A noite em que o ministro caiu
Eduardo Dâmaso Director
07 de abril

A noite em que o ministro caiu

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Jorge Coelho pronunciou a palavra "demissão" às três e meia da manhã, numa sala soturna, perante um pequeno grupo de jornalistas ainda atordoados com a rapidez dos acontecimentos.

Repito o título que escrevi há vinte anos, sobre a demissão de Jorge Coelho. O anúncio de uma "importante declaração política" que o ministro Jorge Coelho iria fazer às três da manhã desse dia 5 de Março de 2001, no Ministério do Equipamento Social, dizia quase tudo. Porventura com excepção dos tempos conturbados de 1975, nunca um ministro se demitira de madrugada.

Recordo como se fosse hoje. Jorge Coelho pronunciou a palavra "demissão" às três e meia da manhã, numa sala soturna, perante um pequeno grupo de jornalistas ainda atordoados com a rapidez dos acontecimentos.

Invocou a sua consciência, a responsabilidade política e a necessidade de "a culpa não poder morrer solteira" para se ir embora. Rápido, sem declarações escritas, sem solenidade mas com muita contenção. Tudo a milhas do aparato mediático que se poderia prever para um dia em que o ministro Jorge Coelho, por alguma imponderável razão, anunciasse que se demitia ou se retirava da política.

A vida tem destas ironias. Foi assim a noite em que o ministro mais poderoso do Governo caiu. Talvez tenha sido também assim que foram controlados estragos irreversíveis naquela que foi uma das crises mais sérias dos governos de António Guterres.

Um homem pensativo na bruma de Sintra
Os acontecimentos começaram a precipitar-se a partir das 23h00. Algum transeunte que por essa hora da noite de domingo encontrasse, algures por Sintra, um homem que passeava nas brumas com um ar reflexivo, para cá e para lá, reconheceria, certamente, o ministro Jorge Coelho.

Estaria muito longe, no entanto, de pensar que daí a uma hora ou duas o poderia ver de novo, mas na televisão, a pedir a demissão.

Durante meia hora tudo passou vertiginosamente pela cabeça do ministro que se consolidou como a figura mais incontornável do guterrismo, a seguir ao próprio Guterres. Mas os caminhos iam sempre dar a uma única solução: o peso da tragédia que se adivinhava estar depositada nas profundezas do Douro não deixava outro caminho que não o da demissão.

Jorge Coelho começou a acompanhar a situação a par e passo assim que soube do acidente. Telefonou de imediato para os seus secretários de Estado Luís Parreirão e José Junqueiro que se dirigiram para o local. Falou pouco depois com António Guterres, dando-lhe conta da sua preocupação para o cenário que se adivinhava, caso viesse a confirmar-se a pior das probabilidades: que o autocarro caído às águas do Douro fosse cheio de pessoas.

As más notícias não demoraram. O Governo foi informado pelos bombeiros da inevitabilidade da tragédia perto da meia-noite e os cálculos apontavam para a morte de cerca de 70 pessoas. Foram 59 os mortos confirmados mais tarde. A diferença entre a previsão e a realidade não mitigou, obviamente, a tragédia.

A confidência a Fausto Correia
Os membros do Governo que já estavam no local transmitiram essas informações para Lisboa e a partir daí o desfecho tornou-se evidente para Jorge Coelho. Por volta das 23h30 voltaria a telefonar para o secretário de Estado da Presidência, Fausto Correia, a quem já diria que a sua posição se tornava "insustentável".

No seu gabinete ainda havia quem ponderasse que se poderiam evitar consequências mais drásticas se o secretário de Estado Luís Parreirão, envolvido numa polémica com o presidente da Câmara de Castelo de Paiva sobre a segurança da ponte viesse a demitir-se. Havia no Governo a percepção de que tanto as declarações do autarca como as de algumas vozes no PSD, entre as quais a de Luís Filipe Menezes, apontavam o tiro para Parreirão. Mas para Coelho era claro que a saída de Parreirão manteria a atitude do Governo no limbo da hipocrisia pura. A história do mar, da rocha e do mexilhão...

Já depois da meia-noite, Jorge Coelho voltou a falar telefonicamente com António Guterres por várias vezes. Guterres percebeu que ia perder o seu peso-pesado mais importante. Por volta da 1h30 da manhã, Jorge Coelho comunicava ao seu assessor António Capinha que desejava realizar uma conferência de imprensa. Para fazer a tal "importante comunicação política".

Nesse momento, a sua demissão era um dado adquirido entre os colaboradores mais próximos de António Guterres, ainda que das conversas entre os dois nada tivesse transpirado. Jorge Coelho terá deixado claro que se não se demitisse, tudo seria pior para o Governo, para o PS, para os políticos. Terá dito que se as pessoas já estão divorciadas da política, tudo ficaria pior se insistisse em aguentar-se no lugar.

A culpa não pode morrer solteira
Passariam poucos minutos das duas da manhã quando Jorge Coelho se meteu no carro para viajar de sua casa até ao ministério, onde chegou às 3h00. Foi necessário esperar meia hora pela montagem da parafernália televisiva e eram três e meia em ponto quando Coelho começou a dar conta do seu estado de alma.

"O conceito que tenho do exercício do poder político faz com que a culpa não pode morrer solteira e perante uma situação como esta têm de se tirar consequências políticas das responsabilidades que se tem quando se exerce o poder." Foi com estas palavras que Jorge Coelho, depois de apresentar as suas "sentidas condolências" às famílias enlutadas, anunciou que já tinha solicitado a sua demissão de ministro ao primeiro-ministro. Esclareceu de seguida que a sua saída é irreversível, apesar das "manifestas provas de solidariedade recebidas por parte do senhor primeiro-ministro", escusando-se, porém, a confirmar se Guterres insistiu para que continuasse.

Enfatizou a questão da responsabilidade política, sublinhando várias vezes que "o país tem de acreditar nas suas instituições". Foi notório que Coelho quis fixar doutrina em matéria de responsabilidade política. E daí para a frente a fasquia ficou bem alta.

Jorge Coelho deixou ainda claro que não estava ali para "brincar", desfazendo interpretações que nasciam à sombra da lembrança de outras demissões anunciadas que morreram à boca de cena. "Eu ando há demasiados anos na política para brincar com a política e com aquilo com que não se pode brincar: uma decisão a sério é irreversível. Eu não brinco com aquilo que é o sentido da responsabilidade e o sentido ético da política."

A pancada a quem enfiasse a carapuça estava dada. Para António Guterres, o ministro Jorge Coelho era uma espécie de promontório onde as ondas podiam bater sem interrupção. A força tentacular das vagas nunca chegaria ao chefe. Nessa madrugada de 5 de Março de 2001, António Guterres perdeu essa rocha à sua volta, no Governo, porque houve 59 portugueses que perderam os seus familiares nas águas revoltas do Douro. No País, nunca mais ninguém se esqueceu da ideia de que a culpa não pode morrer solteira. Jorge Coelho deixou esse legado, ainda que a doutrina não tenha feito grande caminho na política e na vida pública em geral, onde a regra é aguentar nos cargos até poder.

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