Sábado – Pense por si

Renato Gomes Carvalho
Renato Gomes Carvalho Membro da direção da Ordem dos Psicólogos Portugueses
28 de maio de 2025 às 07:00

O algoritmo vai ficar com o meu emprego?

Vale a pena promover o desenvolvimento de carreira num mundo tão incerto? Ora, é justamente porque o mundo está como está que, mais do que nunca, o desenvolvimento de carreira e as competências que nele se promovem é essencial.

Numa sessão sobre o papel dos pais nas escolhas de carreira dos seus filhos, uma mãe perguntou-me se ainda valia a pena olhar para o desenvolvimento de carreira quando "o mundo está tão incerto e só se fala agora é de inteligência artificial". Esta questão surgiu na sequência de um debate sobre a importância do autoconhecimento, da exploração vocacional, da construção de perspetivas face ao futuro e de outras dimensões que estão associadas ao desenvolvimento de carreira. É uma boa questão. Não só porque expressa uma preocupação legítima, própria de quem pensa no futuro dos seus filhos, mas também porque permite refletir sobre o que está a acontecer à nossa volta e o que é possível fazer em relação a isso.  

No Future of Jobs Report 2025, do Fórum Económico Mundial, que relata os resultados de inquéritos realizados junto de cerca de mil empregadores em todo o mundo sobre as macrotendências do mundo do trabalho para os próximos anos, entre outros indicadores, como habitualmente foram apresentadas as profissões e funções cuja procura mais se prevê que venha a diminuir e aumentar. No primeiro caso, surgia múltiplas vezes no topo a palavra clerk (que remete para alguém que está a atender, quer seja numa bilheteira ou num balcão de um qualquer serviço). Por outro lado, especialistas em megadados, engenheiros, especialistas em inteligência artificial (IA), analistas, mas também motoristas de camiões ligeiros ou de entregas, surgiram com previsão de crescimento. Outros indicadores interessantes envolviam as perspetivas de maior substituição pela inteligência artificial generativa (IAG) em domínios de competências como línguas, operações matemáticas, programação, operações logísticas e financeiras, e de menor substituição pela IAG em domínios de competências como a empatia e escuta ativa, a precisão e destreza manual, o pensamento criativo, o ensino, a mentoria, o coaching, a resiliência, a flexibilidade e agilidade, o pensamento analítico, a liderança e a influência social. Mais do que uma checklist que nos leve a raciocínios simplistas, na linha do isto é bom e aquilo é mau, este tipo de resultados convocam-nos para uma reflexão sobre quais são as tendências do mundo do trabalho, incluindo sobre o que, em cada período, é mais e menos valorizado. Num tempo de transformação digital, isso é bem evidente.  

De facto, um dos impactos mais evidentes da transformação digital é no mundo do trabalho, nomeadamente na forma como as funções são executadas e nos empregos que se vão perder, devido à sua obsolescência e substituição por máquinas e algoritmos que serão mais eficientes, face à natureza das tarefas envolvidas. E ainda que seja certo que muitos empregos se vão criar, não é certo que o balanço entre ganhos e perdas seja favorável, isto é, que não haja milhões de pessoas sem a preparação suficiente para uma nova realidade ou mesmo estando preparadas, que tenham oportunidades.  

Se, numa fase inicial, se falava muito de que as profissões mais ameaçadas eram aquelas que envolviam tarefas rotineiras, repetitivas, previsíveis, até mecânicas, não tenhamos ilusões: não são apenas essas que receberão um impacto, na sua existência ou na forma como são realizadas. Desde situações de diagnóstico médico mais preciso até elaboração de produtos "artísticos", a mudança não se aplica apenas aos clerks. Não é que um algoritmo venha ficar com o nosso trabalho. A realização do nosso trabalho é que cada vez mais vai ocorrer, de uma forma ou de outra e com maior ou menor escala, a par de algoritmos.  

A magnitude da transformação digital e especialmente a IAG corresponde a uma das maiores revoluções da História, com impactos que têm sido bem debatidos, muitas vezes contrastando-se polos de um tecno-otimismo irrealista de que teremos todas as doenças curadas a médio prazo, com um tecno-tremendismo do tipo Exterminador implacável ou Matrix. Lidar com tudo isto vai requer ação, quer no plano individual e do desenvolvimento das competências, quer nos planos social, institucional, político e da regulação. 

Navegar neste mundo de incerteza e transformação rápida e pouco controlada, e construir uma carreira, no sentido psicológico do termo, vai requerer o desenvolvimento de competências de gestão de carreira, aprendizagem ao longo da vida e autoconhecimento. Tudo o que se faz em Psicologia Vocacional e no âmbito do desenvolvimento de carreira. Daí que, voltando à questão inicial daquela mãe: vale a pena promover o desenvolvimento de carreira num mundo tão incerto? Ora, é justamente porque o mundo está como está que, mais do que nunca, o desenvolvimento de carreira e as competências que nele se promovem é essencial. 

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