O histórico socialista continua a publicar e a participar na vida política e cívica.
Aos 89 anos, Manuel Alegre publicou o livro de poesia Balada do Corsário dos Sete Mares. Admite que cada vez escreve menos e assegura que todas as vivências que teve desaguaram em todos os poemas e textos que escreveu. Celebra esta terça-feira, 12 de maio, 90 anos de existência na Terra e na sua vida cabem dezenas e dezenas de histórias.
Manuel Alegre celebra 90 anos com uma vida dedicada à política e à poesiaRaquel Wise/Sábado
Infância, adolescência e juventude
Manuel Alegre de Melo Duarte nasceu em Águeda a 12 de maio de 1935, em plena ditadura do Estado Novo. Originário de uma família de tradição liberal - o trisavô e o irmão fizeram parte dos liberais de Aveiro que em 1828 se revoltaram contra o decreto em que "D. Miguel convocava Cortes para se proclamar rei absoluto", escreveu no livro Memórias Minhas, de 2024 -, veio estudar para Lisboa ainda durante a adolescência, tendo depois concluído a instrução em vários liceus do Porto.
A sua infância e juventude encontram-se retratadas no romance Alma (1995), sobre o qual Luiz Pacheco afirmou que é uma "uma emotiva incursão na sua infância, ao mesmo tempo que nos vai desdobrando o panorama de uma povoação provincial com o seu dia-a-dia marcado pela repressão e medo salazarista”.
Durante a apresentação do livro, em dezembro de 1995, tanto Soares como Luiz Pacheco consideraram que Manuel Alegre devia dar continuidade ao romance. Pacheco, dirigindo-se ao autor, afirmou: “Este seu romance pede, e exige, continuação. Trata-se de um testemunho precioso numa prosa tão direta e certeira como impregnada de emoção e sageza”. Soares, por seu turno disse: “Não nos deixe com água na boca. Meta mãos ao trabalho. Conte-nos, depressa, o resto da história. Ou será que, ao contrário do que nos quiseram fazer crer há alguns anos, não estamos a viver o fim da História? E teremos de persistir nos nossos velhos combates?".
Em 1956 foi admitido na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra e um ano depois tornou-se militante do Partido Comunista Português, que abandonaria em 1968.
Ainda na década de 50 junta-se a trupes de teatro e edita os primeiros poemas em diversas revistas.
Em 1961, é chamado a cumprir serviço militar e assenta praça na Escola Prática de Infantaria, em Mafra, de onde sai, pouco depois, para a Ilha de São Miguel. Alegre era oficial miliciano "e o Ernesto oficial de artilharia". A primeira conversa que tiveram foi sobre poesia. "Da tertúlia à conspiração foi um passo", confidenciou o poeta em 2009 num evento para assinalar os dez anos da morte do capitão de Abril. Nesse evento, o socialista contou pormenorizadamente o episódio histórico em que ambos fundaram a Junta de Ação Patriótica dos Açores e como estiveram perto de tomar militarmente a ilha e lá instalar o governo provisório de Humberto Delgado. No entanto, a "revolução ficou no tinteiro", lembrou então Alegre
Guerra Colonial, prisão, poemas e exílio
Alegre foi mobilizado para Angola em julho de 1962. Em Luanda foi colocado numa Companhia da Guarnição Normal e posteriormente participou em várias missões e passou por vários quartéis, detalhou num registo do seu serviço militar em 2010, quando foi candidato Presidencial e começaram a surgir em vários bloques questões sobre a sua carreira militar.
A 17 de abril de 1963 recebeu ordem de prisão. "O Comandante da Casa de Reclusão entrega-lhe um documento de passagem à disponibilidade, assinado pelo Chefe do Estado Maior do Exército, tenente-coronel Bettencourt Rodrigues. Informa-o de que tem de se vestir à civil e que a PIDE o espera à porta da Casa de Reclusão”, escreveu a equipa de Alegre na nota.
Cumpriu uma pena de seis meses "sob a acusação de tentativa de golpe militar contra o regime do Estado Novo". Não foi reintegrado no exército e em 1963 o Chefe do Estado Maior “ordena o seu regresso a Lisboa, na situação de disponibilidade”
Foi durante este período que começou a esboçar o que viria a ser o livro de poesia Praça da Canção. Sem acesso a papel e lápis, organizava os poemas na cabeça e recitava-os em voz alta. "Uma vez até lá foi um funcionário da PIDE saber o que é que se passava, se eu estava a falar com alguém", contava à SÁBADO em 2015. Isso fez com que, nas suas palavras, os textos desta Praça da Canção tenham "uma estrutura rítmica muito especial muito ligada aos cancioneiros e à poesia trovadoresca". Nestes versos fixou as histórias do sofrimento e da morte dos soldados portugueses em África e a exaltação de heróis portugueses de outrora. O livro, editado em 1965 esteve para se chamar "País de Abril", mas acabou com o título Praça da Canção.
Durante a sua estadia na prisão conheceu o resistente e escritor Luandino Vieira. Um dia, quando já estava autorizado a escrever, passou-lhe os seus poemas. Precisava que os fizessem chegar à família para que os preservassem. Depois, de volta a Portugal, recuperou os textos escritos na prisão e acrescentou-lhes uns novos.
Mas por essa altura já a sua poesia era conhecida "A Trova do Vento que Passa", com poema de Alegre e interpretada por Adriano Correia de Oliveira, fora transformada em canção durante uma tertúlia em casa do guitarrista, e cunhado de Alegre, António Portugal. E pouco depois era cantada publicamente por Zeca Afonso e Adriano Correia de Oliveira na Faculdade de Medicina de Lisboa. Até Amália Rodrigues gravou a sua versão.
Em 1963 recebe ordem para voltar a Portugal e é-lhe fixada residência em Coimbra, sendo constantemente vigiado pela PIDE. Quando recebe informação de que pode estar prestes a ser detido novamente e julgado em tribunal militar, esconde-se em casa de amigos e acaba por ficar escondido numa quinta idílica no Minho, que pertencia aos irmãos Feijó. Foi ali que se preparou para o exílio durante os meses da Primavera de 1964. Apesar da sua condição de fugitivo, e de a qualquer momento a PIDE poder encontrá-lo, o poeta sentiu aquele refúgio como um paraíso e dali saíram vários poemas bucólicos, contou ao jornalista João Céu e Silva no livro Uma Longa Viagem Com Manuel Alegre (Porto Editora, 2010).
Quando o livro começou a ser distribuído (ainda em Dezembro de 1964, mas oficialmente apenas em Janeiro seguinte), já Manuel Alegre tinha dado o salto. Primeiro para Paris e depois para Argel.
Mas antes de ir para a Argélia fez ainda parte da Frente Patriótica de Libertação Nacional (FPLN), movimento presidido por Humberto Delgado, e depôs perante as Nações Unidas como representante dessa organização. Depois partiu para Argel onde ficou 10 anos.
Na capital argelina foi locutor da emissora de rádio A Voz da Liberdade, veículo de comunicação da FPLN. As emissões eram feitas a partir da Rádio Argel e direcionadas a Portugal e às colónias em guerra. Por essa altura já os seus dois primeiros livros Praça da Canção (1965) e O Canto e as Armas (1967) circulam em redes clandestinas e os seus poemas são cantados pelos cantores de intervenção.
Em março de 2017, nas tertúlias Rostos de Portugalidade, Manuel Alegre recordava como conheceu Enresto 'Che' Guevara na Argélia. "Era uma figura mítica. Conheci-o em Argel porque tinha vivido numa zona onde havia muitos refugiados latino-americanos", contou, a propósito do guerrilheiro: "A certa altura apareceram uns mestiços e tal. E eu ia lá, a casa de um venezuelano, que eu acho que não era venezuelano - nem eles [os mestiços] eram mexicanos, mas sim cubanos, que depois foram com ele para o Congo."
Em 1968 afasta-se do PCP na sequência da invasão da Checoslováquia pelas tropas soviéticas e junta-se à Ação Socialista Portuguesa. Continuaria nesta situação até 1974, afastado de Portugal, entre Paris e Argel.
Carreira política
O 25 de Abril apanha-o em Argel. Chega a Portugal a 2 de maio e entra nos quadros da RTP como diretor dos Serviços Recreativos e Culturais. Nesse mesmo ano adere ao Partido Socialista de Mário Soares.
É eleito deputado à Assembleia Constituinte em 1975 e foi o autor da proposta apresentada pelo PS para o texto do preâmbulo da Constituição Portuguesa de 1976, que acabou por ser adotado.
Foi conquistando o seu espaço dentro do PS e tornou-se um senador do partido, com grande influência interna. Foi deputado ao longo de 34 anos, tendo-se despedido da Assembleia em 2009. Pelo caminho foi vice-presidente da Assembleia da República de 1995 a 2009 e membro do Conselho de Estado.
Na política foi secretário de Estado e presidente e vice-presidente de várias Comissões Parlamentares. Em 2004 foi candidato a secretário-geral do PS, perdendo para José Sócrates.
Volta a tentar uma eleição, mas desta vez ao cargo mais elevado da nação. Em 2006 candidatou-se como independente às Presidenciais, tendo obtido mais votos que Mário Soares, então candidato oficial do PS, mas fica em terceiro lugar,
Em 2006 foi candidato independente às eleições presidenciais, tendo obtido mais votos que Mário Soares, então candidato oficial do PS. Após essas eleições funda o Movimento de Intervenção e Cidadania e em 2011 volta a candidatar-se às presidenciais, voltando a perder para Cavaco Silva.
O lado caçador e defensor das touradas
"Há muitos preconceitos errados contra a caça, que é uma atividade nobre, quando bem praticada. Tenho muita honra em ser caçador. Sei que é politicamente incorreto, mas acho que tudo começou pela caça", defendeu Manuel Alegre em 2017.
E aquando da entrada do PAN do Parlamento e consequente proposta para proibir as touradas, escreveu, numa carta aberta: "Agora são as touradas, depois há-de ser a caça e depois o livro que podemos ou não ler ou o filme que podemos ou não ver. É este tipo de intolerâncias que cria os Bolsonaros. Atitudes como esta colocam a democracia em causa". Na mesma missiva pedia a "descida de 6% do IVA para todos os espetáculo sem discriminar a tauromaquia"
Últimos anos
Em 2020, em plena pandemia, Manuel Alegre defendeu que o 25 de Abril tinha de ser celebrado no Parlamento, mesmo com as restrições devido à covid-19.
"A democracia não está nem pode ser suspensa. Saudamos a homenagem que o povo e o Parlamento prestam ao 25 de Abril", referia o texto de lançamento da petição cujo primeiro subscritor era o histórico socialista.
Na altura, Alegre justificou a criação da petição por considerar que "algumas pessoas estão a fazer um aproveitamento político da decisão do parlamento de mau gosto e hipócrita". "No fundo não querem que se celebre o 25 de Abril", referiu.
Em janeiro de 2024 foi eleito Presidente Honorário do Partido Socialista.
Já este ano, parabenizou António José Seguro pela vitória nas Presidenciais, garantindo que era um vitória individual que não devia nada ao PS.
Manuel Alegre aos 90 anos: a vida intensa do político, poeta e caçador
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