Esta medida tem uma natureza complementar, devendo ser acessória ao que realmente importa e que é aquilo que a OPP defende: a existência, de base, de serviços de psicologia bem estruturados e com recursos nas instituições de ensino superior.
Uma das medidas muito faladas na esfera da saúde mental do ensino superior é o cheque-psicólogo. Em traços gerais, esta medida do Governo consiste na disponibilização de um número de consultas de psicologia a estudantes do ensino superior que o requeiram, sendo que o pagamento é feito diretamente pelas instituições aos psicólogos que aderirem àquela medida. Neste âmbito, a Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP) procurou colaborar dentro do que são as suas atribuições, para que pudesse ser aplicada da melhor forma possível.
O cheque-psicólogo gerou interesse (sobretudo inicialmente) e veio chamar a atenção para o tema da saúde mental dos estudantes do ensino superior. Tem também o mérito de contribuir para a promoção do acesso a serviços de psicologia para esta população específica, especialmente quando os indicadores de sofrimento psicológico e problemas de saúde mental em estudantes do ensino superior são muito significativos - aliás, como em toda a população.?
Um ano de experiência de cheque-psicólogo permite-nos identificar pelo menos dois tipos de desafios. Um de operacionalização e outro de sustentabilidade. É importante avaliar a forma como é colocada em prática, resolver detalhes burocráticos e formas de pagamento aos profissionais. Além disso, é importante avaliar a viabilidade da manutenção de uma medida destas de forma contínua, até pela irregularidade que se verificou na sua utilização, após um grande interesse inicial.
Mas, acima de tudo, o que é importante assinalar é que esta medida tem uma natureza complementar, devendo ser acessória ao que realmente importa e que é aquilo que a OPP defende: a existência, de base, de serviços de psicologia bem estruturados e com recursos nas instituições de ensino superior. Estes serviços, como vários exemplos em todo o país demonstram, podem desenvolver uma ação mais sistemática, direcionada e de forma contextualizada na comunidade. Estes serviços podem desenhar intervenções multi-nível, que possam ser executadas de forma modelada, conforme as necessidades: há intervenções que são de natureza sistémica na comunidade escolar, outras mais direcionadas a grupos específico e outras, de natureza mais intensiva, destinadas a indivíduos, em que se inserem as consultas. E, além disso, são uma forma muito mais eficiente de aplicar os recursos.?
Em suma, são de saudar todas as medidas que contribuam para maior acesso dos cidadãos aos serviços de que necessitam. Uma vez que existe, é de aproveitar o cheque-psicólogo. Mas, sendo essa uma medida de natureza acessória, a resposta mais eficiente para um problema permanente e de elevada magnitude tem uma outra natureza. No caso da saúde mental no ensino superior, tal significa, desde logo, a existência de serviços especializados nos contextos onde os jovens se encontram. E, além disso, não apenas nas instituições de ensino superior. Múltiplas situações requerem o acesso ao SNS, onde continuam a faltar centenas de psicólogos, nomeadamente nos cuidados de saúde primários.?
A experiência da Ordem dos Psicólogos (OPP) mostra que a nova lei veio sobretudo criar mais camadas burocráticas, novas regulamentações e, na prática, introduzir complexidade e entropia. Isso está cada vez mais evidente em várias esferas, incluindo no que se passa ao nível do tal acesso que era preciso melhorar.
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