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João Carlos Barradas
João Carlos Barradas
01 de agosto de 2026 às 07:00

Um homem puro como Lúcifer

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Edição de 28 de julho a 3 de agosto

De inteligência remediada e rasteira condição perverte as palavras, dizendo, por exemplo, que ilegalidade é informalidade ou alardeando uma trapaça como «puro acto de boa gestão».

Fumou dois cachimbos de ópio e foi até ao palácio de Hanói que servira de residência aos governadores-gerais da Indochina Francesa para o encontro com Ho Chi Minh.

Nessa manhã de Março de 1955 beberam chá, conversaram em inglês, e Graham Greene despediu-se absorto com algo que lhe tinham dito acerca do comunista conhecido como Nguyen Ai Quoc (Nguyen, O Patriota).

O presidente da República Democrática do Vietname no seu uniforme de caqui deixara-lhe uma impressão de «simplicidade, de franqueza, mas sobretudo de liderança».

Para o romancista inglês era como se Ho na peregrinação revolucionária que o levara por terras de França, ao Brasil, à Inglaterra, à União Soviética, à China e a tantos outros destinos clandestinos tivesse «resolvido pacientemente uma equação.»

Ho era um crente no seu absoluto.

Greene sentira ter estado, pois, ante alguém que «dava ordens e esperava obediência e também amor».

Tal seria a descrição de Ho Chi Minh num artigo que veio a publicar no londrino «The Sunday Times».

Levava o título «Um homem puro como Lúcifer» e fora, de facto, com estas palavras que o classificara um inimigo figadal de Ho, Ngo Dinh Diem, com quem Greene jantara em Saigão umas semanas antes.

Ngo, baptizado Jean-Baptiste, servia, então, como chefe do governo a Sul do Paralelo 17, e haveria de desembaraçar-se do imperador Bao Dai, autoproclamando-se presidente da República do Vietname, em Outubro.

Nesses primeiros meses de 1955, Greene tinha, contudo, a ideia de que, no Sul, Ngo não passava de um «patriota arruinado pelo Ocidente» à frente de «uma ditadura ineficiente».

Oriundo de uma proeminente família católica num país formado pelo confucionismo, Ngo, com sua fé e autoritarismo, acabaria incompatibilizado com os aliados norte-americanos e John Kennedy.

Foi assassinado a 2 de Novembro de 1963 num golpe militar patrocinado pelo primeiro presidente católico do Estados Unidos que 20 dias mais tarde seria morto em Dallas.

Para um católico como Greene, pecador impenitente e atormentado por dúvidas, testemunha da derrocada da Indochina Francesa em Diên Biên Phu, em 1954, antes dos encontros com Ngo e Ho, algo desse futuro já estava escrito na pedra ao publicar o premonitório «O Americano Tranquilo» no final de 1955.

A imensidão e plenitude das grandes certezas inelutáveis assume demasiadas vezes dimensões trágicas, provocando desmedido sofrimento.

Assim foi com a crença revolucionária de Ho, «puro como Lúcifer», e o arrogante fanatismo católico de Ngo.

Noutros romances e contos de Graham Greene pululam igualmente servos mais comezinhos de Lúcifer para lamento do nosso destino.

São maléficos, presunçosos, despudorados.

A um anjo caído destes pode chamar-se-lhe em português de lei satanazim; assim o crismou o poeta Alexandre O’Neill.

O satanazim é pesporrente e na sua jactância exibe-se por aqui, por ali.

De inteligência remediada e rasteira condição perverte as palavras, dizendo, por exemplo, que ilegalidade é informalidade ou alardeando uma trapaça como «puro acto de boa gestão»

Um satanazim pode até crer-se «muito coeso, emponderado, muito motivado». Insistente, tudo isto está-lhe na massa do sangue e outros que tais reconhecem-se nele.

O satanazim assevera estar «sempre do lado do bem», mas, com certeza tamanha, quer, afinal, arrastar-nos na sua desvergonha.

Pelos satanazins de ontem e de sempre valeu e vale este poema:

«Saber viver é vender a alma ao diabo,

a um diabo humanal sem qualquer transcendência,

a um diabo que não espreita a alma, mas o furo,

a um satanazim que se dá por contente

de te levar a ti, de escarnecer de mim…»

Abandono Vigiado (1960) Alexandre O’Neill

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