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Se a arte cura, vamos expô-la no hospital

Desde a semana passada que já há obras espalhadas pelo Santa Maria. Mas, nos próximos dois anos, o projeto Curarte pretende ser muito mais do que isso e disseminar-se a outras unidades do Pais. Porque os benefícios da arte na saúde e na doença estão provadíssimos

A entrada no enorme hospital Santa Maria, em Lisboa, situado num campus com aproximadamente 22 hectares, é sempre assoberbante, mesmo para quem não está doente nem vem aqui a uma consulta. A confusão de carros, no exterior, e as 17 mil pessoas que deambulam de um lado para o outro diariamente, alguns em macas ou cadeiras de rodas, nos corredores labirínticos dos diversos edifícios, são os principais promotores dessa sensação.

Vale-nos agora um olhar atento a alguma das obras que estão na receção central - a fotografia Hotel da Praia Grande (O Estado das Coisas), de Ângela Ferreira, imponente, que mostra a nadadora a colocar uma flor numa jarra junto à piscina, abre-nos logo os horizontes. E depois, é manter os olhos abertos para descobrir outros convites artísticos, de Ana Jotta, Pedro Cabrita Reis ou José Pedro Croft, só para citar alguns dos artistas nacionais, chineses, japoneses e moçambicanos que nos distraem daquele ambiente intimidante. Especialmente, para quem não está na melhor fase da vida. 

É isso mesmo que havemos de ouvir da boca de Francisca Borges, 26 anos, quando, ao lado seu companheiro de curso e de ideal, Pedro Fava, da mesma idade, fala sobre o Curarte, o projeto que iniciaram em 2000 e que acaba de ganhar fôlego por culpa de um protocolo assinado com o Estado, na aula magna do Santa Maria, para uma plateia repleta de batas brancas e outros curiosos. É até difícil manter uma conversa com os mentores da ideia de espalhar manifestações artísticas pelos corredores e unidades hospitalares, pois todos querem abraçá-los, dado que nenhum deles já está nesta faculdade: Francisca faz a especialidade em medicina interna, em Gaia, e Pedro estuda cirurgia maxilo-facial, em Coimbra. 

"Como vemos um hospital?" A questão está no cerne do movimento que criaram e que conseguiram implementar, dois anos depois, primeiro na ala da cirurgia pediátrica e pedindo a participação voluntária dos estudantes que tivessem queda para as artes. Foi assim que pintaram as paredes da sala de recobro, onde os pais se despedem e recebem os filhos, antes e depois de eles entrarem no bloco operatório. "É um lugar com forte carga emocional", lembra Pedro, no decorrer da história que nos contou.   

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Natureza e cultura de mãos dadas

A ideia não lhes apareceu por acaso. Já sabiam que a Organização Mundial da Saúde (OMS) fizera uma revisão de 900 publicações sobre o tema e chegara à conclusão de que "o envolvimento com a arte pode ser benéfico para a saúde mental e física". Esta é a principal conclusão de um relatório lançado em 2019 pela delegação europeia da organização, analisando atividades artísticas que buscam prevenir problemas de saúde, lidar e tratar questões físicas e mentais e apoiar os cuidados no final da vida. Isto é verdade para prescrições sociais dirigidas a quem se pode deslocar ou para levar a arte a quem está internado ou tem de ir frequentemente ao hospital. 

Até ao final do ano que vem serão 13 as áreas de intervenção no Santa Maria, com base na curadoria de Guta Moura Guedes. Para já, só três estão a avançar: o ostinato, inspirado no conceito musical de um tom que se repete e sustenta uma composição; o sabor do cuidado, que terá a ajuda do chef José Avillez para repensar a alimentação como parte ativa do cuidado; e os módulos flexíveis, carrinhos produzidos em Portugal, desenhados especificamente para transportarem experiências culturais a quem perdeu a autonomia. "Queremos que a Natureza e a Cultura sejam parte integrante do ecossistema hospital", resume a curadora. 

A palavra humanização, em oposição às paredes frias em que pensamos quando a palavra hospital nos surge na mente, foi talvez das mais repetidas neste auditório, desde o presidente da ULS Santa Maria à ministra da cultura, juventude e desporto. E a Égide, Associação Portuguesa das Artes, o parceiro mais aplaudido, na pessoa da sua presidente Ana Proença.

O que vai ser feito
O que vai ser feito DR

A arte pode parecer um pormenor dentro desta enorme estrutura hospitalar, só que, neste momento, a evidência da sua importância é robusta. A cultura melhora a experiência de doentes, familiares e profissionais na redução do stress e ansiedade, por exemplo. Mas também interfere na menor perceção da dor e redução do recurso a analgésicos. Está provado que a recuperação se torna mais rápida quando acontece em ambientes com luz natural e integrados na natureza (talvez por isso a recuperação do bosque deste hospital lisboeta esteja nos planos da Curarte). Além de tudo isto, humanizar a experiência hospitalar ainda traz benefícios económicos, pois verificam-se menos internamentos, melhor eficiência do tratamento e menos medicação.

Se dúvidas restarem, a parceria com a Universidade Nova de Lisboa visa medir o impacto das medidas que serão espalhadas por todo o Santa Maria, no final das intervenções planeadas. E então, nessa altura, a ideia poderá escalar para outras unidades de saúde, em Portugal ou no estrangeiro. 

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O Dona Estefânia ganhou um mural

O projeto Healing Nature, financiado pela União Europeia, apresenta agora os resultados de três anos de investigação, criação artística e inovação tecnológica dedicados à humanização dos ambientes hospitalares através da arte, animação e realidade aumentada. Desenvolvido em parceria com a Universidade Lusófona, a Croatian Association of Fine Artists (Croácia) e a New Bulgarian University (Bulgária), esta iniciativa levou à criação e instalação de três murais em unidades pediátricas dos três países parceiros - em Portugal, ele está no hospital Dona Estefânia, em Lisboa.

Concebidas para transformar salas de espera em espaços mais acolhedores e estimulantes, as obras combinam pintura artística com animações em realidade aumentada, para uma experiência interativa dirigida às crianças e às suas famílias.

Além da componente artística, o projeto concebeu uma vertente científica dedicada à avaliação do impacto destas intervenções. Através de estudos de eye-tracking e de análises da experiência dos utilizadores, realizados em Portugal, Croácia e Bulgária, lançou-se mais uma acha para a fogueira da relação arte-saúde: demonstrou-se que determinados elementos visuais captam e mantêm a atenção dos observadores, tornando assim os ambientes hospitalares mais confortáveis, envolventes e emocionalmente positivos.