro-ministro lembrou que os políticos estão lá para liderar, “Não é para nos contarem histórias da Carochinha”, e que é preciso assumir os problemas para poder mudar o país.

De cada vez que Passos Coelho fala, o país ouve. Especula-se sobre o que ele quer: quererá voltar à liderança do partido e do Governo, ser o pivot de uma reunião das direitas – ele que é o padrinho político de André Ventura? Ou quererá apenas alertar para a necessidade de reformas estruturais e contribuir para o progresso do país, com a autoridade de quem foi forçado a governar sob resgate externo e com soberania limitada – o seu colega de Governo Paulo Portas chamava-lhe, à altura, com alguma razão, “protetorado”?

Sim, os políticos tendem a olhar para o curto prazo. Sim, gostam de adiar problemas, ou negá-los por completo. Sim, falta frontalidade e clareza no debate público em Portugal e há uma crise generalizada de falta de seriedade. O que passa por reformas no atual Governo é uma , ou são favores a grupos de interesse poderosos, como na legislação laboral oferecida aos patrões, ou na “reforma” do Tribunal de Contas e da contratação pública feita à medida da cacicagem partidária e dos grandes concessionários de bens públicos. Passos Coelho tem razão em apontar este marasmo e, neste particular, as suas críticas são serviço público.

O problema é o que ele oferece. O “reformismo” de Pedro Passos Coelho não é ideologicamente diferente do de Luís Montenegro: é a entrega do país aos grandes interesses empresariais, sem particulares contemplações por noções de equidade e razoabilidade. É a crença nas virtudes de um mercado desregulado, com agentes pouco dinâmicos, pouco inovadores, mais encostados à proteção e aos favores do Estado do que às vantagens da concorrência e do risco. Passos Coelho tem o mérito de, em defesa das suas reformas, ter tido a coragem de proclamar “que se lixem as eleições” – e as eleições lá o lixaram. Mas tem o sério demérito de, quando quis ir “além da Troika”, o ter feito de forma premeditadamente desequilibrada.

A Troika tem costas largas na história do nosso resgate. É verdade que o memorando assinado pelo Estado português tinha medidas dolorosas para os cidadãos – como acontece sempre, nestas circunstâncias. Mas também tinha algumas preocupações de equidade na distribuição dos sacrifícios. E essas foram completamente ignoradas, por opção de quem governava. Foi a Troika que impôs a renegociação de Parcerias Público-Privadas ruinosas: o que se fez foi um álibi que deixou intocado o maná milionário aos concessionários. Foi a Troika que inscreveu no plano de resgate a revisão das rendas pornográficas pagas às energéticas: ninguém tocou nos monopólios nem beliscou a todo-poderosa EDP que, ainda hoje, . Sem tocar nos grandes interesses, compensaram-se as contas carregando no cidadão comum.

Pedro Passos Coelho recusou-se, e bem, a resgatar o BES e a caucionar com dinheiro público o poder de Ricardo Salgado – muito embora a “resolução” do banco viesse a sobrar para nós, como sobra sempre. Presidiu à falência de uma elite económica portuguesa corrupta, numa oportunidade de ouro para transformar o país. Mas, logo a seguir, assegurou que as estruturas de captura do Estado fossem simplesmente revendidas a investidores estrangeiros, sem beliscar os negócios rentistas e a sangria do contribuinte, que dura até hoje.

Se o resgate de 2011-2015 foi doloroso não foi só por imposição dos credores externos. Houve uma escolha deliberada de “ir além da Troika” nos sacrifícios ao cidadão médio, e de ficar muito aquém na libertação do Estado das amarras que ainda hoje o constrangem. Pedro Passos Coelho fez estas escolhas. Falando de “reformas estruturais”, trocar uma captura autóctone às mãos de uma elite económica local, por uma captura globalizada no bolso de multinacionais, estatais estrangeiras ou fundos de investimento fez pouco pelos portugueses. Pedro Passos Coelho faz bem em alertar contra “histórias da Carochinha”. Incluindo a dele.

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