Há cada vez mais crianças sob proteção do Estado devido a álcool

Alexandre R. Malhado , Lusa 30 de janeiro de 2019
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607 crianças e jovens foram sinalizadas em 2016 e 2017 por terem ou estarem expostos à dependência de álcool, levando-as às Comissões de Proteção de Crianças e Jovens.

607 crianças e jovens foram sinalizadas em 2016 e 2017 por terem ou estarem expostos à dependência de álcool, levando-as às Comissões de Proteção de Crianças e Jovens (CPCJ). Essa é uma conclusão do Serviço de Intervenção nos Comportamentos Adictivos e nas Dependências (SICAD), apresentado esta quarta-feira na Assembleia da República.

De acordo com o relatório da SICAD, 2016 e 2017 representam "os valores mais altos" dos últimos cinco anos, tendo aumentado para 305 e 302. Recorde-se que as conclusões do SICAD foram apresentadas após a Organização Mundial de Sáude revelar que o consumo de álcool em Portugal aumentou. Cada português bebe, em média, 12,3 litros de bebidas alcoólicas por ano, números que preocupam a OMS.

Aumento do consumo de álcool e canábis nos mais velhos preocupam autoridades
 
O diretor-geral do SICAD, João Goulão, destaca como "evoluções negativas" em 2017 a mortalidade em acidente de viação sob a influência do álcool e o aumento dos consumos de risco e dependência de álcool e canábis em mulheres e homens mais velhos.

Além da mortalidade por doenças atribuíveis ao álcool e o aumento ligeiro, o SICAD sublinha também o contínuo dos consumos de álcool e canábis nos jovens de 18 anos.

Mas existem "outros indicadores cuja evolução nos dois últimos anos exige a nossa atenção, como o aumento das proporções de novas infeções por VHC [vírus da hepatite C] entre os utentes que iniciaram tratamento no ano por problemas relacionados com o uso de álcool", afirma João Goulão no preâmbulo do relatório sobre "A Situação do País em Matéria de Drogas e Toxicodependência 2017".

Na área das drogas, João Goulão cita os resultados do Inquérito Nacional ao Consumo de Substâncias Psicoativas na População Geral 2016/17, que evidenciaram "o não cumprimento das metas relacionadas com os consumos na população geral de 15-74 anos, devido ao agravamento do consumo de canábis" ao nível das prevalências de consumo recente, das frequências mais intensivas e da dependência.

Observa ainda "a particularidade dos agravamentos" deste consumo nas mulheres e nas faixas etárias dos 25-34 anos e 35-44 anos.

Segundo o documento, cerca de 0,7% da população de 15-74 anos tinha um consumo considerado de risco elevado (0,4%) ou de risco moderado (0,3%), quase duplicando o valor correspondente (1,2%) na população de 15-34 anos (0,6% com consumo de risco elevado e 0,6% de risco moderado).

João Goulão destaca como positivo a descida dos indicadores relacionados com as infeções por VIH e sida associadas à toxicodependência e com a mortalidade.

"De um modo geral, também foram atingidas as metas definidas para os indicadores relacionados com os consumos dos mais jovens, em particular no que respeita à canábis (perceção dos riscos do consumo, o retardar a idade do início dos consumos e a prevalência do consumo recente)", sublinha.

Como "evolução positiva" na área do álcool, João Goulão aponta a "perceção de menor facilidade de acesso a bebidas alcoólicas" a menores e o retardar das idades de início dos consumos em jovens, a diminuição do consumo per capita e a diminuição dos internamentos hospitalares com diagnóstico principal hepatite ou cirrose alcoólicas.

"Em contrapartida, alguns indicadores apontaram para um agravamento dos consumos de risco ou dependência na população geral de 15-74 anos, e outras evoluções negativas preocupantes em alguns subgrupos populacionais, como no feminino e nas faixas etárias mais velhas", salienta.

Para João Goulão, importa continuar "a priorizar as intervenções com impacto" nos ganhos obtidos na área da droga, como a aposta no diagnóstico precoce da infeção por VIH", a "referenciação adequada" dos casos reativos para o Serviço Nacional de Saúde e "estratégias robustas de redução de riscos e minimização de danos com elevado impacto na mortalidade".

João Goulão adverte que se mantém "a premência da aprovação da proposta de alargamento do atual modelo de coordenação nacional, a outros comportamentos aditivos e dependências sem substância" e reitera "a necessidade de se priorizarem as ações preventivas, que têm vindo a registar perdas de continuidade e de reforço".
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