Estes jornalistas portugueses venceram um Emmy

Estes jornalistas portugueses venceram um Emmy
Vanda Marques 21 de fevereiro

Entraram numa mina com 50 metros de profundidade para mostrar como o ouro suporta o sistema corrupto de Nicolas Maduro. A reportagem valeu-lhes a distinção.

Uma cabeça cortada no centro de uma cidade é uma mensagem forte o suficiente para não precisar de explicações. O clima de medo que se vive em El Callao, na Venezuela, é constante. Os dois jornalistas da CNN, Vasco Cotovio e Isa Soares, não presenciaram o ato violento, mas cruzaram-se por duas vezes com carrinhas pick-up com homens encapuçados e de metralhadoras nas mãos.

El Callao é o município mais violento do país. O episódio tétrico da cabeça abandonada aconteceu uma semana antes de chegarem à Venezuela, mas isso não os fez mudar de ideias. Sabiam o que procuravam e durante meses prepararam a investigação Maduro’s Blood Gold – o ouro de sangue de Maduro. A reportagem que emitiram na CNN, em agosto de 2019, valeu-lhes um Emmy na categoria de Outstanding Business, Consumer or Economic Report. Tudo porque denunciaram a forma como o Presidente da Venezuela usa as minas de ouro em seu proveito. A proteger recursos tão valiosos – em média tiram-se 6 mil dólares (perto de 5 mil euros) em ouro por dia das minas de Orinoco – há gangues, guerrilhas e milícias. "Estivemos muito pouco tempo na zona porque há muitas guerrilhas. Ficámos um dia e uma noite e nunca dissemos que éramos da CNN", explica Isa Soares, 41 anos. "Estivemos muito pouco tempo na zona, um dia e uma noite, nunca dissemos que éramos da CNN."

A correspondente internacional e pivô da CNN, que começou a carreira em 2004, já fez várias investigações na Venezuela. Nunca recebeu ameaças, diz, e está focada na missão de revelar o que se passa no país. "Vemos a população sem comida, sem dinheiro, crianças que são só ossos... Depois existe um grupo a beneficiar do país, como o Presidente Nicolas Maduro. Mas não é apenas ele. Queríamos mostrar o núcleo corrupto ao mais alto nível." Vasco Cotovio, jornalista e produtor internacional da CNN, com base em Londres, explica que quando se apercebeu de como as minas de ouro estavam a ser usadas por Maduro e controladas por gangues, compreendeu a importância da história. "Tal como os diamantes de sangue, aqui temos o ouro de sangue. Maduro trata aquela zona como se fosse património dele. As pessoas são quase escravas. Vivem num clima de tensão e de medo. Correm riscos todos os dias", explica à SÁBADO.

Aliás, Vasco destaca o mineiro que quis falar com eles sem se identificar, e que descreveu o clima de terror. Há assassinatos e, quando há roubos ou desaparece alguma coisa, os gangues cortam as mãos aos mineiros. "Falámos com ele num local afastado, mas ele tremia por todos os lados, com medo." Isa Soares recorda que este mineiro era um homem "abatido, cansado e frustrado e que dizia que o culpado por tudo aquilo era Maduro".


Ronaldo e os gringos

Antes de embarcarem numa investigação como esta, a CNN tem um gabinete de análise de risco que descreve o que devem ou não fazer na região. Um dos conselhos era claro: não devem descer às minas. Quando lá chegaram, a equipa mudou de ideias. "Entrar na mina foi um perigo, o sistema para descer era muito básico, só umas cordas. E eu não conhecia aqueles homens. Só pensava: ‘O que me vai acontecer quando estiver lá em baixo? Será que posso subir?’ Pensei o pior", conta Isa Soares, que vive em Londres desde os 11 anos.



Vasco Cotovio explica que fizeram uma nova análise de risco em conjunto com o segurança que os acompanhou neste trabalho e com quem há vários anos fazem investigações. "Percebemos que, para contar esta historia, tínhamos de descer. Fomos a uma mina com 50 metros de profundidade, foram dois minutos a descer." Lá em baixo puderam testemunhar a falta de condições e ainda a facilidade com que se encontra ouro. Os jornalistas explicam que ser português facilita este tipo de reportagens na América Latina. gringos não são bem-vindos.

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