A história secreta da propaganda do regime: 1ª Parte

O massacre de Wiriamu

O massacre de Wiriamu
João Pedro George 21 de janeiro

Este ensaio faz parte de um livro a publicar pelo autor, na Penguin Random House, até final do ano e que se intitulará "O Império às Costas, Retornados, Racismo e Pós-Colonialismo". Com este trabalho, a SÁBADO inicia uma série “Guerra Colonial: 60 anos, 60 histórias”, que se prolongará até ao final do ano.

A 16 de dezembro de 1972 (um sábado), no distrito de Tete (Moçambique), militares portugueses assassinaram barbaramente centenas de civis moçambicanos. Resguardando-se numa operação militar liderada pela 6.ª Companhia de Comandos da Zona Operacional de Tete – "Operação Marosca" –, levada a cabo no âmbito das chamadas operações de contra-insurreição das forças especiais portuguesas, vários soldados portugueses comportaram-se como facínoras, deixaram-se levar pelo ímpeto dos seus instintos mais baixos e desprezíveis, e cometeram um dos maiores crimes da Guerra Colonial.

Por volta do meio-dia daquele sábado de 1972, quatro caças-bombardeiros Fiat G-91 largaram várias bombas na região onde ficavam as povoações de Wiriamu, Juwau e Chawola, localizadas a cerca de 30 quilómetros da cidade de Tete, próxima do rio Zambeze e a 120 quilómetros da barragem de Cabora Bassa. Enquanto isso, cinco helicópteros desembarcavam quatro grupos de Comandos, Grupos Especiais de Pára-quedistas, mercenários (alguns dos quais, provavelmente, rodesianos) e Agentes da PIDE/DGS, os quais cercaram as aldeias e desataram a metralhar os aldeões, incluindo mulheres e crianças, enquanto fugiam em direcção ao mato, para se protegerem dos bombardeamentos.

Durante a incursão terrestre, os soldados portugueses massacraram indiscriminadamente homens, mulheres e crianças à sua passagem. Fuziladas à vista da restante população, 10 crianças pelo menos foram mortas por arremesso contra o solo ou contra as árvores, e muitos outros aldeões morreram em resultado da explosão de granadas atiradas para o interior de palhotas. No total, contando com o bombardeamento aéreo, morreram entre 300 e 500 nativos das populações civis do distrito de Tete.

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