O Crepúsculo da Universitas: do Relatório de Yale ao Dilema Europeu
Nos EUA, os dados são inequívocos: a confiança pública desabou de 57% em 2015 para 36% em 2024.
O recente Relatório sobre a
Confiança no Ensino Superior (Yale, abril de 2026) soa como um alarme para a crise
auto-infligida da Universidade! Nos EUA, os dados são inequívocos: a confiança
pública desabou de 57% em 2015 para 36% em 2024.
Este divórcio
social é alimentado por uma tríade corrosiva. Em primeiro lugar, a classe média
americana sofre o custo proibitivo do modelo privado (hightuition-highaid), provocando um endividamento significativo, intensificando a
perceção de desequilíbrio custo-valor (value gap)e o ceticismo sobre o “retorno do
investimento”. Com efeito, em Yale, as propinas anuais rondam os 70 mil dólares,
mas os custos reais aproximam-se de 100 mil. Em segundo lugar, predomina a
perceção de um elitismo auto-reprodutivo devido à opacidade do processo de
admissão e ao défice de pluralismo intelectual que se traduziria em viés
político e autocensura no campus. Em terceiro lugar, verifica-se uma histórica inflação
de notas: em 1963, 10% das notas em Yale eram A ou A-, mas, em 2023, as notas A
representam 79%! Este valor exprime ou uma avaliação absurda (com “efeito de
teto” promovido pela massificação da IA) ou uma homogeneidade intelectual massiva
de uma população superseletiva de estudantes! O Relatório apela,
nostalgicamente, à neutralidade política da “voz institucional” da Universidade
e à interação humana na relação pedagógica (em salas de aula sem
“dispositivos”, device-free)!
Ao transpor analogicamente esta
crise para a realidade portuguesa e europeia confrontamo-nos com uma
metamorfose ontológica. Desde a Universitas medieval, passando pelo
humanismo renascentista e pelo modelo humboldtiano (i.e., unidade simbiótica de
ensino e investigação), a academia definiu-se como uma instituição essencialmente
autotélica: um santuário de saber fundamental, onde a busca da verdade seria idealmente
o seu próprio fim. Assim, o talento cognitivo seria a única matéria-prima em
refinação e a única fonte de diferenciação social válida.
Ao mesmo tempo, a criação das
universidades constituiu sempre uma estratégia cultural, política e económica de
conquista e consolidação de poder, suscitando expectativas utilitaristas. O
Processo de Bolonha (iniciado em 1999) e os novos mecanismos de monitorização,
como o Observatório do Setor do Ensino Superior Europeu (EHESO), acentuaram a
visão utilitarista instrumental, inscrita numa estratégia de desenvolvimento da
competitividade europeia. A universidade é hoje pressionada a transfigurar-se
numa quasi-empresa inserida em redes transnacionais de otimização de recursos
humanos avançados para alimentar um mercado cognitivo-tecnológico voraz, em
aceleração quadrática.
O público que frequenta a
universidade também é crescentemente utilitarista, implicitando um “contrato
social” em que a Universidade deve, acima de tudo, treinar competências
valiosas que garantem imediatamente empregabilidade e mobilidade económico-social.
A “desconfiança” em Portugal não deriva tanto do valor das propinas, mas do
valor diferencial dos empregos e dos salários após-diploma.
Os académicos angustiam-se e confundem-se
em tensões dialéticas: Quem somos e quem devemos ser? Devemos ser o laboratório
e a biblioteca de investigação pura ou a incubadora da eficiência técnica que
gera start-ups e unicórnios? O Relatório de Yale alerta-nos que, ao tentar ser
"tudo para todos" e ao render-se ao utilitarismo, a Universidade
arrisca perder a sua alma. A missão renovada para o século XXI não pode ser
apenas a de dinamizar cognitivamente o mercado laboral, mas a de preservar o
“universo” dos saberes –com “lentidão” criativa, autocrítica e desinteressada.
Uma Ideia, ou um Ideal, de
Universidade, que responde aos desafios societais e às crises de confiança, transcende
tanto a utilidade instrumental como o bucólico Parnaso aristocrático da “Arte
pela Arte” ou da “Verdade pela Verdade”. Como Karl Jaspers magistralmente
defendeu em Die Idee der Universität (1923), a Universidade exprime,
acima de tudo, a coragem e a humildade da vontade de saber: a paixão autoconsciente
por Episteme e por Sophia. Portanto, a Universidade, fiel à sua vocação, deverá
ser capaz de nutrir a liberdade existencial de pessoas singulares e a renovação
democrática de comunidades históricas.
O Crepúsculo da Universitas: do Relatório de Yale ao Dilema Europeu
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