Sábado – Pense por si

João Carlos Barradas
João Carlos Barradas
28 de março de 2026 às 08:00

Uma força fatal e incontrolável

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Edição de 17 a 23 de março

«Igualitário é o deus da guerra; e mata quem quer matar.»

De outros tempos muito sombrios ficaram estas palavras: «Aquele que possui a força caminha num meio sem resistência, sem que nada, por entre a matéria humana em seu redor, seja susceptível de lhe suscitar entre o impulso e o acto, esse breve hiato onde se aloja o pensamento.»

Constam do ensaio «A Ilíada ou o poema da força», publicado no final de 1940, em que a filósofa francesa Simone Weil, adverte que no fragor da guerra «onde o pensamento não tem lugar, não o têm nem a justiça, nem a prudência.»

Judia, indiferente à tradição hebraica, em fuga na França de Vichy humilhada pela Alemanha nazi, Weil possuída pela graça da revelação cristã e alucinada pela comunhão no sofrimento alheio, concebia a epopeia fundadora do Ocidente como uma meditação sobre o «castigo de um rigor geométrico que pune automaticamente o abuso da força.»

Possuídos pela violência, rudes, alucinados, os que se lançam e triunfam na guerra ignoram o cunho contingente da desproporção da própria força, atestava Weil, no que muitos entenderiam como fraca consolação pela desonra e a derrota francesas ao ler o ensaio na revista de Marselha Les Cahiers du Sud, assinado com o pseudónimo Émile Novis.

Weil, a sindicalista, a voluntária nas hostes republicanas na Guerra de Espanha, a contestatária do totalitarismo – denunciando por igual comunistas, nazis e anarquistas –, a mulher que se negava aos prazeres e descobrira que «o cristianismo é a religião dos escravos, a religião a que os escravos, ou eu ou os outros, se não podem recusar” no dia em se que deparou com uma procissão de viúvas de pescadores na Póvoa do Varzim, em 1935, escrevia, então, sem parar.

Entrevia, também, verdades transcendentes nas mitologias e religiões do Egipto, da India, da China, e resignara-se a tentar escapar com os pais para os Estados Unidos.

O abuso e o poder

Homero sobressaía, contudo, ao pesar a tragédia que a força sobreleva: sempre que na guerra «os outros homens não impõem aos seus movimentos esse hiato temporal, que é o único de onde procede a consideração pelos nossos semelhantes, concluem que o destino lhes deu toda a espécie de licença e nenhuma aos seus inferiores.»

É então que «excedem o poder de que dispõem. Inevitavelmente ultrapassam-no, ignorando que ele é limitado. Nesse momento, ficam irremediavelmente entregues ao acaso e as coisas já não lhes obedecem. Umas vezes o acaso pende a seu favor; outras joga em seu prejuízo.»

A excêntrica Simone Weil – «uma marciana», ao que dizia o seu mentor, Alain, o filósofo pacifista da Normandia –, acabaria depois de deixar os pais em Nova Iorque, por oferecer os seus serviços à «França Livre», do general de Gaulle, ao chegar a Londres, em Novembro de 1942.

A ausência de sentido prático, o rigorismo ascético, o quixotismo, que chocava os contemporâneos, atormentava os pais e o irmão André – matemático que viria a obter reconhecimento internacional –, ia a par da escrita militante e de meditações dispersas e incisivas.

Simone suicidar-se-ia por inanição ou, numa versão menos crua, vítima de anorexia, numa clínica aos 34 anos, em Ashford, na Inglaterra, e a posteridade reconheceria nela uma filósofa e mística controversa, profícua e, indubitavelmente, sincera e determinada.

A Weil – herdeira assumida das «tradições cristã, francesa e helénica» – escapava, todavia, a peculiar perversidade da ideologia nazi de extermínio dos judeus que confundia com o abuso universal da prepotência.

Para uma judia alemã, privada de nacionalidade pelo nazismo, como Hannah Arendt o antissemitismo era, pelo contrário, uma das pedras de toque do totalitarismo e o que daí decorre é uma das linhas de força da história de vidas cruzadas de filósofas em tempos sombrios da autoria de Wolfram Eilenberger, recentemente editada em Portugal.

Arendt, exilada em Nova Iorque – aluna brilhante e antiga amante de Martin Heidegger; discípula do filósofo e humanista liberal Karl Jaspers – assumia, na sua coluna de opinião do semanário nova-iorquino «Aufbau» («Construção») a convicção de que quem «é atacado na qualidade de judeu tem de defender-se como judeu.»

A adesão de Heidegger, reitor da Universidade de Friburgo desde 1933, à soberania plena do Führer como «presente e futuro da Alemanha», comprovara a magnitude e desvergonha de asserções filosóficas como amparo, sustento e legitimação do poder nas suas formas mais cruas ou ínvias.

A modernidade ocidental debatia-se sobre a questão primordial que Immanuel Kant levantara no século XVIII acerca dos termos da capacidade de conhecimento e da emancipação do ser humano pelo uso da razão.

As atribulações na justificação da liberdade e razão e o que poderão ser outras formas de pensar justificam perfeitamente biografias cruzadas (Simone Weil / Simone de Beauvoir) ou vidas paralelas (a norte-americana de origem russa Ayn Rand / Hannah Arendt), bem como na geração anterior os alemães Ernst Cassirer e Walter Benjamin e o austríaco Ludwig Wittgenstein, posteriormente o alemão Theodor Adorno e a norte-americana Susan Sontag.

É aceitável centrar a questão essencialmente na especulação acerca da ideia de autonomia como afirmação da pessoa.

Há, contudo, outra desgraça que assombra boa parte da meditação ocidental.

É a desdita e a desgraça, como escrevera Simone Weil: «Sobre toda a Ilíada paira a sombra da maior das desgraças humanas, a destruição de uma cidade.»

Perder a sua cidade, sua terra, a raiz que nos sustenta, é mal supremo que, Ares – o deus da guerra – traz consigo, algo distante e paradoxalmente, muito próximo da sentença de um poema de Sophia de Mello Breyner: «O primeiro tema da reflexão grega é a justiça.»

Antes, ainda, Homero, para todo o sempre, lavrara o destino:

«Igualitário é o deus da guerra; e mata quem quer matar. / Assim falou Heitor, ao que os Troianos aplaudiram, / estultos! Pois o juízo lhes tirara Pala Atena.»

Ilíada, XVIII, 309-311, (Tradução Frederico Lourenço, Ed. Quetzal).

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A trilogia de Wolfram Eilenberger «O Tempo dos Mágicos», «O Fogo da Liberdade», «Espíritos do Presente», foi publicada pelas Edições 70, Lisboa.

Texto escrito segundo o Acordo Ortográfico de 1945

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