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João Carlos Barradas
João Carlos Barradas
21 de março de 2026 às 08:14

Miragens, delírios e triunfos

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Edição de 17 a 23 de março

Só resta a certeza na incerteza, egocentrismo e inconstância de Trump.

O equinócio da Primavera marca o Nowruz, o Ano Novo, por todo o mundo persa e é agora que as temperaturas vão começar a subir acentuadamente no planalto iraniano e no Golfo Pérsico.

Sobre as águas o ar fica cada vez mais quente e denso e é quando se agigantam no ar as ilhas, os zambucos e suas velas, as falésias e os petroleiros, a Lua.

Quem navega no Golfo tem de haver-se com a bruma matinal, as miragens, os ventos quentes, e na guerra o tempo urge para escapar a esta inclemência dos elementos que as crónicas dizem ter levado a desfeitas e desastres imemoriais.

Por esta perene razão, para fugir à exaustão do calor, não podem tardar as incursões norte-americanas nas costas escarpadas e nos pauis do litoral iraniano, nem a captura de ilhas no Golfo, para tentar reduzir ou eliminar ataques à navegação comercial.

Operações de desminagem, escoltas de comboios navais no Golfo Pérsico, no Golfo de Omã, e também no Mar Vermelho se os houthis do Iémen derem por caduca a trégua que em Maio pôs fim a dois meses de ataques, nunca poderão, contudo, ser organizadas antes de meados de Abril no pressuposto de que as operações norte-americanas sejam bem-sucedidas e que outros estados se disponham a contribuir com forças militares.

A eventual ocupação da ilha de Kharg, sufocando 90% das exportações de petróleo iraniano, é uma das opções militares difíceis de Washington que levará a uma retaliação em larga escala.

Impedir o bloqueio do Estreito de Ormuz é, aliás, o argumento que levou Keir Starmer a, mais uma vez, mudar de posição, passando a permitir o uso de bases britânicas para ataques americanos a alvos iranianos capazes de ameaçar a navegação.

A capacidade de ataque iraniano contra as monarquias do Golfo é, todavia, muito provavelmente, susceptível de provocar graves danos às infraestruturas petrolíferas e de exploração de gás natural.

Na situação presente de baixa intensidade de bombardeamentos a instalações de extração e refinação – mesmo considerado o ataque israelita na secção iraniana da jazida de gás natural de Pars Sul e a retaliação de Teerão contra Rass Laffan no Catar –, o director-executivo da Agência Internacional de Energia, o turco Fatih Birol, estima necessário um período de seis meses para reestabelecer os fluxos de petróleo e gás natural ao nível anterior ao desencadear da guerra no final de Fevereiro.

As previsões irão piorar, pois, o Catar, com uma quota de 20% do mercado global de gás natural liquefeito, só poderá proceder a reparações, retomar a produção e exportação depois de uma trégua no conflito.

A crise de quebra na oferta nos mercados de gás natural liquefeito, petróleo ou fertilizantes, afectando diversas cadeias de produção, não se restringe ao curto prazo.

É, desde já, uma crise que se prolongará meses a fio e de impacto pesadíssimo sobre economias dependentes de fornecimentos do Médio Oriente, em especial na Ásia, mas, também, para maior prejuízo de grande parte dos estados europeus e proveito da Rússia.

Os Estados Unidos não escaparão aos efeitos inflacionários da alta dos preços do petróleo, ainda que estejam a salvo da escassez de gás natural liquefeito.

Risco nuclear

O impasse perigoso que se verifica na central ucraniana de Zaporijiia, o maior complexo nuclear da Europa, ocupada pela Rússia no início de Março de 2022, poderá, por outro lado, vir a repetir-se no caso de ataques intencionais ou acidentais à central de Busher, na costa iraniana do Golfo.

O primeiro reactor de Busher, construído pela empresa russa Rosatom, entrou em funcionamento em 2011, estando prevista a construção de outros dois, e, ao alto risco sísmico da zona acresce a vizinhança de bases militares.

Os bombardeamentos israelitas e norte-americanos abriram, entretanto, caminho para o envio de tropas e equipamentos aerotransportados para a neutralização ou captura da maior parte das reservas de urânio enriquecido passível de utilização militar.

As operações no cento e noroeste do Irão têm alto risco, mas são a única forma de Israel e os Estados Unidos conseguirem bloquear por um período prolongado o uso de urânio para uso militar.

Eleições à porta

Trump aliena aliados, enquanto o Irão afronta os estados árabes vizinhos, sem que a guerra contra o Irão tenha objectivos claros, ao passo que a Israel convém um conflito prolongado e devastador que reduza ao máximo o potencial militar de Teerão.

A incerteza quanto aos realinhamentos diplomáticos que a guerra acarrete e os imponderáveis da continuidade do regime teocrático iraniano ou sua desagregação condicionam desde já estratégias.

Os "cobardes" da NATO, a China, as Coreias, a Índia, a Ucrânia, a Arábia Saudita, o Japão, nem mesmo a Rússia, se podem fiar na Casa Branca e só resta a certeza na incerteza, egocentrismo e inconstância de Trump.

O calendário, com eleições intercalares em Novembro, não favorece a Casa Branca e o Partido Republicano.

É de crer que, sem conseguir quebrar a resistência do regime iraniano, Trump, em breve, aposte forte em Cuba até para recuperar eleitores latinos perdidos pela virulência da campanha contra a emigração clandestina.

Na Venezuela a estratégia de controlo indirecto pela mão de facções acomodatícias do chavismo ganhou maior consistência.

A presidente interina, Delcy Rodriguez, demitiu o ministro da defesa, Vladimir Padrino, e remodelou as chefias das forças armadas, afastando rivais perigosos. Falta ver a cor do dinheiro do petróleo, mas Trump parece satisfeito.

É improvável, no entanto, que Trump possa retomar em Cuba este modelo que implicou uma operação militar e a captura de Nicolás Maduro.

Cuba está às escuras e na miséria e ao sobrinho-neto de Fidel Castro, Raúl Guillermo Rodríguez, resta negociar com o secretário de estado Marco

Rubio uma submissão honrosa ao imperialismo yankee.

Trump declarará vitória sobre o Irão mesmo que as coisas não acabem bem e reine a desordem.

Já ao largo da Florida, muito o sol brilhará, no dia em que Trump anunciar a próxima abertura de casinos e campos de golfe em Cuba.

Texto escrito segundo o Acordo Ortográfico de 1945

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