Sábado – Pense por si

Rui Dias
Rui Dias Fundador e diretor-executivo da Porbite
14 de maio de 2026 às 07:00

Estará a IA está a democratizar o cibercrime?

Capa da Sábado Edição 23 a 29 de junho
Leia a revista
Em versão ePaper
Ler agora
Edição de 23 a 29 de junho

O tempo médio entre a descoberta de uma vulnerabilidade e a sua exploração caiu drasticamente, em muitos casos, para menos de 48 horas.

Durante anos, o discurso sobre cibersegurança foi relativamente estável: as ameaças existiam, mas estavam, na sua maioria, associadas a grupos organizados, com elevado nível técnico e recursos consideráveis. Isso mudou, e mudou demasiado rápido.

Os dados mais recentes divulgados pela Fortinet mostram um crescimento de 389% no número de vítimas de ransomware num único ano. Um salto desta dimensão não é apenas estatística: é um sinal claro de que o paradigma do cibercrime entrou numa nova fase. A razão? Inteligência Artificial (IA).

Ferramentas baseadas em IA estão a tornar os ataques mais acessíveis, mais rápidos e, sobretudo, mais escaláveis. O que antes exigia conhecimento técnico aprofundado, hoje pode ser executado com recurso a plataformas que automatizam processos de ataque, desde a criação de campanhas de phishing altamente credíveis até à exploração de vulnerabilidades em tempo recorde.

O impacto desta transformação é profundo. O tempo médio entre a descoberta de uma vulnerabilidade e a sua exploração caiu drasticamente, em muitos casos, para menos de 48 horas. Na prática, isto significa que o modelo tradicional de “detetar e corrigir com tempo” deixou de ser suficiente. Quando uma empresa reage, muitas vezes já é tarde.

Mas talvez o dado mais relevante não esteja no número de ataques, mas sim na forma como estes acontecem. O foco deixou de estar exclusivamente na infraestrutura tecnológica e passou para algo muito mais vulnerável: a identidade.

Credenciais comprometidas, acessos mal geridos e falhas na autenticação são hoje portas de entrada privilegiadas. E com o apoio da IA, os atacantes conseguem simular comportamentos humanos com uma precisão cada vez maior, tornando os ataques mais difíceis de identificar e travar. Este novo contexto levanta uma questão inevitável: estarão as empresas, especialmente as pequenas e médias, preparadas para esta realidade? A resposta, na maioria dos casos, é não.

Muitas organizações continuam a olhar para a cibersegurança como um custo técnico e não como um risco de negócio. Investem em soluções reativas, quando o problema exige uma abordagem contínua, integrada e, acima de tudo, proativa. A verdade é simples: a inteligência artificial não está apenas a transformar empresas, está também a nivelar o campo de jogo para os atacantes. E quando qualquer pessoa pode lançar um ataque sofisticado com recurso a ferramentas acessíveis, o risco deixa de ser excecional para passar a ser estrutural.

Neste cenário, a questão já não é “se” uma empresa será alvo de um ataque, mas “quando”, e, mais importante, com que capacidade está preparada para responder. Porque, no final, a diferença entre um incidente controlado e um problema crítico raramente está na tecnologia utilizada, mas sim na forma como esta é gerida.

E isso continua a ser, mais do que nunca, uma decisão estratégica.

Mais crónicas do autor
30 de junho de 2026 às 23:00

Os Estados Unidos do ecrã e do divino espaço natural

“A princípio era o futebol americano, coisa bruta mas séria. / Uma máquina colocada nas salas de famílias sensatas e inteiras, / nos bares e nas montras de algumas lojas, a televisão. / Nada na nação americana, dois metros de cérebro acima / do território, está imune ou indiferente ao jogo decisivo em direto”

30 de junho de 2026 às 23:00

Nascidos a 4 de julho: tudo o que pode ler sobre os 250 anos dos Estados Unidos da América

A SÁBADO tem um número especial sobre o bicentenário da declaração de independência. Há festa e reflexão na América, há muito para ler nas páginas desta edição.

30 de junho de 2026 às 23:00

Uma República sob ameaça

O “país excecional e indispensável” chega aos 250 anos com um Presidente que promoveu um ataque ao Capitólio. Não, não é um detalhe passageiro. Provavelmente, acabará mal.

30 de junho de 2026 às 23:00

Sobre a defesa-ataque (futebol e guerra)

E assim estamos, nestes dias, em que, de vários pontos do mundo, os mandantes vão encomendando oráculos tenebrosos, como quem encomenda comida para casa, pizza quatro estações. 

30 de junho de 2026 às 23:00

Somos todos americanos

As democracias liberais em que vivemos são americanas na origem. O que hoje nos parece incontornável e banal - a separação de poderes, a protecção de direitos individuais contra o arbítrio do Estado, a liberdade de expressão, a legitimidade do poder assente no consentimento dos governados - foi forjado em 1776 e nos anos que se seguiram

Mostrar mais crónicas