A atriz deixou a sua fortuna à Fundação com o seu nome. Agora o seu viúvo viu-se sem casa e a ter de recebido uma proposta de ficar numa habitação social em Saint Tropez.
Quando o viúvo de Brigitte Bardot, Bernard d'Ormale, saiu de casa no domingo passado, 25 de outubro, para tomar um café em Saint-Tropez, não imaginava que seria a última vez que entraria na sua vivenda. Quando regressou, tinham substituído o portão por um painel de madeira com um aviso de obras. d'Ormale pediu ao segurança da casa que lhe devolvesse os seus pertences, mas este limitou-se a entregar-lhe um pequeno porta-cartões onde não se encontravam nem o seu cartão bancário nem os seus documentos, apenas o cartão de saúde de Bardot. Naquela noite, teve de dormir num apartamento que lhe foi disponibilizado pela Câmara Municipal de Saint-Tropez. O presidente da câmara propôs-lhe uma habitação social, mas D'Ormale recusou-a por ser "muito pequena", avança o El Mundo.
O viúvo de Bardot luta por habitação em Saint TropezLIONEL CIRONNEAU / AP
Bernard d'Ormale, de 85 anos, é um empresário com ligações à Frente Nacional, tendo sido conselheiro de Jean-Marie Le Pen nos anos 80. Conheceu Bardot em 1992 e poucas semanas depois casaram, tendo o casal habitado sempre em La Madrague, uma villa de 35 mil metros quadrados. Agora, a Fundação Brigitte Bardot, à qual a atriz deixou a La Madrague em herança, expulsou-o. A ONG foi criada em 1986 para proteger os animais, uma das causas mais queridas à atriz de Le Mepris.
A organização atua principalmente através de abrigos, mas também através do apoio a projetos de santuários de animais, como uma reserva de bonobos na República Democrática do Congo. A fundação exerce pressão junto do Governo francês e das instituições europeias, procurando influenciar diretamente a legislação em matéria de proteção animal, tendo-se tornado uma das ONG mais consequentes naquele país.
A Fundação Brigitte Bardot declarou, em 2024, um ativo total de 161,1 milhões de euros, dos quais 44,4 milhões correspondiam a bens recebidos por herança e doações destinados a serem alienados, 8,8 milhões são terrenos e 14,5 milhões edifícios. Dispõe de quatro abrigos em França, onde acolhe cerca de 13.000 animais domésticos e de criação.
A fundação tornou-se, além disso, uma organização com um património de milhões, 300 colaboradores e dezenas de voluntários, que consegue exercer pressão nos círculos do poder graças às ligações políticas e institucionais da atriz e do seu marido. Após a morte de Bardot, o viúvo assumiu a presidência da fundação, mas o conselho de administração decidiu destituí-lo do cargo em setembro deste ano.
Bernard d'Ormale continuava a viver na Madrague apesar da atriz ter doado a propriedade à fundação em 1992 para garantir "a continuidade do seu trabalho e assegurar o financiamento sustentável da causa animalista", segundo afirma a própria organização. O viúvo morava lá em regime de usufruto.
No testamento, Bardot estipulou que, seis meses após a sua morte, todas as pessoas que vivessem em La Madrague deveriam partir, para que a fundação pudesse transformar o local num museu que lhe permitisse obter receitas para o cuidado dos animais.
A guerra entre o viúvo e a ONG
Segundo a fundação, Bardot tratou pessoalmente de todas as condições para que o seu companheiro pudesse residir noutro local e concedeu-lhe o usufruto de "um magnífico apartamento de dois andares, com jardim privado, situado num bairro elegante do 16.º distrito de Paris". No entanto, Bernard d'Ormale decidiu vendê-lo. A venda desse apartamento é um dos pontos de atrito entre o viúvo de Bardot e a nova direção da fundação.
O presidente é Max Guazzini, advogado e antigo presidente da NRJ, um dos grandes grupos de rádio franceses. Bardot nomeou-o administrador e secretário-geral da fundação em 2020. Guazzini argumentou que permitir que D'Ormale continuasse a residir numa propriedade da fundação enquanto era membro do seu conselho de administração constituiria um conflito de interesses.
Outro dos assuntos que provocaram discórdia entre a fundação e d'Ormale são os bens de Bardot que foram leiloados em setembro, em Paris. Foram 285 objetos pessoais, com os quais se angariaram 954.000 euros. Segundo o viúvo, nem ele nem a sua esposa tinham dado o seu consentimento para a venda, pois tratava-se de objetos muito pessoais, como a guitarra dela ou um tutu preto.
D'Ormale classificou os membros da direção da fundação como "administradores de segunda categoria" e "advogados sem escrúpulos" e pediu que a diretora da fundação, Ghyslaine Calmels-Bock, de 70 anos, se reformasse. Por seu lado, a fundação explica que tem sido alvo de uma "campanha de difamação desde o falecimento da sua fundadora, cujo objetivo é desestabilizar o seu trabalho e os seus dirigentes".
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