Sábado – Pense por si

Paulo Jesus
Paulo Jesus Docente da Universidade Portucalense
20 de maio de 2026 às 16:08

O Crepúsculo da Universitas: do Relatório de Yale ao Dilema Europeu

Nos EUA, os dados são inequívocos: a confiança pública desabou de 57% em 2015 para 36% em 2024.

O recente Relatório sobre a Confiança no Ensino Superior (Yale, abril de 2026) soa como um alarme para a crise auto-infligida da Universidade! Nos EUA, os dados são inequívocos: a confiança pública desabou de 57% em 2015 para 36% em 2024.

Este divórcio social é alimentado por uma tríade corrosiva. Em primeiro lugar, a classe média americana sofre o custo proibitivo do modelo privado (high tuition-high aid), provocando um endividamento significativo, intensificando a perceção de desequilíbrio custo-valor (value gap) e o ceticismo sobre o “retorno do investimento”. Com efeito, em Yale, as propinas anuais rondam os 70 mil dólares, mas os custos reais aproximam-se de 100 mil. Em segundo lugar, predomina a perceção de um elitismo auto-reprodutivo devido à opacidade do processo de admissão e ao défice de pluralismo intelectual que se traduziria em viés político e autocensura no campus. Em terceiro lugar, verifica-se uma histórica inflação de notas: em 1963, 10% das notas em Yale eram A ou A-, mas, em 2023, as notas A representam 79%! Este valor exprime ou uma avaliação absurda (com “efeito de teto” promovido pela massificação da IA) ou uma homogeneidade intelectual massiva de uma população superseletiva de estudantes! O Relatório apela, nostalgicamente, à neutralidade política da “voz institucional” da Universidade e à interação humana na relação pedagógica (em salas de aula sem “dispositivos”, device-free)!

Ao transpor analogicamente esta crise para a realidade portuguesa e europeia confrontamo-nos com uma metamorfose ontológica. Desde a Universitas medieval, passando pelo humanismo renascentista e pelo modelo humboldtiano (i.e., unidade simbiótica de ensino e investigação), a academia definiu-se como uma instituição essencialmente autotélica: um santuário de saber fundamental, onde a busca da verdade seria idealmente o seu próprio fim. Assim, o talento cognitivo seria a única matéria-prima em refinação e a única fonte de diferenciação social válida.

Ao mesmo tempo, a criação das universidades constituiu sempre uma estratégia cultural, política e económica de conquista e consolidação de poder, suscitando expectativas utilitaristas. O Processo de Bolonha (iniciado em 1999) e os novos mecanismos de monitorização, como o Observatório do Setor do Ensino Superior Europeu (EHESO), acentuaram a visão utilitarista instrumental, inscrita numa estratégia de desenvolvimento da competitividade europeia. A universidade é hoje pressionada a transfigurar-se numa quasi-empresa inserida em redes transnacionais de otimização de recursos humanos avançados para alimentar um mercado cognitivo-tecnológico voraz, em aceleração quadrática.

O público que frequenta a universidade também é crescentemente utilitarista, implicitando um “contrato social” em que a Universidade deve, acima de tudo, treinar competências valiosas que garantem imediatamente empregabilidade e mobilidade económico-social. A “desconfiança” em Portugal não deriva tanto do valor das propinas, mas do valor diferencial dos empregos e dos salários após-diploma.

Os académicos angustiam-se e confundem-se em tensões dialéticas: Quem somos e quem devemos ser? Devemos ser o laboratório e a biblioteca de investigação pura ou a incubadora da eficiência técnica que gera start-ups e unicórnios? O Relatório de Yale alerta-nos que, ao tentar ser "tudo para todos" e ao render-se ao utilitarismo, a Universidade arrisca perder a sua alma. A missão renovada para o século XXI não pode ser apenas a de dinamizar cognitivamente o mercado laboral, mas a de preservar o “universo” dos saberes –com “lentidão” criativa, autocrítica e desinteressada.

Uma Ideia, ou um Ideal, de Universidade, que responde aos desafios societais e às crises de confiança, transcende tanto a utilidade instrumental como o bucólico Parnaso aristocrático da “Arte pela Arte” ou da “Verdade pela Verdade”. Como Karl Jaspers magistralmente defendeu em Die Idee der Universität (1923), a Universidade exprime, acima de tudo, a coragem e a humildade da vontade de saber: a paixão autoconsciente por Episteme e por Sophia. Portanto, a Universidade, fiel à sua vocação, deverá ser capaz de nutrir a liberdade existencial de pessoas singulares e a renovação democrática de comunidades históricas.

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