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(Enviada semanalmente)
É curioso observar uma sala quando deixamos de ouvir apenas as palavras e começamos a descobrir que existem organigramas oficiais e organigramas humanos e nem sempre coincidem.
Há algum tempo, durante uma
sessão de mentoria, um CEO disse-me uma frase que ficou comigo, “Alexandre, eu
faço tudo certo. Trabalho mais, preparo-me melhor, entrego resultados e há
pessoas menos competentes do que eu que continuam a chegar primeiro.”
Peguei numa folha de papel e
desenhei um tabuleiro de xadrez e perguntei-lhe qual era a peça mais poderosa, “A
Rainha!”, respondeu, sem hesitar.
E eu disse-lhe “Não, a peça mais
poderosa não está sequer desenhada no papel, porque a pessoa mais poderosa é a
que decide para onde as peças se movem”, ele ficou em silêncio.
Adoro estes silêncios, porque são
normalmente o momento em que deixamos de ouvir aquilo que já sabemos e
começamos finalmente a pensar.
Grande parte do trabalho que faço
como mentor de CEOs, empresários e pessoas que ocupam posições de elevada
responsabilidade começa precisamente este, não é ensinar-lhes a trabalhar mais,
porque normalmente já trabalham demasiado é ajudá-los a compreender o jogo que
acontece à sua volta.
Passamos uma parte considerável
da vida a aprender as regras oficiais, estudar, trabalhar, cumprir, produzir
resultados, ser competente, esforçarmo-nos e esperar que, algures pelo caminho,
alguém reconheça o nosso valor, compreendo que tudo isto é importante, mas só,
não é suficiente, porque existem outras regras, são aquelas que não aparecem
nos contratos, nos organigramas ou nos manuais de liderança, que ninguém nos
explica!
Um exemplo simples, a competência
e perceção de competência são coisas diferentes; ter razão e fazer com que os
outros reconheçam que temos razão são dois jogos distintos ou que duas pessoas
podem entrar na mesma sala, defender praticamente a mesma ideia e obter
resultados completamente diferentes. Ninguém nos ensina que o mapa do poder e
da influência.
Há muitos anos que estudo
comportamento humano, profiling, influência e as técnicas utilizadas no mundo
da inteligência e uma das coisas que aprendi foi a prestar menos atenção ao
óbvio. Numa reunião, por exemplo, interessa-me aquilo que é dito, mas
interessa-me mais aquilo que acontece enquanto algo está a ser dito.
Quem interrompe quem? Quem procura
o olhar de alguém antes de responder? Quem muda subtilmente de postura quando
determinada pessoa começa a falar? Quem precisa de demonstrar autoridade? Quem
parece mandar? E, sobretudo, quem quase não precisa de falar para que os outros
percebam que manda?
É curioso observar uma sala
quando deixamos de ouvir apenas as palavras e começamos a descobrir que existem
organigramas oficiais e organigramas humanos e nem sempre coincidem.
Há quem pensa que tem
poder e há quem tenha poder!
A maioria das pessoas entra numa
reunião importante preocupada com aquilo que vai dizer, prepara argumentos,
números, apresentações e respostas, tudo necessário, mas alguém que compreende
o jogo entra também preocupado com aquilo que precisa de descobrir, quem decide
realmente? Quem influencia quem decide? Quem tem alguma coisa a perder? Quem
precisa de reconhecimento? Quem controla informação que os outros ainda não
têm?
Estas cinco boas perguntas
revelam mais sobre uma negociação do que cinquenta slides. Existe ainda outro
comportamento que observo frequentemente, a necessidade de reagirmos
imediatamente.
Perguntam e respondemos, criticam
e defendemo-nos, provocam e reagimos. Discordam e tentamos logo convencer, talvez
porque confundimos rapidez com inteligência e resposta com poder.
Existe um espaço
extraordinariamente importante entre aquilo que alguém faz e aquilo que
decidimos fazer a seguir e neste espaço cabe uma pergunta, um sorriso ou uma
mudança de assunto e ainda cabe uma das ferramentas mais subestimadas nas
relações humanas, o silêncio.
Nem tudo merece uma reação, nem
todas as provocações precisam de resposta., nem todas as batalhas precisam de
ser ganhas, às vezes, a pessoa mais poderosa numa interação é simplesmente
aquela que não permitiu ao outro escolher o seu estado emocional e pensar que
esta pessoa não tem a capacidade de destruir o meu dia. Foi esta lição que o CEO teve de aprender. Durante
anos tinha acreditado que, se trabalhasse mais, soubesse mais e estivesse mais
preparado, acabaria inevitavelmente por chegar onde queria, O problema nunca
tinha sido falta de competência, era excelente no que fazia, o problema era outro,
passava demasiado tempo a tentar tornar-se a melhor peça do tabuleiro e pouco
tempo a perceber quem estava a movimentar as peças.
Nos meses seguintes não
trabalhámos para que falasse mais alto, se tornasse mais agressivo ou
aprendesse meia dúzia de truques de influência, trabalhámos algo bastante mais
sofisticado, a leitura, posicionamento, perguntas, presença, controlo emocional
e o ritmo.
Sobretudo ritmo, porque uma boa
ideia no momento errado pode parecer uma má ideia, uma verdade dita à pessoa
errada pode transformar-se num problema e uma decisão certa tomada demasiado
tarde continua a poder produzir um mau resultado, uma análise tardia, permite,
torna-se numa ameaça.
Talvez por isto me surpreenda que
passemos tantos anos na escola e quase nenhum deles seja dedicado a compreender
pessoas, aprendemos matemática, história, geografia e línguas, no entanto
ninguém nos ensina a reconhecer uma intenção escondida, perceber quando alguém
está a tentar manipular-nos, negociar sob pressão, estabelecer limites,
interpretar jogos de poder ou controlar a nossa própria reação quando alguém
descobre exatamente o botão que deve carregar e depois mandam-nos para o mundo,
que é essencialmente, de pessoas.
Não defendo que devamos viver
desconfiados, porque é uma vida miserável, defendo precisamente o contrário, devemos
viver atentos, porque atenção não é paranoia, é inteligência.
Quando começamos verdadeiramente
a observar pessoas, começamos a reconhecer padrões e quando reconhecemos
padrões, conseguimos antecipar alguns movimentos e quando antecipamos
movimentos deixamos de passar a vida apenas a reagir. Talvez seja esta uma das
grandes diferenças entre quem atravessa a vida como peça e quem aprende a
compreender o tabuleiro.
Naquela sessão, o CEO entrou no
meu gabinete convencido de que precisava de se tornar ainda melhor e saiu com
uma pergunta diferente:
“Que jogo é que eu ainda não
estou a ver?”
É uma pergunta que continuo a
fazer a mim próprio e talvez todos devêssemos fazê-la de vez em quando, porque
as regras mais importantes da vida raramente estão escritas e isso não
significa que não estejam a ser jogadas.
É curioso observar uma sala quando deixamos de ouvir apenas as palavras e começamos a descobrir que existem organigramas oficiais e organigramas humanos e nem sempre coincidem.
O primeiro sinal raramente é uma discussão, é uma ausência, menos abraços, beijos mais curtos, conversas lado a lado em vez de frente a frente, olhares que já não se demoram. Cada um destes gestos é uma fonte de ocitocina. Quando desaparecem, o apego deixa de ser alimentado e a ligação começa a viver das reservas.
Quando encostamos alguém à parede, esta pessoa luta com mais força, quando lhe oferecemos uma saída com honra, a pessoa sai, a generosidade estratégica não é fraqueza, é precisão.
Em entrevistas ou negociações, a mala no colo denuncia nervosismo, pendure-a na cadeira e nunca a pouse na mesa, em apresentações, reuniões de liderança ou eventos, use-a no braço e em contextos informais ao ombro ou atrás.
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