Crise provocada pela pandemia vai trazer mais pobreza e desigualdades

Lusa 20 de março
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O país que está refletido nos dados sobre pobreza do Instituto Nacional de Estatística desapareceu, afirma Farinha Rodrigues.

O professor e especialista em políticas sociais Carlos Farinha Rodrigues alertou que o país que está refletido nos dados sobre pobreza do Instituto Nacional de Estatística desapareceu e que a crise atual vai trazer mais desigualdade e mais pobreza.

Os dados mais recentes do Instituto Nacional de Estatística (INE), divulgados em meados de fevereiro, davam conta de que a taxa de pobreza ou exclusão social tinha baixado entre 2019 e 2020, situando-se nos 19,8%, bem como a taxa de privação material ou a taxa de privação material severa.

"Temos aqui um paradoxo porque temos os dados do INE, que nos dizem claramente que estamos no bom caminho, a tendência decrescente da desigualdade e da pobreza está a diminuir, mas depois somos confrontados com a realidade da pandemia em que sabemos que o Portugal de hoje já não tem nada a ver com o Portugal que vem naqueles dados", apontou o professor do Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG), da Universidade de Lisboa.

Segundo o especialista e investigador nas áreas da distribuição do rendimento ou da desigualdade e pobreza, hoje há fatores de crise que "certamente se vão traduzir em agravamentos da desigualdade e da pobreza que [os] dados [do INE] ainda não captam".

Farinha Rodrigues apontou que os dados revelados pelo INE são os mais baixos desde que o organismo começou a publicar a série rendimentos e condições de vida, nos anos 90 do século XX.

"Deste ponto de vista é extremamente positivo", destacou, para logo de seguida lembrar que os dados do INE, apesar de serem relativos ao inquérito feito em 2020, dizem respeito aos rendimentos do ano de 2019.

No que diz respeito ao indicador de pobreza, Farinha Rodrigues referiu como a redução é ainda mais significativa quando, ao mesmo tempo, a linha de pobreza cresceu 7%, ou seja, passou a haver uma fronteira entre pobres e não pobres "que é mais exigente do que no ano anterior"

"E apesar disso, conseguimos reduzir a taxa de pobreza, esse é o aspeto mais positivo desses dados", destacou.

No entanto, referiu que há também "alguns fatores ligeiramente contraditórios", nomeadamente o aumento da taxa de incidência da pobreza entre as crianças, contrariamente ao que se tinha passado em anos anteriores, tal como nos idosos.

Da análise feita pelo professor e investigador, isso significa que "a redução global na taxa de pobreza está essencialmente associada a pessoas em idade ativa e, portanto, está associado a melhorias significativas no mercado de trabalho".

O que tem também outra consequência: "A taxa de pobreza nos indivíduos desempregados, que é a mais alta de todos os grupos, desceu".

Associada à pobreza das crianças está outro fator "que merece alguma atenção" e que tem a ver com as famílias alargadas, com mais de três filhos, "um dos setores sociais mais frágeis em termos de pobreza" e onde se registou um "grande agravamento".

"Estas famílias têm um comportamento muito oscilatório, ou seja, a sua taxa de pobreza tem, de ano para ano, variações significativas, mas geralmente eles são um indicador porque são as famílias onde tradicionalmente primeiro chega a crise porque são as mais vulneráveis", explicou.

Segundo Farinha Rodrigues, isto significa que as medidas especificamente pensadas para as crianças "ainda são muito fragmentadas" e que "precisam de um reforço muito grande".

Recusa, no entanto, que todo o trabalho feito até agora de combate às desigualdades sociais e à pobreza esteja em causa, sublinhando que há um conjunto de políticas públicas que contribuíram para a redução desses indicadores, a par do crescimento económico, "ainda que fraco".

"Não tenho dúvidas nenhumas que se não tivesse havido essa recuperação nos anos anteriores, a situação de hoje seria tragicamente pior", garantiu.



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