A depressão Kristin desabou sobre a ministra da Administração Interna. Acumulam-se críticas à gestão política da crise, à incapacidade de comunicação e à descoordenação da tutela - e uma remodelação pode estar a caminho.
“Não é uma pessoa fácil para trabalhar”, diz uma fonte da Provedoria da Justiça que partilhou gabinete com a atual ministra da Administração Interna, quando Maria Lúcia Amaral era Provedora da Justiça, cargo que ocupou antes de ser convidada para o Governo pelo primeiro-ministro Luís Montenegro, em junho de 2025. “Não a escolheria para ministra, não tem capacidade para chefiar equipas”, salienta.
Tomada de posse da Ministra da Administração InternaDR
Esta é apenas uma das muitas críticas ouvidas pela SÁBADO sobre a atual ministra da Administração Interna, cuja “situação é crítica”, assegura uma fonte do SINAPOL, sindicato da PSP. Tudo por causa da reação da ministra à tempestade Kristin, que afetou vários distritos da zona Centro do país entre a noite de 27 de janeiro e a madrugada de 28 — e causou pelo menos dez mortos, obrigando o Governo a criar uma linha de apoio de 2,5 mil milhões de euros para as populações afetadas.
Indicada por Luís Montenegro para substituir Margarida Blasco na tutela da Administração Interna, Maria Lúcia Amaral chefia um dos ministérios mais propensos à gestão de crises: incêndios florestais, cheias ou episódios como o do apagão. “O primeiro-ministro voltou a falhar na nomeação para a pasta da Administração Interna. Maria Lúcia Amaral é uma distinta jurista, sem competências técnicas para ministra; não tem capacidade de comunicação nem de gestão política de crise”, afirma um ex-ministro de Cavaco Silva, que esteve uma década no poder executivo e que sinaliza a semelhança entre o perfil da atual ministra e o da anterior, Margarida Blasco, também jurista com passagem pelo Tribunal Constitucional. “O ministro da Administração Interna não deve ser um jurista; tem de ser alguém que dê confiança à população, aos bombeiros e à Proteção Civil”, acrescenta o ex-governante.
A professora catedrática da Universidade Nova, anteriormente indicada por Cavaco Silva para o Tribunal Constitucional, tem visto a sua incapacidade de comunicação ser alvo de críticas, corroboradas por vários políticos do PSD ouvidos pela SÁBADO. “Não estava preparada para uma situação extrema como a da tempestade. É uma pasta muito complicada no que toca à gestão de calamidades. O ministro da Administração Interna deve aparecer logo no terreno, apesar das indicações da Proteção Civil para que não o faça. Ela está a pagar por isso (só foi a Leiria após dois dias); outros ministros sobrepuseram-se”, explica um ex-secretário de Estado da primeira legislatura de Montenegro, atualmente deputado na bancada parlamentar chefiada por Hugo Soares. “Quando a poeira assentar, prevejo uma remodelação no Governo e a sua saída”, afirma o ex-ministro de Cavaco Silva. O jornal Observador já noticiou que a saída de Maria Lúcia Amaral do executivo é um dado “adquirido” após a resolução da crise Kristin.
Gafes nos escombros
Para responder à destruição causada pela tempestade Kristin, o Governo de Luís Montenegro lançou vários ministros no terreno. O da Agricultura, José Manuel Fernandes, falou com agricultores afetados e visitou, por exemplo, uma “vinha destruída pela tempestade” — e o Governo lançou uma plataforma onde os prejuízos podem ser declarados. O da Presidência, Leitão Amaro, deu a cara nas televisões e nos jornais e coordenou a resposta de emergência à catástrofe - e também foi alvo de críticas devido a um vídeo propagandístico. A ministra do Ambiente e Energia, Maria da Graça Carvalho, visitou as zonas afetadas pela tempestade, no dia 30 de janeiro de 2026, na região de Marinha Grande e Leiria - e afirmou que “um trabalho grande” estava em curso para repor os serviços essenciais de eletricidade e que geradores tinham sido distribuídos nas zonas mais impactadas.
Mas a ida aos escombros de Maria Lúcia Amaral não correu como o esperado. A ministra cometeu uma série de erros de comunicação. No dia 30 de janeiro de 2026, falou pela primeira vez após a passagem da tempestade Kristin, ocorrida na madrugada de 28 de janeiro. Ao ser questionada pelos jornalistas sobre a sua ausência no terreno até então, na sede da Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil, justificou que “há muito trabalho que se faz em contexto de invisibilidade”, referindo-se à “recolha de informação, reflexão, planeamento e coordenação” que esteve a desenvolver nesses primeiros dias.
Mais tarde, durante visitas às zonas afetadas — incluindo Leiria, onde chegou pouco antes do Presidente da República, nessa mesma tarde de 30 de janeiro de 2026 —, a ministra admitiu a complexidade da resposta e falou em “aprendizagem coletiva”, reconhecendo que ainda não se conseguiu determinar claramente “o que falhou” na atuação das autoridades face à tempestade: “Não sei o que falhou”, disse.
O Governo acabou por retirar Maria Lúcia Amaral de cena - e a ministra tem estado em silêncio desde então. Mas o ministro Leitão Amaro negou, em declarações à CNN, a 2 de fevereiro, que a chefe da pasta da Administração Interna tenha responsabilidades no que falhou ou na gestão da tragédia, afirmando ter “certezas” de que Maria Lúcia Amaral reúne todas as condições para continuar no cargo.
Porém, várias falhas de coordenação são apontadas à tutela da ministra. Segundo o Expresso, "a Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil (ANEPC) elevou o estado de prontidão de todas as forças para o nível máximo de resposta a catástrofes às 16h de 27 de janeiro. Os militares receberam o Comunicado Técnico Operacional da ANEPC e “acompanharam de forma contínua a evolução da situação” nas primeiras 24 horas, mas só entraram no nível de prontidão “azul” (o que implica uma resposta de 24 horas) dois dias depois do alerta da ANEPC, na quinta-feira, dia 29. No entanto, a elevação para “prontidão imediata” só foi decretada na segunda-feira, 2 de fevereiro".
Erros operacionais
Também o comandante nacional da Proteção Civil, Mário Silvestre, esteve ausente do país a meio do comboio de tempestades para formação em Bruxelas — e com autorização da Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil (ANEPC), apurou a SÁBADO. No âmbito do curso de auditor de Defesa Nacional do Instituto da Defesa Nacional, em Lisboa, a autoridade da Proteção Civil viajou para a capital belga no dia 26 de janeiro, depois da tempestade Ingrid, a meio da Joseph e mesmo antes da depressão Kristin.
A Comissão de Assuntos Constitucionais aprovou, dia 4 de fevereiro, a audição urgente da ministra da Administração Interna e do secretário de Estado da Proteção Civil, Rui Rocha, sobre a resposta à tempestade Kristin e o funcionamento da rede SIRESP. Os requerimentos para ouvir no Parlamento a ministra foram apresentados pelo Chega e a IL, com os deputados do partido liderado por André Ventura a propor também a audição do secretário de Estado da Proteção Civil — ambos aprovados por unanimidade. “A oposição não vai largar a ministra, que deve perder as condições políticas para permanecer no cargo”, conclui o ex-ministro de Cavaco Silva.
A gestão da calamidade Kristin não é o único fantasma que assombra o ministério de Maria Lúcia Amaral. Os dossiês sobre as forças internas de segurança também estão em causa: “O Governo continua a escolher pessoas que, apesar de carreiras invejáveis, não estão vocacionadas para tutelar o ministério, nem têm relação conexa com o sistema de segurança interna”, afirma à SÁBADO Bruno Pereira, líder sindical da PSP. Sinaliza que "a ministra não tem tido a sensibilidade devida para o que é prioritário para as forças de segurança" e dá como exemplo o não avanço "do acordo salarial alcançado em julho de 2024”.
O líder sindical considera que o relacionamento com a tutela é “ético e franco”, mas assegura que “as forças de segurança continuam com imensas dificuldades em contratar novos operacionais” e que a atual ministra “não alterou nada”. “Há um arrastar dos problemas no setor”, conclui.
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