Sete eleitos nas autárquicas de 2025 desfiliaram-se do Chega ou pediram a demissão. A tendência é que a debandada de quadros diminua.
Pouco mais de três meses após as eleições autárquicas de 2025, o Chega volta a enfrentar uma série de demissões de vereadores eleitos. Após um crescimento expressivo — com a eleição de 134 vereadores e a conquista de três presidências de câmara (Entroncamento, Albufeira e São Vicente) —, desde as autárquicas de 2021, pelo menos sete vereadores abandonaram o cargo ou o partido, segundo o Jornal de Notícias.
André Ventura discursa na Universidade LusíadaDuarte Roriz
Estas deserções somam-se a um historial de instabilidade que acompanha o partido desde a sua estreia em eleições autárquicas. Na primeira ida às urnas, em 2021, o Chega elegeu 19 vereadores, apesar de não ter conseguido conquistar nenhuma presidência de câmara. Porém, ao longo da legislatura, 11 desses 19 vereadores acabaram por abandonar o partido ou renunciar aos cargos.
Para o politólogo Ricardo Marchi, este comportamento insere-se num padrão típico de partidos recentes. “É um comportamento frequente em partidos novos. Seis anos não é tempo suficiente para a fidelização total dos quadros”, afirma, sublinhando, no entanto, que o mesmo não se verifica ao nível do eleitorado.
“Várias pessoas foram para o Chega por ambições pessoais”, explica Ricardo Marchi, especialista em populismos de direita radical, acrescentando: “Estas pessoas priorizam os seus interesses pessoais, são muito mais interessadas em participar na governação da sua cidade do que na fidelidade ao partido”. O politólogo compara o fenómeno às cisões vividas pelos partidos tradicionais — PS, PSD ou PCP — no final dos anos 70.
Ainda assim, Marchi considera improvável uma saída generalizada de eleitos. “Parece-me muito difícil prever uma debandada em massa”, diz, considerando que o acesso crescente do partido ao poder funciona como fator de retenção de quadros. Segundo o politólogo, “a esmagadora maioria dos autarcas sabe que o Chega tem capacidade de crescimento e ocupação do poder”, o que se traduz numa “distribuição de incentivos” elevada, desde lugares na administração pública a cargos parlamentares ou de assessoria.
É o caso, indica o politólogo, do que aconteceu na Câmara de Albufeira, liderada por Rui Cristina, do Chega, que nomeou a irmã do presidente para adjunta do gabinete de apoio à vereação. Isto apesar de o autarca garantir que não teve intervenção direta na escolha do nome.
Não só este caso, como outros têm surgido nos jornais. Bruno Mascarenhas indicou a namorada para a administração dos serviços sociais da autarquia, uma das condições do Chega para votar favoravelmente o orçamento municipal de Carlos Moedas. Como a SÁBADO noticiou, esta foi uma das razões para o afastamento de Ana Simões Silva, a número dois do Chega na Câmara Municipal de Lisboa, que passou a independente.
Essa lógica de incentivos, acrescenta, é reforçada por práticas de nomeação. “Vê-se isso com a contratação por vários autarcas de amigos e de familiares. Esses incentivos ajudam a fidelizar os quadros do partido”, refere, classificando este tipo de decisões como comuns “em todos os partidos de direita radical e populista na Europa”, sobretudo nas primeiras experiências de governo, quando “precisam de equipas extremamente fiéis”.
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