Há, contudo, coisas sem perdão e entre elas contam-se deixar as gentes na penúria de água ou no desalento da terra queimada.
Demorou a entrar no
cardápio dos media institucionais a realidade comezinha da falta de água no município
de Almada, enquanto o chefe do governo ia à bola, se acumulavam os problemas
com guarda-sóis nas praias e exames nacionais.
Quando televisões,
rádios e jornais deram pela míngua de água num município situado precisamente
sobre o maior dos 62 sistemas aquíferos do país – Margem Esquerda do Vale do
Tejo/Sado – começaram, então, as proclamações políticas.
A presidente da
câmara, Maria de Medeiros, mostrou-se consternada ante «uma realidade difícil»
e desconversou-se sobre investimentos por fazer na rede de abastecimento.
Trocaram-se
acusações com a mesma convicção e sabedoria despendida na prevenção de fogos e
cheias, denúncia de maus-tratos a idosos, expansão e modernização da rede
ferroviária, entre outras questões candentes.
Até próxima desgraça
noutro recanto esquecido, a Margem Sul – esse «deserto» no dizer boçal, em
2007, de Mário Lino, ministro das Obras Públicas de José Sócrates – congrega as
atenções de políticos e suas cortes, tanto mais que o Mundial já se foi.
E que esperar dos decisores?
Poucochinho, um
exemplo de liderança por um magno desígnio nacional ou qualquer coisinha?
As expectativas têm
muito a ver com as imagens ideais do político que são, afinal, disputas entre
propaganda e realidades encaradas em função do viés, interesses e aspirações de
cada pessoa e seu círculo social.
Prestes a desabarem
sobre nós as comemorações dos 900 anos da Fundação de Portugal, lembre-se a
imagem do soberano propalada nesses primórdios por cronistas, pregadores,
letrados.
Contemplamos hoje esse ideal de monarca
cristão nas figurações em pedra, pinturas, tapeçarias e outras formas visuais.
Das lendas em torno
da Batalha de São Mamede entre Afonso Henriques e Peres de Trava (1128), pelas
crónicas das dinastias afonsina e joanina, perpassa um ideal físico de
plenitude na saúde, força, beleza e virilidade, e de virtudes morais como a
sabedoria, honra, amizade.
Entre hagiografias
e críticas dissimuladas ou implícitas, eram sempre as virtudes cardeais de
prudência, justiça, temperança e fortaleza, a definir a moralidade em que
assentava a conduta do monarca.
Acresciam as virtudes teologais da fé,
esperança e caridade para definir o perfil do rei cristão
Eram o que as
crónicas denominavam as «bondades e manhas» exigidas à cabeça coroada, e a que
o monarca se obrigava também, no exercício do poder real.
Levaria séculos até ganharem peso as razões
de Maquiavel ao tentar ultrapassar as contradições insolúveis entre o ideal do
monarca cristão e o exercício quotidiano do poder.
O fosso entre a «Cidade
de Deus» e a «Cidade Terrena» fora há muito reconhecido e desde o
século V, com Santo Agostinho, esta distinção passara a confundir-se com a luta
entre o Bem e o Mal pela consumação do desígnio de Deus.
O florentino não
veio, no século XVI, negar o valor das tradicionais virtudes cristãs ou enveredar
pelo combate à Igreja.
Esclareceu, no
entanto, que na esfera autónoma da política, a honestidade moral obrigava a
reconhecer que para a efectiva conquista do poder e sua preservação importa a «virtù»,
a determinação, a impiedade e a inteligência, para aproveitar as oportunidades
que a «fortuna», o acaso, propiciam.
Maquiavel é a ideia
de política secularizada, sem laivos de predestinação divina, de uma república
ou principado fortes governados em prol dos seus cidadãos.
Na ambígua relação de religião e política a
massificação das disputas pela legitimidade na escolha das formas de poder e
seu exercício, cada vez mais virulentas a partir do século XIX, tanto favoreceu
vias democráticas, quanto regimes autoritários, ditatoriais e totalitários.
O poder delegado
pelo povo soberano estilhaçou qualquer ideia unívoca do político como monarca
representativo da nação ou do fulgor da Cristandade.
A imagem da virtude
política – que não se confundia com outros atributos obsoletos das ordens de clérigos
ou guerreiros – oscilou, assim, entre respeito pelo pluralismo, normas legais
equitativas e independência do ramo judicial, busca de consensos na alternância
eleitoral de governantes e a virulência do líder predestinado a impor pela
força a vontade da nação, da raça, de classe.
No universo
circunscrito de democracia parlamentar representativa, ora vigente em Portugal,
a imagem ideal do político ou da política num estado laico, assente no
princípio da igualdade, é algo incerta.
Na ausência de
precisões sobre ideias políticas, parecem vingar certas características
pessoais, importando imenso o engenho demonstrado a comunicar por muito vaga
que seja a pretensa mensagem.
Vestir-se no primor
da circunstância que requeira a selfie, aprumar-se, esmerar-se no gesto
simpático ou ameaçador, é fulcral, é belo.
Poetava Vinicius
de Moraes: «As muito feias que me perdoem. Mas beleza é fundamental.»
O que vale para a
«Receita de Mulher» do poeta carioca importa também para a receita de político
fêmea ou político macho, sem desconsideração por outras formas de vida.
Autodomínio,
moderação, força de carácter, prudência, uma forte convicção de justiça,
desapego e reconhecimento da pluralidade de crenças, capacidade de comunicar e
ouvir, são, genericamente, qualidades reconhecidas e prezadas
O desaforo, boçalidade
imoderada, incontinência verbal, o dizer e desdizer-se, são, ao invés,
características igualmente apreciadas. É o gáudio de quem envereda pela
violência contra gente que se despreza e amesquinha, proclamando de forma tenaz
certezas imorredoiras.
Na ambiguidade da
vida umas e outras qualidades confundem-se como defeitos ou virtudes, tal como
uns têm fé na protecção divina e outros nem tanto ou mesmo nada.
Existe, ainda
assim, um reconhecimento generalizado de que em «obras e pensamentos» é errado
ou inconveniente prevaricar por roubo, furto qualificado, corrupção activa ou
passiva, abuso de crianças, crimes sexuais e fiscais, infracções ao Código da
Estrada, adultério e homicídio.
Conclua-se que, na
ausência, que a todos constrange, de uma imagem ideal, prevalecente e
impositiva, do que devem ser «bondades e manhas» do político há, contudo,
coisas sem perdão e entre elas contam-se deixar as gentes na penúria de água ou
no desalento da terra queimada.
Texto escrito segundo o Acordo Ortográfico de
1945
Esta é, desde já, a consequência mais assustadora da guerra na Ucrânia: sem armas nucleares é impossível garantir soberania plena da capacidade de dissuasão.
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