Jorge Coelho

O político que disse "eu demito-me": Jorge Coelho (1954-2021)

Coelhone, bombeiro, todo-o-terreno, todo-poderoso, king-maker, o Jorge: acumulou alcunhas, poder, mas cultivou sempre a proximidade de homem do povo. Em todas as conversas dizia "o meu caro amigo". Fez de tudo: manobras de bastidores e discursos inflamados. Mas numa noite de março de 2001 demitiu-se e esse gesto definiu-lhe a carreira. Morreu esta quarta-feira.

Jorge Coelho tinha tendência para tratar toda a gente por "o meu caro amigo" ou " a minha cara amiga". Era quase uma muleta. Mas era também uma forma de estar. O assunto podia ser desagradável, Coelho mantinha-se afável. No partido, era "o Jorge". Mas a afabilidade pessoal nunca iludiu o poder imenso que teve no PS. E que sabia ter. Manteve, apesar disso, a modéstia – estava sempre ao nível do interlocutor, "o meu caro amigo". Em 2008, quando o jornalista Fernando Esteves o abordou para escrever a sua biografia, Coelho respondeu-lhe : "Uma biografia sobre mim, porque motivo? Não tenho importância para isso, meu caro amigo!" – o episódio vem relatado na introdução da obra, Jorge Coelho o Todo o Poderoso, de 2014.

Os motivos para o biografar eram óbvios, apesar de ter sido esse o momento em que Coelho deixou de vez a política, que trocou pelos negócios. A mudança foi pensada. Fausto Correia, um amigo já falecido, recordou que quando Jorge Coelho teve cancro, em 2003, pensou em mudar de vida, percebeu que a mulher e a filha, não teriam uma situação confortável se ele desaparecesse. Sentiu-se em dívida, pela vida dedicada à política. E mudou mesmo, mantendo apenas aproximações, como comentador.

Mas já fora tudo o que tinha querido ser, e talvez até mais do que isso. Não foi apenas o ministro braço-direito do primeiro-ministro António Guterres, mas o "bombeiro" chamado a resolver crises e o "fazedor de reis" que o ajudara a conquistar a liderança e a consolidar-se no aparelho. Mas manteve o estilo de mero homem da máquina partidária, mesmo quando era já estratega político.

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