Ambientalistas avisam: Portugal já não tem rios sem barragens

Lusa 08 de maio de 2019
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Organizações indicam que barragens construídas em todos os rios de média e grande dimensão do país são prejudiciais para o ambiente mas também para os seres humanos.

Portugal tem barragens construídas em todos os rios de média e grande dimensão do país, o que é prejudicial para o ambiente mas também para os seres humanos, disseram hoje organizações ambientalistas ouvidas pela Lusa.

Segundo uma investigação publicada pela revista científica Nature, grande parte dos maiores rios do mundo tem barragens e albufeiras, com apenas um terço a correr ainda de forma livre.

A conclusão resultou da primeira avaliação global da localização e extensão dos rios que correm livremente, que sublinha a grande degradação observada e alerta para a redução drástica dos benefícios dos rios saudáveis, para as pessoas e para a natureza.

Se no mundo 63% dos maiores rios tem barragens, em Portugal a percentagem é 100%, salientou o presidente da associação ambientalista Zero, Francisco Ferreira.

"A questão é extremamente importante, rios com expressão significativa em termos de caudal e comprimento já não temos nenhum livre", disse o responsável, adiantando que tal compromete também a componente recreativa e natural dos rios.

Afonso do Ó, consultor científico para a água da Associação Natureza Portugal (ANP), representante da internacional World Wildlife Fund (WWF, Fundo Mundial para a Natureza), disse à Lusa que em Portugal há "claramente barragens a mais" e que o país é dos que tem mais barragens do mundo.

"Não temos nenhum rio grande sem barragens ou barreiras - apenas pequenos afluentes que correm livres, e todos eles desaguam em rios fragmentados. Isto significa que todos os serviços do ecossistema em Portugal que é suposto um rio livre fornecer, deixámos de ter, e com isto já vimos extinguir várias espécies", alertou o especialista.

Francisco Ferreira não negou a importância das barragens, mas alertou para os obstáculos que representam ao impedir os sedimentos de fluir para o mar e ao impedir as espécies migratórias de subirem os rios. "Tudo isto tem valências importantes na economia", disse.

Afonso do Ó notou ainda que em Portugal há um número indeterminado de barreiras que causam fragmentação dos rios e que muitas delas podem até já ser desnecessárias, sendo preciso identificá-las, perceber quais os custos-benefícios e possivelmente removê-las para permitir a "renaturalização dos rios que já não precisam de estar fragmentados".

De acordo com o trabalho hoje publicado, que juntou uma equipa de 34 investigadores, alguns da WWF, há no mundo mais de 60.000 grandes barragens (paredes maiores do que 15 metros) e estão em construção ou planeadas mais 3.700 barragens hidroelétricas.

Embora a energia hidroelétrica tenha inevitavelmente um papel no cenário das energias renováveis, os países devem considerar opções "como o vento e o sol, que bem planeados podem ter menos impactos prejudiciais nos rios, nas comunidades, nas cidades e na biodiversidade", disse Michele Thieme, cientista da WWF.
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