Foi um dos ataques mais mortíferos na guerra dos EUA e de Israel contra o Irão e a esmagadora maioria das vítimas foram crianças. Mais de 100 pessoas morreram na sequência de um míssil norte-americano que atingiu uma escola primária iraniana em Minab a 28 de fevereiro.
A administração Trump ainda não assumiu diretamente a responsabilidade nem divulgou formalmente as conclusões da investigação do Pentágono sobre o bombardeamento, apesar de as forças armadas americanas terem reunido provas de que a escola tinha sido atingida por mísseis disparados pelos EUA.
A Associated Press reconstruiu a história do ataque com base em informações de fontes abertas, imagens de vídeo, relatórios sobre direitos humanos e entrevistas com investigadores e civis, tanto dentro como fora do Irão. Várias pessoas que falaram com a AP estavam em contacto direto com as famílias das vítimas e com os socorristas que acorreram ao local.
1Como aconteceu
O céu sobre a cidade de Minab, situada no sudeste do Irão, a cerca de 16 milhas (25 km) do Estreito de Ormuz, estava limpo e claro na manhã de sábado, 28 de fevereiro. Nas escolas iranianas é normal os alunos terem aulas ao sábado. Parecia ser um dia normal para as crianças da escola Shajareh Tayyebeh - que em farsi significa "Árvore Boa". Estas escolas são uma rede escolar para acolher crianças de famílias ligadas à Guarda Revolucionária, a força paramilitar do Irão, e a outras instituições estatais.
Embora a maioria das escolas no Irão funcione de acordo com as diretrizes estabelecidas pela República Islâmica, as escolas Shejareh Tayyebeh estavam mais explicitamente orientadas para reproduzir e reforçar a visão do mundo da Guarda Revolucionária, explicou uma professora iraniana ligada a estas escolas à AP. Esta escola em Minab situava-se no mesmo recinto murado que uma base da Guarda, de acordo com uma análise da AP a imagens de satélite e mapas de fontes abertas.
Embora alguns dos seus alunos fossem filhos de oficiais da Guarda que trabalhavam na base vizinha, outros eram crianças locais de Minab, cuja população é predominantemente composta por membros da minoria étnica balúchi, de maioria sunita, que enfrentam frequentemente repressão por parte do governo iraniano, afirmou a Rede de Documentação dos Direitos Humanos do Baluchistão.
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Vídeo mostra momento do ataque a escola iraniana que fez mais de 165 mortos
As crianças estavam nas salas de aula há 30 minutos quando os mísseis começaram a cair em Teerão, pelas 9h40. Os professores e os responsáveis pela administração consideraram prudente mandar as crianças para casa. Ligaram aos pais para os telefones fixos, pedindo-lhes que fossem buscar os filhos mais cedo, segundo relataram duas pessoas à AP. Esta informação foi também confirmada num relatório da Airwars, um grupo independente sediado em Londres que acompanha os conflitos recentes no Médio Oriente.
Às 10h15, os meios de comunicação estatais do Irão emitiram um comunicado a anunciar o encerramento das escolas em todo o país. Menos de 20 minutos depois começaram a cair as munições na propriedade da escola. Alguns pais tinham já ido buscar os filhos, mas centenas de alunos continuavam no recinto escolar.
2Ataque em força
A AP calcula que centenas de quilos de explosivos atingiram a escola, levando ao seu colapso. Rapidamente vários dos pais que iam buscar os filhos acorreram ao local em busca de sobreviventes.
Vários homens vasculhavam entre os escombros para retirar corpos, enquanto outros gravavam vídeos para documentar a catástrofe. Os meios de comunicação estatais iranianos difundiram dezenas destes vídeos, bem como as redes sociais.
A AP não conseguiu verificar quantas munições atingiram especificamente a escola, mas o ataque deixou os corpos tão mutilados que muitas vítimas ficaram irreconhecíveis.
Homens transportaram membros e torsos desfigurados para o hospital local, afirmou a Rede de Documentação dos Direitos Humanos do Baluchistão. No final do dia, os médicos do hospital estimaram que tinham pelo menos 108 corpos, mas alertaram que era provável que esse número estivesse subestimado, afirmou o residente de Minab.
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Milhares marcam presença no funeral das vítimas de ataque a escola no Irão
No dia seguinte, os meios de comunicação estatais afirmavam que cerca de 150 pessoas tinham sido mortas. Em pouco tempo, já se falava de um número de mortos de 168. Chamaram-lhes "mártires". Entre os mistérios que ainda permanecem estão o número de munições que atingiram a escola e uma lista completa das vítimas mortais.
3Bloqueio informativo e utilização da tragédia
Na corrida para documentar o bombardeamento em curso, jornalistas e organizações de defesa dos direitos humanos tiveram dificuldades em verificar os detalhes provenientes de Minab. As restrições impostas pelo governo iraniano impediram a maioria dos jornalistas estrangeiros de entrar no país. No primeiro dia da guerra, o Irão bloqueou o acesso à Internet, tornando praticamente impossível obter notícias dos civis comuns.
À medida que a guerra avançava e o Estreito de Ormuz se tornava um importante campo de batalha, a situação na província tornou-se mais tensa. Segundo relatos, havia pessoas a serem detidas por tentarem comunicar com os meios de comunicação estrangeiros. Isso deixou o governo do Irão no controlo da comunicação em torno do ataque.
Para não fazer esquecer este ataque, a seleção de futebol do Irão passou a usar crachás dourados com o número "168" nos casacos à chegada ao Campeonato do Mundo da FIFA e a equipa iraniana encarregue de negociar uma trégua na guerra com os EUA autodenominou-se "Minab 168".
As crianças foram retratadas como figuras animadas de Lego em vídeos virais criados por grupos pró-Irão que se dedicavam a provocar os EUA. "Na sequência do ataque, as autoridades iranianas... exploraram o sofrimento das famílias das vítimas e das crianças sobreviventes para fins de propaganda", escreveu a Amnistia Internacional num relatório de março que investigava as mortes.
4A troca de culpas
O Irão culpou os EUA. Trump pôs em causa a responsabilidade dos Estados Unidos e apontou o dedo ao Irão. O secretário da Defesa, Pete Hegseth, limitou-se a afirmar que o Pentágono estava a investigar o caso.
Internamente, as forças armadas dos EUA sabiam mais do que inicialmente deram a entender. As pistas estavam enterradas nos seus arquivos. Quando a notícia veio a público, as forças armadas dos EUA sabiam que tinham levado a cabo ataques naquela zona - embora tenham demorado algum tempo a verificar as alegações iranianas de que uma escola tinha sido atingida e a dar início a uma investigação formal, afirmou um responsável norte-americano com conhecimento da situação, que falou com a AP sob condição de anonimato.
Parece que, embora o edifício que alberga a escola tenha sido identificado como tal por um analista já há sete anos, essa descoberta não foi devidamente divulgada entre os diferentes serviços de informações, estados-maiores e agências militares, afirmou o responsável norte-americano.
Um antigo responsável do Pentágono, que também falou sob condição de anonimato, afirmou que o bombardeamento foi o resultado natural das alterações introduzidas pela administração Trump para reduzir o pessoal destinado a mitigar os danos aos civis e do ênfase dado por Hegseth aos números de casualidades inimigas.
Quando Hegseth assumiu o cargo, reduziu drasticamente a dimensão de um departamento denominado "Centro de Excelência para a Proteção Civil", criado por indicação do Congresso no final de 2022. Isso interrompeu o trabalho do gabinete na atualização das "listas de locais proibidos de ataque" - como hospitais, escolas, igrejas e mesquitas - disse Wes Bryant, que começou a trabalhar no gabinete em 2024 como chefe da secção de Avaliações de Danos Civis.
Quando questionado sobre o incidente, o presidente norte-americano, Donald Trump, afirmou que não tinha lido o relatório do Pentágono e que não tinha visto nada que o levasse a acreditar que os EUA tivessem levado a cabo o ataque. "Não sei se alguma vez vão resolver esse problema no que diz respeito a quem foi a culpa, porque havia mísseis a voar por todo o lado", afirmou.
Já a missão do Irão junto das Nações Unidas não respondeu a um pedido de comentário da AP.
5Avanços recentes
O Airwars, grupo de investigação sobre conflitos, passou meses a analisar minuciosamente informações de fontes abertas para verificar a identidade das vítimas.
O grupo identificou os nomes e as identidades de 157 das vítimas mortais, incluindo 123 crianças, todas com 13 anos ou menos, e 34 adultos. Entre os adultos contam-se 26 membros do pessoal escolar (uma das quais estava grávida) e cinco pais.
O grupo estima que o número de mortos se situe entre 157 e 168 e afirma que entre 95 e 111 pessoas ficaram feridas. Não se sabe ao certo quando serão publicados os resultados oficiais da investigação militar sobre o caso Minab, mas a AP apurou que grande parte do trabalho de investigação já foi concluída, mas o Comando Central das Forças Armadas dos EUA, que encomendou a investigação, está neste momento a analisar as conclusões.
Hegseth afirmou na semana passada que o relatório seria divulgado "quando for a altura certa".
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