Tavira não passa de moda

Entre a terra e o mar, a região recebe visitantes há quase 3000 anos. Uns vieram pelo peixe, outros pelo sal e nenhum se foi embora sem aproveitar o sol deste Sotavento algarvio. Uma beleza intemporal.

Quem vem e atravessa a Ria não vê a serra do Pilar. Isso é no Porto e numa canção. Aqui, é Tavira e a música é outra. Ao cruzar a Ria Formosa, o que se vê, além da beleza natural, é uma inscrição: Arraial Ferreira Neto. Eram 85 as famílias que aqui viviam, mais de 300 pessoas, mas havia espaço para muitas outras. As primeiras chegaram a meio da Segunda Guerra Mundial. As últimas saíram em 1971, mas a história já vinha de trás.

O arraial substituiu a antiga armação do Medo das Cascas (existente desde o século XVI), arrasada pelo mar em 1943, e trazia na sua construção toda a linha arquitetónica do Estado Novo. Quem aqui viveu dependia do mar e do atum capturado. Os números não mentem, independentemente do nome com que o local tenha sido batizado: em 1852 foram aqui apanhados 8.500 atuns, em 1881 chegou aos 43.000 (o máximo de sempre) e, em 1971, apenas um destes peixes entrou na armação. Nesse ano, encerrou definitivamente o arraial, sendo posteriormente convertido em habitação social e poiso para os retornados de África.



Hoje, e desde 2000, o arraial é o Vila Galé Albacora, recuperado e transformado eco-hotel de quatro estrelas, com spa, piscina, horta biológica e muitos espaços para aproveitar o sossego das férias e respeitar a herança. Não só foi mantida a traça como toda a organização do espaço. Nesta espécie de aldeia de pescadores havia capela, escola, padaria, posto médico, oficinas e vários edifícios que acomodavam quem aqui vivia em permanência. O quase desaparecimento do atum nos anos 1970 levou ao encerramento do arraial e ao seu progressivo abandono. Chegou a ser local de realojamento de quem regressou de África depois do 25 de Abril, mas em 2000 a cadeia portuguesa Vila Galé conseguiu concluir as obras de recuperação e abrir este hotel quatro estrelas com 163 quartos, orientado para famílias e/ou amantes da natureza e da tranquilidade.

É do ancoradouro privado do hotel que partimos de barco até à Terra Estreita. As praias de Terra Estreita, Barril e Tavira formam a ilha de Tavira, que se estende por cerca de 15 quilómetros até à barra da Fuzeta. Mais calma do que as demais, a Terra Estreita tem um pequeno quiosque e colmos com espreguiçadeiras para quem quer outro conforto. Tudo o resto é gratuito: a água quente do Sotavento, um areal a perder de vista e o sol que raramente falha no Algarve. Só existem duas ligações coletivas regulares à praia, a do Albacora e a de Santa Luzia, mas em época alta é preciso ter em conta as filas. Se preferir, pode sempre chamar um personalizado aquatáxi. Os hóspedes do Vila Galé Albacora têm viagem assegurada em embarcação própria.

Tavira é muito mais do que praia e verão. É a "capital do provérbio", título que muito orgulha Rui Soares, professor de Matemática e fundador da Associação Internacional de Paremiologia (aip-iap.org), com sede na cidade que anualmente é ponto de encontro de estudiosos de todo o mundo. Fica o desafio de encontrar alguns dos provérbios nas bancas do mercado municipal, onde se pode comprar de polvo a corvina e de sardinha a atum, passando pelas famosas conquilhas e amêijoas da Ria Formosa, legumes, fruta e alguns produtos característicos, como os figos secos, os orégãos, a muxama de atum e, claro, sal e flor de sal. Mas atenção, como diz um dos provérbios ali expostos, "quem come tudo num dia no outro assobia".



As salinas de Rui Simeão situam-se a poucos metros do mercado. Tal como aquelas junto à ria e ao Forte do Rato (ou Forte de Santo António), que marcam a paisagem com a mudança de cores à medida que o processo de extração do sal avança. Esta atividade é praticada na região, que é hoje o Parque Natural da Ria Formosa, desde o tempo dos fenícios, essencialmente para conservar peixe. O processo artesanal sofreu poucas alterações e a água viaja entre talhões até atingir um ponto de saturação que permite a sua recolha – geralmente entre junho e setembro – pelos marnotos, mestres na arte de extrair sal. Os cristais que se formam à superfície são a flor de sal, tão apreciada pela sua delicadeza de sabor.

Nos produtos vendidos no mercado está parte da história de Tavira, que em 2020 comemorou 500 anos de elevação a cidade. A salga de peixe remonta à presença fenícia, mas foi com os árabes que teve uma das suas épocas áureas. O que resta dessa herança está conservada no Núcleo Islâmico, bem no centro da cidade. Uma visita com a arqueóloga Jaquelina Rovareiro ajuda a entender mais sobre a importância de Tavira como ponto comercial de entrada do Mediterrâneo. O museu "esconde" parte da muralha, anterior à conquista cristã, e uma peça considerada ex-líbris da cidade, o Vaso de Tavira. Jaquelina realça que "os romanos pouco fizeram em Tavira, foi até uma fase de declínio" e por isso se fazem honras à herança muçulmana.

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