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Ana e Paula vendiam contrafação. Uma denunciou a outra e a vingança degenerou num assalto violento

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O que começou como uma rivalidade no mundo têxtil terminou numa madrugada de terror em Igreja Nova, segundo o MP: quatro homens encapuzados entraram na casa da família C., agrediram todos os membros e fugiram com dinheiro e ouro após um ataque brutal.

Durante anos, Ana M. e Paula C. trabalharam no mesmo ramo: confeção têxtil, incluindo peças contrafeitas. A relação nunca foi boa, mas piorou depois de, em 2020, Ana M. ter sido alvo de uma inspeção da ASAE. Nessa operação foram apreendidos artigos contrafeitos e 168 mil euros em dinheiro, e a arguida convenceu-se de que tinha sido Paula C. a denunciá-la.

Inspeção da ASAE desencadeou episódio violento em casa de Paula C.
Inspeção da ASAE desencadeou episódio violento em casa de Paula C. DR

A partir daí, segundo a acusação consultada pela SÁBADO, começaram a surgir movimentos estranhos junto à casa de Paula. Um grupo de quatro indivíduos começou a rondar a habitação, a vigiá-la, a filmar o local e as movimentações da família.

No dia 22 de fevereiro de 2022, "Ana M. passou duas vezes em frente à casa da família C., num Range Rover", afirma a acusação. Minutos depois, outro indivíduo "repetiu o trajeto, aparentemente a filmar o local". Horas mais tarde, já de madrugada, quatro homens encapuzados chegaram à casa. Saltaram o muro, entraram pela cave e espalharam-se pelos quartos onde o casal e os dois filhos dormiam.

O ataque começou de imediato: no quarto do casal, os intrusos acordaram Paula e o marido com murros e bofetadas. Noutro quarto, Andreia, a filha, foi obrigada a ficar calada e sentada. E Rui, o filho do casal, ao tentar reagir, levou um golpe na cabeça com a coronha de uma arma que o deixou a sangrar.

O rapaz foi arrastado para o quarto da irmã, amarrado com abraçadeiras e amordaçado. No quarto principal, Paula C. era pressionada a entregar dinheiro e agredida enquanto um dos homens revistava a cómoda e as gavetas. Levou 850 euros que estavam à vista, cerca de dois mil euros guardados e todas as peças de ouro da família, avaliadas em quase sessenta mil euros.

A violência subiu de tom quando um dos agressores, já com o ouro na mão, puxou Paula C. para cima da cama, arrancou-lhe pulseiras e exigiu saber onde estava o cofre. Como ela dizia que não tinha nenhum, foi novamente espancada enquanto ouviu gritos de ameaça: “Vou-te matar! Diz-me onde está o cofre!”

"Ou falas ou mato o teu filho"

Já no quarto dos filhos, todos estavam juntos quando outro dos intrusos apontou uma arma à cabeça do filho e disse a Paula: “Ou falas ou eu mato o teu filho!”. O marido e o filho levaram pancadas com um pé-de-cabra, enquanto a filha e Paula continuavam a ser agredidas e pressionadas a revelar a localização de mais dinheiro.

O ataque só terminou quando os assaltantes acharam que o alarme tinha disparado. Paula aproveitou a confusão e disse que tinha chamado a polícia, embora não fosse verdade. Os indivíduos fugiram em poucos segundos, levando todo o dinheiro e o ouro.

A família ficou gravemente ferida. Paula sofreu fraturas no nariz, hematomas por todo o rosto e cabeça e ainda hoje está em tratamento. O marido ficou com lesões auditivas e uma perfuração do tímpano. A filha teve lesões cervicais que a incapacitaram durante três dias. O filho teve de ser suturado na cabeça e ficou quinze dias limitado pelas lesões.

O Ministério Público descreve todo o ataque como consequência direta da animosidade entre Ana M. e Paula, que acabou por culminar num plano de vigilância, perseguição e violência extrema. 

O Tribunal de Braga absolveu, a 26 de janeiro, os oito arguidos deste caso, acusados dos crimes de associação criminosa, sequestro e roubo. A defesa dos queixosos, que alegam a veracidade do "sequestro" e do "roubo", vai recorrer para o Tribunal da Relação de Guimarães, pugnando pela condenação.

A sentença prende-se, nomeadamente, com o facto de os assaltantes terem atuado com a cara tapada e de a identificação feita pelas testemunhas não ter sido cabal, no sentido de os reconhecer. Os indivíduos acusados pelo Ministério Público têm cadastro por crimes violentos.