Há cerca de uma semana que vários países da Europa lidam com um fenómeno chamado "a cúpula do calor", responsável por uma onda de calor que já provocou mortes, incêndios e recordes de temperaturas.
Há cerca de uma semana que vários países na Europa, incluindo Portugal, mas de forma mais severa o Reino Unido e a França, têm lidado com uma onda de calor derivada de um fenómeno chamado “cúpula de calor”.
Veja como funciona uma cúpula de calor.GettyImages
Esta segunda-feira, dia 25 de maio, o Reino Unido registou o dia mais quente em maio da sua história, com as temperaturas a atingirem os 35 graus em Londres, um aumento de dois graus em comparação com o último recorde. Registou-se também um incêndio florestal perto da colina Arthur’s Seat em Edimburgo, na Escócia. E numa região raramente afetada por altas temperaturas como o Reino Unido, a maioria das casas não está equipada com ar condicionado ou isolamento térmico para as combater.
Já em França verificou-se um aumento repentino das temperaturas, tendo tido consequências mortais. Segundo o porta-voz do governo francês, Maud Bregeon, sete mortes foram “direta ou indiretamente ligadas ao calor”, cinco por afogamento e duas mortes relacionadas com o calor extremo durante eventos desportivos.
A "cúpula do calor"
Este fenómeno, a cúpula de calor, acontece quando uma zona de alta pressão atmosférica empurra o ar quente para baixo, comprimindo-o e tornando-o ainda mais quente. O ar quente não tem por onde escapar e ao subir novamente é empurrado para baixo, aquecendo cada vez mais.
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Veja como funciona uma cúpula de calor.
“Imagine que tem um balão, sopra o balão e está a apertar com a mão, dentro do balão está uma pressão de ar muito grande. Se largar o bico, o ar sai, ou seja, o ar vai dar zonas de mais altas pressões para as zonas de mais baixas pressões”, explica à SÁBADO o climatologista Carlos da Câmara. Nestas zonas de baixa pressão o ar vai convergir e “como não pode entrar para baixo da terra”, a única coisa a fazer é subir. Ao descer, “vai ser comprimido e vai aquecer brutalmente”, acrescenta o professor da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.
Como estas cúpulas não saem do mesmo local, vai haver sempre ar a descer, a ser comprimido e a aquecer a região durante dias e por vezes, semanas, aumentando as temperaturas. “Chama-se cúpula exatamente porque o ar está ali retido, e está a ser permanentemente bombeado para baixo”, afirma o especialista.
Impacto das ondas de calor nos países afetados
Apesar de ser um fenómeno que existe desde sempre, e que já é descrito desde a década de 1950, é algo conjuntural. No entanto, “devido às alterações climáticas temos temperaturas mais elevadas, que, essas sim, têm uma natureza estrutural, e a mesma situação conjuntural vai ter um impacto maior devido ao problema de fundo estrutural”.
Outro exemplo da mitigação dos fatores das alterações climáticas que Carlos da Câmara nota é a intensidade das secas, nomeadamente na Península Ibérica. “Há um estudo que fizemos aqui na faculdade que foi analisar as secas desde 1901 até 2016 e de todas as secas que aconteceram, desde 1901 até 2016, das cinco secas mais severas de sempre na Península Ibérica, quatro aconteceram no século XXI, depois de 2000”, explicou.
Ou seja, não é só por haver menos chuva que essas secas se dão, é por essa chuva ser agora muito mais concentrada no tempo e o "solo não conseguir absorver essa quantidade de água e também porque a temperatura é mais elevada e o solo e a vegetação perdem mais água por evaporação".
O especialista acredita ainda que estes fenómenos não se tornarão parte da norma mas que vão começar a acontecer com mais frequência. “É o aumento em intensidade, frequência e extensão destes fenómenos, que torna isto grave, é gravíssimo”, reforça.
O aumento da intensidade e da frequência destas ondas de calor e destes fenómenos climáticos acaba por ter impactos nos países afetados, quer a nível socioeconómico, ecológico, na saúde, entre outros. “Se eu tiver três vezes mais ondas de calor, tenho três vezes mais prejuízos na agricultura, três vezes mais mortes, que trazem depois custos enormes”, defende Carlos da Câmara.
“É altura de nos começarmos a preocupar, já devíamos preocupar, mas agora é altura de nos preocuparmos seriamente”, exprime.
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