A possibilidade de Saramago deixar de ser obrigatório no 12º ano criou uma polémica que, por via indireta, puxou Mário de Carvalho para a discussão pública. Autor disse estar reconhecido e rejeita comparações com o Nobel.
Uma polémica rebentou em torno de uma revisão das aprendizagens essenciais que pode levar a que José Saramago deixe de ser obrigatório para os alunos do 12º ano. Em vez de Saramago, os alunos podem vir a ter de estudar uma obra de Mário de Carvalho (Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde). Desta proposta nasceu uma polémica em torno de uma alegada censura ao único Nobel português promovida por um governo PSD (novamente). A Fundação que representa o escritor nascido na Azinhaga criticou decisão, enquanto Mário de Carvalho agradece o reconhecimento e rejeita comparações.
Nesta proposta de revisão das aprendizagens essenciais, Saramago deixa de ser de leitura obrigatória no 12º ano. Atualmente, estão previstas duas obras de José Saramago como opção dentro do ensino do romance (Memorial do Convento ou O Ano da Morte de Ricardo Reis), mas a versão preliminar propõe a inclusão uma terceira opção, com um livro de Mário de Carvalho como alternativa (Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde).
O ministro da Educação respondeu na quarta-feira a críticas do PS sobre a polémica no debate setorial com o Ministério da Educação, Ciência e Inovação, no Parlamento. O deputado socialista Porfírio Silva questionou se havia algum viés político por trás da decisão já que existe um "histórico da direita portuguesa de perseguição ao escritor José Saramago". Referia-se à polémica entre o autor vencedor do Nobel e o antigo subsecretário de Estado da Cultura do PSD António Sousa Lara que vetou a candidatura da obra O Evangelho Segundo Jesus Cristo, de José Saramago, ao Prémio Europeu de Literatura Aristeion, alegando que o livro atentava contra a moral cristã.
Na resposta, o ministro da Educação, Ciência e Inovação afirmou que o PS pode estar "descansado". "O que é dado como opção, numa avaliação exclusivamente técnica, é escolher um escritor militante do PCP e outro escritor que, tanto quanto sei, também é militante do PCP", disse Fernando Alexandre.
Referia-se a Mário de Carvalho que foi militante do PCP, sim (tendo até sido preso pela PIDE pela sua militância neste partido e torturado), mas que se desfiliou há muitos anos do partido. Era Bom Que Trocássemos Umas Ideias sobre o Assunto, uma das suas obras mais conseguidas, é um retrato de um Portugal contemporâneo com todas as suas falhas (e encantos) que tem no centro o PCP e os meios de comunicação. O retrato feito do partido e dos media e dos seus militantes e profissionais está longe de ser elogioso.
Fernando Alexandre salientou também que "José Saramago é, obviamente, um escritor de referência" e admitiu que deve ser obrigatório ler este como outros escritores nacionais, apontando que há "grandes escritores em Portugal".
A Fundação José Saramago questionou qual o critério para retirar o caráter obrigatório à obra do Nobel português das aprendizagens essenciais do ensino secundário, segundo uma proposta ainda preliminar. "A posição da Fundação José Saramago será sempre a de agregar e de não colocar em comparação ou oposição. Daí que deixemos à Comissão responsável por esta alteração na lista de livros de leitura obrigatória para o 12.º ano a sugestão de trocar a palavra 'ou' pela palavra 'e', juntando a José Saramago o escritor Mário de Carvalho, merecedor de toda a admiração e abrindo assim a porta a que outras e outros escritores participem também na formação das novas gerações de leitores", pode ler-se num comunicado divulgado pela fundação presidida por Pilar del Río.
Mário de Carvalho não é uma facilitação
Autor de oito romances, seis novelas, dez livros de contos, quatro peças teatrais, literatura juvenil e ensaios, Mário de Carvalho recebeu inúmeros prémios literários, entre os quais o Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco (1991), o Prémio Fernando Namora (1996 e 2009) e o Prémio Vergílio Ferreira (2009), este último pelo conjunto da sua obra.
A sua prosa cuidada e vocabulário extensíssimo aliam-se à sua capacidade imaginativa e sentido de humor apurado para criar obras memoráveis da literatura portuguesa contemporânea como Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde, Casos do Beco das Sardinheiras, A Inaudita Guerra da Avenida Gago Coutinho ou Era Bom que Trocássemos Umas Ideias Sobre o Assunto.
Mas são obras que, ao contrário do que muitos dos opositores a esta proposta de alteração têm dito, não são fáceis. Mário de Carvalho assumiu ao Público, em 2011, gostar do “leitor exigente e rabugento”. “O tal leitor que é capaz de me acompanhar na decifração e que podia ser o autor do meu livro. Eu convido-o a ser o autor comigo”, afirmava.
Esse trabalho de descodificação de Mário de Carvalho necessita de dicionários, livros de história e literatura e outras referências, daí a escolha de um dos seus romances para as aprendizagens essenciais sobre o romance.
Ana Paula Arnaut, professora catedrática da Universidade de Coimbra e especialista em José Saramago e com ensaios escritos também sobre Mário de Carvalho disse mesmo à CNN: "Se a ideia era retirar a obrigatoriedade de Saramago, porque era difícil para os alunos, vão dificultar ainda mais a vida de alunos e professores, porque o romance de Mário de Carvalho proposto em alternativa é extremamente denso e complexo".
Sobre essa possível entrada para o cânone do 12º ano, Mário de Carvalho disse à TSF: "Para mim, significou mais o reconhecimento. Portanto, alguém considerou que o meu livro merecia ser lido, apreciado e analisado e indicado. Eu, como calcula, não tenho nada a ver com isso. Não meto nem um prego na estopa, mas quando soube a notícia, enfim, foi uma notícia que me satisfez, porque significa, mais uma vez, que o livro é reconhecido, que a obra é reconhecida.".
A relação entre os escritores
Mário de Carvalho revelou várias vezes admiração por José Saramago. Disse até mesmo que o autor d’ A Jangada de Pedra era, “por ventura, o nosso maior escritor do século XX, que tem a particularidade de ser um século mais rico no tocante ao romance português”.
“Era muito atento aos escritores mais jovens e eram um homem sem prosápia ou vaidade de grande senhor”, disse ainda aquando da morte do vencedor do Nobel, em 2010. “Foi um homem a quem o sucesso nunca subiu à cabeça, portou-se com a mesma modéstia e elevação de sempre”, acrescentou.
Em crónica publicada em 2019, lembrava que quando começou a dar os primeiros passos no mundo da literatura, na década de 80, recebeu a atenção de alguns escritores, entre os quais Saramago, que lhe deram atenção e simpatias que o ajudaram a ganhar relevo.
Em reação à notícia de que o seu livro poderia vir a fazer parte integrante da disciplina de português de 12º ano, Mário de Carvalho disse à TSF que não se quer comparar a Saramago. "O José Saramago é um autor que eu aprecio muito, um autor respeitável, aliás, que fui pessoalmente até conhecido. Não vejo o meu livro em termos de competição com quem quer que seja. É uma obra, é uma proposta que teve o seu rumo e está em bom rumo, ao que me parece, continua. Portanto, não considero que haja qualquer tipo de competição com um grande escritor que eu muito admiro, que é o José Saramago", afirmou.
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