Quem é Niño Guerrero, o líder do gangue Tren de Aragua que os EUA dizem ter abatido?
Héctor Flores comandava o maior gangue venezuelano a partir de uma prisão, que mais funcionava como um hotel. Era procurado pela justiça e tinha a cabeça a prémio. Na sexta-feira, os EUA anunciaram que foi morto numa operação conjunta com a Venezuela.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou na sexta-feira que as Forças Armadas norte-americanas mataram o líder do gangue venezuelano Tren de Aragua, Héctor Rusthenford Guerrero Flores. Niño Guerrero, como era mais conhecido, era o fugitivo mais procurado pelo serviço de Imigração e Alfândega dos EUA e tinha a cabeça a prémio: o Departamento de Estado dos EUA havia oferecido uma recompensa de até 5 milhões de dólares (4,32 milhões de euros) por informações que levassem à sua captura.
A captura de Niño Guerrero foi possível graças à coordenação entre os governos venezuelano e norte-americano e nessa operação o criminoso foi morto num "ataque rápido e letal". Imagens divulgadas mostram até o momento em que um míssil atingiu um complexo onde poderia estar o líder da organização.
Este complexo estava localizado no estado de Bolívar, mas não se sabe se foi lá que Niño Guerrero morreu. Há também questões sobre o dia em que esta ação decorreu.
O secretário de Defesa dos Estados Unidos, Pete Hegseth, admitiu apenas na rede social X, que a captura das imagens foi recolhida no início desta semana, mas não foram fornecidos mais detalhes.
"Esta ação reforça o compromisso partilhado entre os Estados Unidos e a Venezuela no combate aos narcoterroristas", acrescentou.
Já o comandante do Comando Sul dos Estados Unidos, Francis Donovan, esclareceu que a operação tinha como alvo um "complexo do Tren de Aragua".
Quem era Niño Guerrero?
Héctor Rusthenford Guerrero Flores nasceu em 1983 em Maracay, estado de Aragua, embora diversas fontes discordem sobre a data de nascimento exata.
Niño Guerrero, como era conhecido, começou a aparecer nos registos da polícia venezuelana ainda nos inícios dos anos 2000. Em 2005, chegou até a atacar uma esquadra, resultando na morte do cabo Oswaldo González.
Héctor acabou preso em 2010 por crimes relacionados com homicídio, tráfico de drogas e roubo, mas em 2012 conseguiu escapar da prisão, tornando-se num dos criminosos mais procurados da Venezuela até ter sido recapturado no ano seguinte e devolvido à prisão de Tocorón.
Em fevereiro de 2018, foi formalmente condenado a 17 anos de prisão por crimes de homicídio, tráfico de drogas, roubo de identidades e ocultação de armas de guerra, mas não cumpriu a totalidade da pena. Em 2023, governo venezuelano lançou uma mega operação de segurança tomando o controle de Tocorón e Guerrero e outros líderes do grupo, que deviam estar presos, desapareceram e desde então que estavam em fuga. Segundo a imprensa local, tudo indica que terão sido avisados dessa intervenção policial com antecedência. Para trás deixaram armas e dinheiro.
No final de 2024, o Departamento de Estado dos EUA passou a oferecer uma recompensa de cinco milhões de dólares por informações que levassem à sua captura e em dezembro de 2025, o líder do gangue foi indiciado por um tribunal federal de Nova Iorque por conspiração para cometer extorsão e outros crimes, incluindo apoio a atividades terroristas. O procurador federal Jay Clayton declarou que o Tren de Aragua era responsável por ter cometido inúmeros atos de violência, extorsão e tráfico de drogas na América do Norte, América do Sul e Europa. A organização acabou por ser declarada terrorista pelos Estados Unidos.
Apesar de ter estado por detrás das grades, Héctor nunca perdeu a sua influência, alias, foi na prisão que consolidou o poder o grupo, tornando-se no principal líder prisional da Venezuela.
Segundo o InSight Crime - um centro de investigação especializado em crimes organizados nas Américas - em 2020 o grupo contava já com cerca de mil membros que respondiam às ordens de Niño Guerrero e era a partir da prisão que tudo era controlado. No estabelecimento prisional, Niño Guerrero morava numa casa de dois andares e recebia as visitas que desejava. Tinha ainda acesso a uma piscina, um campo de basebol, uma discoteca, restaurantes e até mesmo um jardim zoológico.
Mesmo preso terá também conseguido frequentar uma festa que decorreu em 2015 em Maracay - um dos bairros mais controlados pelo grupo Tren de Aragua. Nessa festa, Niño Guerrero apresentou-se como líder da organização e prometeu melhorar as condições de vida dos moradores locais.
Quer da parte de dentro como da parte de fora da prisão, o criminoso conseguiu sempre expandir a influência do gangue, ao assumir o controle de minas de ouro no estado de Bolívar, perto da fronteira com o Brasil, controlar as rotas de tráfico de droga e as passagens clandestinas entre a fronteira da Venezuela e da Colômbia, segundo o Departamento de Estado dos EUA.
O Tren de Aragua conseguiu ainda espalhar-se para fora da Venezuela a partir de 2014, quando o país entrou numa crise humanitária e económica - o que tornou o crime menos lucrativo.
No Brasil, por exemplo, há relatos da presença deste grupo em pelo menos seis estados do país e foi precisamente em Roraima que o gangue venezuelano iniciou laços com as fações brasileiras Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV).
Já no Equador, acredita-se que o gangue trabalha com grupos afiliados ao cartel mexicano de Sinalo, enquanto que na Colômbia alega-se que trabalha com membros do grupo de guerrilha de esquerda Exército de Libertação Nacional.
O gangue expandiu-se também até Espanha, onde o irmão de Guerrero acabou detido em março de 2024. Foi essa mesma detenção que levou a polícia a conseguir identificar a primeira célula suspeita do Tren de Aragua no país.