Sábado – Pense por si

Miguel Costa Matos
Miguel Costa Matos Economista e deputado do PS
10 de fevereiro de 2026 às 07:10

Ganhar sem gritar

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Edição de 3 a 9 de fevereiro

É injusto dizer que Seguro não se definiu. Foi claro em relação às leis laborais, a uma eventual revisão constitucional e em relação às áreas que considerou prioritárias, como a segurança ou a saúde.

A vitória de Seguro é uma vitória do país inteiro. É uma vitória para a democracia e para uma política menos barulhenta e mais diligente. É uma vitória do homem sobre qualquer apoio e, honra seja feita, de um grupo de amigos que nunca desistiu dele. Mas os resultados de antes de ontem são também uma derrota para a direita que defendia a equivalência e a neutralidade entre candidatos, com Montenegro à cabeça.  

Contados os votos, o novo Presidente da República superou todos os prognósticos. Durante as últimas três semanas, muitos anteciparam um aumento expressivo da abstenção, uma onda de votos em branco ou nulos e, claro, algum voto da direita no candidato “não-socialista”. Seguro conseguiu não só bater o recorde para o maior número de votos alguma vez obtido por um Presidente, como também evitou que o seu adversário tivesse mais votos que ele na primeira volta. Ganhou todos os concelhos, exceto dois, e várias das comunidades na diáspora onde Ventura tinha ganho. Tem uma legitimidade eleitoral inequívoca e absolutamente ímpar. 

António José Seguro conquistou-o apesar de tudo. De um ponto de partida muito baixo, segundo a maioria das sondagens; do fogo amigo e da relutância de muitos camaradas presos em 2014; de um outono difícil, em que a sua campanha parecia não levantar voo. Apesar de ter menos tempo de antena que os adversários e de ter passado uma década longe da vista dos portugueses. Sobretudo, ganhou apesar da postura ignóbil de tantos líderes à direita que o quiseram colocar no mesmo patamar que André Ventura e que, para se ilibarem, pintavam Seguro como um radical

Essa direita, personificada por Luís Montenegro, é a principal derrotada da noite eleitoral. Primeiro, por não ter ganho com uma colagem à vitória de Seguro, como Costa fez com Marcelo em 2021. Ou por assim consolidar o mau momento político que o Governo atravessa, desde o pacote laboral à calamidade pós-Kristin. Mas mais do que a leitura de conjuntura, o líder do PSD prescindiu de liderar o seu eleitorado, deixando-o livre para se identificar com outras ofertas políticas. Alguns votaram Ventura e, ou já não voltam, ou voltando, poderão de novo voltar a partir. Outros votaram Seguro, provando que não existe um bloco unido, homogéneo e ideológico da “direita”. Ninguém é dono do voto de ninguém e a maioria dos eleitores tem preocupações maiores do que onde se situa entre esquerda e direita. 

Montenegro perdeu porque esta neutralidade fragiliza futuras tentativas de juntar em torno de si “os moderados” contra os radicais. Ele jamais poderá ser Macron ou fazer o que este fez ao PS francês. Em quarto lugar, o primeiro-ministro perdeu a oportunidade de poder cobrar ao Presidente uma dívida de gratidão pela sua eleição. Se é certo que essa tática pouco serviu a Costa contra Marcelo, Seguro não deve mesmo nada a ninguém. 

Por fim, desengane-se quem achava que esta neutralidade deixava o Chega mais disponível a negociar com o Governo. Não entremos em como isso revoga o “não é não” ou em como é desnecessário perante a disponibilidade paciente de Carneiro. Basta apenas ouvir Ventura gabar-se de ter tido maior percentagem que a AD e reclamar para si a liderança da direita para compreender que este, cada vez mais, optará por um caminho de fazer concorrência e confronto com o Governo. Tudo evitável se Montenegro tivesse tido a humildade para assumir que a sua direita também elegeria Seguro. 

O segredo por detrás desta vitória, porém, talvez esteja na capacidade de Seguro ficar imperturbado com isso e com praticamente qualquer coisa que lhe atirem. Enquanto Marques Mendes e Gouveia e Melo trocavam tiros, ferindo-se fatalmente um ao outro, havia alguém que surgia acima do barulho, sereno mas determinado. Perante várias contrariedades e para exasperação de muitos jornalistas, não era apenas a forma que o distinguia. Seguro manteve uma disciplina de mensagem invejável que transmitia a firmeza das fundações do seu pensamento político. 

É injusto dizer que Seguro não se definiu. Foi claro em relação às leis laborais, a uma eventual revisão constitucional e em relação às áreas que considerou prioritárias, como a segurança para o primeiro Conselho de Estado ou a saúde para o primeiro ano de mandato. Percebeu que o seu papel não era entrar no detalhe das medidas, cabendo-lhe mais o papel de juntar as pessoas à volta da mesa. No entanto, focou-se nas transformações que queria imprimir no paradigma político português. 

Avisando que não queria deixar tudo na mesma e que seria exigente, Seguro frequentemente afirma que "a política ou serve para melhorar a vida das pessoas, ou então não serve para rigorosamente nada". Contrariava a política do improviso com o rigor, a ética e o desígnio que diz faltar ao país. Não o fazia pela crítica, pela “narrativa da decadência”, como lhe chamou este domingo. Pelo contrário, puxa pelo talento e a esperança – a qualidade, enquanto reclama justiça e humanidade. Para rematar, transmite-nos que nada disso se obtém através da divisão ou do grito, mas através do trabalho e do compromisso. 

Seguro não foi o primeiro político a defender isto. Foi, contudo, talvez o mais coerente. Estes princípios de ação política corresponderam na íntegra ao seu comportamento, um caminho de que nunca se desviou por qualquer oportunidade do momento. Por muito que o tentem reduzir a um “mal menor”, circunstancialmente necessário perante tão horrendo adversário, o poder da sua Presidência estará aí. Em fazer vingar esta “marca” de político. Em fazer esta cultura da coerência deixar marca na política e no país. Eu, pelo menos, estarei empenhado nisso. 

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