Nós agora vivemos em Democracia e não numa ditadura e o respeito pela proporcionalidade é uma pedra de toque do Estado de Direito. E quando esse fundamental princípio é tão ostensiva e voluntariamente violado, não existe qualquer hipótese de manter uma pretensa neutralidade.
As cargas policiais perante as manifestações
chamadas “Acampadas” que se têm vindo a realizar em Lisboa e no Porto apresentam
sinistras semelhanças com aquelas que, antes do 25 de Abril, eram realizadas
pela Polícia de Choque chefiada pelo notório facínora capitão Maltez.
Sei do que falo porque, mais de uma vez, tive de
fugir à frente dessa gente a partir da crise académica de 1972.
Tinha eu nessa altura 15 anos, a caminho dos 16
(é o que dá ter nascido em dezembro, próximo do Natal), e, devidamente
ginasticado, consegui sempre escapar às bastonadas, pelo que só consegui ver
bem a cara de algumas dessas criaturas e do próprio Maltez, de botas altas
típicas de oficial do exército que ele era, batendo nelas furioso com o
pingalim que habitualmente usava, quando o vice-reitor do liceu que eu então
frequentava (Liceu Padre António Vieira) não permitiu a entrada na escola
daquela matilha raivosa.
O “espectáculo” era tão aterrador que nem nos
passou pela cabeça gritar as palavras de ordem usuais na altura.
Como tantos outros, o capitão Maltez nunca foi
julgado pelos crimes que cometeu e viu a sua “carreira” reconstituída. Ouvi
dizer que se reformou pacificamente com o posto de coronel.
Ainda bem para ele, o actual Presidente da
República foi poupado a esses esforços físicos e a esses “espectáculos”
aterrorizantes e não teve de sofrer, no corpo e/ou na mente, os efeitos dessas
insanas cargas policiais.
Será, talvez, por isso que se tem quedado na
posição fácil de estar a aguardar os resultados das averiguações que estão a
ser realizadas, em vez de, publicamente, se pronunciar, com palavras claras e
não com subtis mensagens dúbias, acerca do que tem acontecido nas noites de
Lisboa e do Porto.
É certo que não sei o que se passa no recato das
reuniões com o primeiro-ministro Montenegro, mas o grau desproporcionado de
violência exercido sobre pessoas que protestam pacificamente, mostrado em
imagens inequívocas e indesmentíveis que passam, em tempo real e não editadas,
até em televisões cujos “comentadores independentes” são tão ávidos em
justificar e aplaudir tudo o que o governo faz e não faz, merecia mais do que
inconclusivas meias palavras.
Quando se diz que não se gostou do que se viu,
isso significa que não se gostou da existência de “Acampadas” ou da carga
policial que foi usada contra elas?
Caramba, as forças policiais até cães levaram
para dispersar essas manifestações!!!
Não acredito que Mário Soares e Jorge Sampaio,
mesmo sendo este último mais fleumático e contido que o primeiro, se quedassem
tão apáticos perante tudo o que está a acontecer. Eu cheguei a falar várias
vezes e em variadas circunstâncias, com ambos e é por isso que esta minha
convicção é tão forte.
Nós agora vivemos em Democracia e não numa
ditadura e o respeito pela proporcionalidade é uma pedra de toque do Estado de
Direito.
E quando esse fundamental princípio é tão
ostensiva e voluntariamente violado, não existe qualquer hipótese de manter uma
pretensa neutralidade.
Perante tudo o que está a acontecer, quase parece
que o Ministro Luís Neves estará a pensar que irá ter uma Comissão Parlamentar
de Inquérito mais suave se optar pela ideologia e pelas práticas sustentada por
André Ventura e o seu Chega.
“É bater neles, sem piedade”, proclama essa
gente. E o Corpo de Intervenção bate.
Acontece que Luís Neves é Ministro da
Administração Interna numa Democracia em que, sob pena de esta deixar de o ser,
têm forçosamente de existir freios e contrapesos, e não um desenfreado Ministro
do Interior do Estado Novo.
E o Presidente da República tem, para além de um
intenso dever moral de que não pode abdicar, uma indeclinável obrigação legal
de ser o primeiro desses freios e contrapesos.
Ele é o garante último do normal funcionamento
das instituições.
E as manifestações pela salvaguarda e pelo
reconhecimento de uma efectiva e real possibilidade de exercício de um direito
reconhecido na Constituição da República – o direito à habitação -, pelo seu
carácter pacífico, não podem ser dispersadas com a violência que contra elas
tem sido exercida.
E a responsabilidade por essa desproporcionada
violência recai integralmente sobre o governo e as chefias da PSP.
Que fique claro: há gente entre os agentes da PSP
que está a adorar bater nos e nas manifestantes, mas os polícias cumprem
ordens, e quando outras “acampadas”, realizadas com outras motivações, apesar
de também apresentando posturas críticas, foram concretizadas, nenhuma ordem
para as dispersar foi emitida.
E isso também é algo que o actual Presidente da
República não pode ignorar. Não pode mesmo.
O Estado de Direito foi criado pela Humanidade
para impedir o estabelecimento de poderes absolutos, mesmo que estes se afirmem
pretensamente legitimados pelo voto popular. Aliás, esse mecanismo de protecção
da Civilização tem de funcionar especialmente nesses casos.
Quando as “válvulas de segurança” dos sistemas
políticos democráticos deixam de ser operantes, está a pavimentar-se o caminho
para a eclosão das Ditaduras.
E os sistemas totalitários só são bons para uma
minoria muito escassa da população e condenam todos os outros e outras à
miséria.
De toda esta desproporcionada violência – que não
vai conseguir impedir a discussão desses concretos e reais problemas nacionais
que são a perda do poder de compra da população e a falta de habitações
condignas -, só resulta uma coisa positiva, a saber, André Ventura e a sua
corja de apaniguados e apaniguadas deixaram bem claro aquilo que realmente são.
A única solução que propõem, depois de terem
votado a favor das medidas propostas pelo governo, é bater e bater cada vez
mais naqueles e naquelas que protestam contra essa política.
E é por isso que inventam (ou se calhar
patrocinam e planificam) ataques a centros comerciais e outros
estabelecimentos, para, desse modo, “justificar” a repressão pela qual tanto
anseiam.
E os dirigentes da PSP, que não vejo investigar a
origem dessas ditas “ameaças”, prestam-se a essas movimentações.
Em suma, os pretensos defensores “da Ordem e dos
Bons Costumes” são, eles sim os criadores e promotores activos da desordem.
Eles e elas, acrescento, porque há também mulheres nesse grupo.
E, o que sublinho com grande intensidade, é bem
real e efectivo o perigo de actos desordeiros serem praticados e de essas
acções serem imputadas aos e às manifestantes pacíficos que, legitimamente, não
desistem de lutar pelos seus direitos constitucional e legalmente reconhecidos
(e ainda o estão).
O que, insisto, torna vital que o carácter
pacífico das manifestações seja mantido a todo o custo.
Mas também torna vital que o Presidente da
República assuma um papel mais interventivo e não se limite a afirmar que os
partidos não se querem entender.
Doutor António José Seguro, use os poderes que a
Constituição da República lhe reconhece e atribui e mostre quais são as suas
escolhas.
Para bem de todos nós e do país, por favor, não
nos desiluda.
Será que Seguro já pensou no que teriam feito Mário Soares e Jorge Sampaio perante o que se está a passar hoje?
Nós agora vivemos em Democracia e não numa ditadura e o respeito pela proporcionalidade é uma pedra de toque do Estado de Direito. E quando esse fundamental princípio é tão ostensiva e voluntariamente violado, não existe qualquer hipótese de manter uma pretensa neutralidade.
Lamentavelmente, a crise das “Acampadas” veio mostrar que, 52 anos depois do 25 de abril de 1974, em Portugal continua a ser muito ténue o verniz da Democracia.
Julgado em tribunal militar pela prática de 12 crimes de homicídio voluntário e 32 de tentativa de homicídio voluntário, Nidal Malik Hasan foi desonerado do Exército e condenado à morte.
Quando ganham, a primeira coisa que os ditadores fazem é mudar as “regras do jogo”, por forma a perpetuarem o seu jugo sobre as populações que julgavam que estavam apenas a dar vazão ao seu descontentamento com a “Situação”.
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