Sábado – Pense por si

Renato Gomes Carvalho
Renato Gomes Carvalho Membro da direção da Ordem dos Psicólogos Portugueses
08 de maio de 2025 às 07:00

O bem-estar dos trabalhadores não é uma massagem - embora também saiba bem

Uma cultura de saúde e bem estar envolve olhar para este assunto como algo que está integrado e é natural no funcionamento de uma organização e na sua natureza. Disso depende, não apenas o bem estar de cada pessoa, mas também os resultados económicos e a competitividade da própria organização.  

Recordo-me de uma situação de uma profissional, que se mostrava muito preocupada com o convívio que a sua empresa tinha agendado para um fim de semana numa unidade hoteleira. Tratava-se de uma medida deteambuilding e de promoção do bem estar daquela organização, que certamente estava interessada em fornecer oportunidades prazerosas aos seus trabalhadores e contribuir para um clima de satisfação no local de trabalho. Afinal, quem não gosta de um fim de semana de relax num bom hotel com tudo pago? Mas, para aquela profissional, isso era apenas uma fonte de tensão, já que não tinha com quem deixar os seus filhos. Além de que não era grande fã de ajuntamentos e convivências forçadas. Para ela, aquela medida da empresa não era mais que uma fonte de stresse.

Todos os anos, diversas organizações aplicam recursos em medidas de saúde e bem estar, com escala variável, dependendo da dimensão e capacidade financeira. Em algumas até pode haver palestras sensação com um orador, que é mental health coach, life guide, especialista em felicidade organizacional - digamos, é tudo, só não é psicólogo. Um orador que lhes levou 10 mil dólares pela palestra e que realmente faz uma sessão muito dinâmica, em que as pessoas se sentem inspiradas, eufóricas e onde se gera um impulso motivacional. Tudo o que é preciso para um episódio hipomaníaco. No dia seguinte, continua tudo igual na organização. Os fatores que estão na origem dos problemas e que são relevantes para a experiência dos trabalhadores, o desconhecimento das lideranças sobre a realidade da sua organização, as ineficiências e tudo o que precisa de ser feito, persistem.

Nada tenho contra palestras sobre saúde e bem estar no local de trabalho, até porque já fiz algumas - ainda que sem a capacidade de provocar sensações fortes junto das audiências, próprias de a quem é pedido que gritem bem o seu nome ou um clássico "eu consigo!". A questão fundamental não é se devemos ou não investir em palestras e outros momentos de bem estar - porque devemos -, mas qual é a abordagem que cada organização tem ao assunto da saúde psicológica e do bem estar, que ações são levadas a cabo de forma a consubstanciar essa abordagem e qual é o seu resultado. Certamente que uma coisa são medidas mais avulsas, que decorrem da boa vontade e são vistas como uma benesse, e outra são ações estratégicas e integradas, que se baseiam em informação obtida sobre aquela realidade específica. Digamos que oferecer brindes nada vai resolver, se o local de trabalho for um inferno.

Para a trabalhadora que acima referimos, ou outros colegas, uma das questões mais importantes para si era a compatibilidade entre a vida familiar e a profissional. Mas podiam ser outros motivos, por exemplo, a forma como ocorre a comunicação interna na empresa, como o trabalho está ou não está estruturado, as oportunidades de crescimento profissional, o reconhecimento pelo seu trabalho e a forma como é tratada, a política salarial, a possibilidade de modelos híbridos de trabalho que evitassem perder horas em deslocações desnecessárias, entre outros. No meio de tantos fatores possíveis, como é que então podemos saber o que é que cada organização e os respetivos trabalhadores precisam? Uma ação sistemática para conhecer, avaliar e intervir sobre riscos psicossociais que fornece à liderança uma imagem mais completa da sua organização e que fatores são críticos, é certamente uma estratégia bem mais eficiente, por exemplo.

Assegurar locais de trabalho saudáveis e produtivos requer um compromisso individual de cada trabalhador em ser competente, com a sua instituição e com o seu autocuidado, mas é também uma responsabilidade coletiva e organizacional. E se, em princípio, toda a gente gosta e são sempre bem-vindos uma massagem, uma cesta de fruta ou um cabaz de produtos tradicionais portugueses, para termos locais de trabalho saudáveis e geradores de crescimento e produtividade, temos de olhar para o que realmente interessa. Uma cultura de saúde e bem estar envolve olhar para este assunto como algo que está integrado e é natural no funcionamento de uma organização e na sua natureza. Disso depende, não apenas o bem estar de cada pessoa, mas também os resultados económicos e a competitividade da própria organização.  

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