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João Carlos Barradas
João Carlos Barradas
04 de abril de 2026 às 08:20

Irão: o pior está para vir

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Edição de 17 a 23 de março

O ambíguo apuro de danos começa a lembrar o «body count», o empilhar de cadáveres inimigos, do Vietname.

A demissão pelo secretário da defesa de Trump do chefe do estado-maior do exército ao trigésimo quarto dia de guerra é sinal de conflito insanável entre o poder executivo e parte significativa da liderança militar norte-americana. 

Pete Hegseth demitiu, quinta-feira, o general Randy George, que iniciara em Setembro de 2023 um mandato de quatro anos por nomeação do presidente Joe Biden, sem adiantar razões e na ausência de divergências públicas entre o chefe de um corpo militar rondando 450 mil efectivos e a administração republicana. 

O vice-chefe do estado-maior, general Christopher LaNeve, que assumira funções em Fevereiro, foi nomeado substituto interino de Randy George e, tendo sido um dos principais assessores de Pete Hegseth, a sua promoção, a confirmar pelo Senado, enquadra-se na política de realinhamento das chefias militares conduzida por Trump. 

Os generais Randy A. George, responsável pela reconversão das entidades de comando, e William Green Jr., chefe dos capelães militares, foram igualmente demitidos. 

Hegseth – que usa preferencialmente como título «secretário da guerra», uma denominação não ratificada pelo Congresso – advoga a ideia de guerra sem quartel, alheia a convenções internacionais sobre a conduta de forças militares em conflitos bélicos e a sua doutrina não colhe consenso no Pentágono.  

A purga de chefias militares – 26 oficiais-generais até agora – levou, nomeadamente, à demissão em Fevereiro do ano passado do chefe de estado-maior-general das forças armadas Charles Brown Jr. – a quem sucedeu Dan Caine –, bem como da almirante Lisa Marie Franchetti, à frente da Marinha, ou do vice-chefe da Força Aérea, James Slife. 

O almirante Alvin Holsey, demitiu-se, por sua vez, em Dezembro, da chefia do Comando Sul – América Central e do Sul, Caraíbas – fazendo saber, através de inconfidências aos media, que discordava da legalidade dos ataques a embarcações suspeitas de tráfico de droga.  

Guerra sem fim à vista

Desde o desencadear da guerra dos Estados Unidos contra o Irão no final de Fevereiro ao lado de Israel, ignorando demais aliados, acumulam-se dúvidas sobre os objectivos estratégicos da Casa Branca. 

Os riscos militares e políticos inerentes aos diversos cenários operacionais e suas dimensões tácticas têm sido menosprezados por Trump que, ao multiplicar declarações desabridas e contraditórias, não consegue apresentar objectivos estratégicos. 

Operações militares implicando a incursão de tropas em território iraniano são de risco elevado e obrigam à identificação de propósitos precisos para mobilização de meios e calendarização operacional. 

Prevaleceu a oportunidade de «decapitação do regime» – a variante 2026 do ataque «choque e pavor» capaz de intimidar e paralisar o inimigo tentada em 2003 no Iraque – como abertura de uma campanha de bombardeamentos conducente a aniquilar a capacidade de resistência, quiçá de levar à queda do regime.   

A Casa Branca optou, no entanto, por ignorar cenários óbvios de ataques de retaliação iranianos aos estados árabes do Golfo Pérsico, de bloqueio do Estreito de Ormuz, eventualmente do Estreito de Bad el Mandeb, no Mar Vermelho, pelos houthis do Iémen. 

As objecções de chefias militares norte-americanas, o temor de serem arrastadas para um conflito em termos incertos e cujo fracasso lhes será assacado, vão, assim, surgindo em sucessivas fugas de informação que contradizem as declarações grandiloquentes de Trump.   

Após a primeira semana de bombardeamentos Israel anunciou a destruição de 75% dos lançadores de mísseis, mas no final de Fevereiro, fontes norte-americanas ligadas a serviços de informação, baixavam essa estimativa para apenas um quarto do arsenal iraniano.  

Sendo imprecisos o cômputo de mísseis – 2 500 a 6 000 de diversas classes –, lançadores e arsenais de drones, bem como a capacidade de produção iraniana, fontes norte-americanas fechavam esta semana a safra de estimativas adiantando que, afinal, metade dos lançadores de mísseis não teria sido destruída. 

O ambíguo apuro de danos começa a lembrar o «body count», o empilhar de cadáveres inimigos, do Vietname, e é um risco de propaganda, uma traiçoeira mácula moral, na guerra contra um regime que se sustenta na propaganda do culto do martírio.  

A prossecução de ataques iranianos a Israel e no Golfo, a primeira notícia confirmada de derrube de um caça F-15 norte-americano no sul do Irão, bastam para duvidar da alegada «obliteração» da capacidade militar convencional do Irão. 

A idade da pedra

Hegseth voluntariou-se para serviço militar no Iraque e no Afeganistão, ascendendo à patente de major, antes de se destacar, a partir de 2014, como comentador da Fox News e colher o favor de Trump para chefiar o Pentágono em 2025. 

Proclamar guerra total para aniquilação e humilhação do inimigo é a palavra de ordem de Hegseth e Trump: bombardear e arrasar o inimigo remetendo-o à «Idade da Pedra». 

Faz-se assim valer o credo do chefe de estado-maior da força aérea no início dos anos 60, general Curtis LeMay, que, do alto da sua experiência no bombardeamento massivo do Japão em 1944 e 1945, prometia «bombardear de volta à Idade da Pedra» o Vietname do Norte.   

O melhor que os Estados Unidos têm para dar ao mundo vai a caminho da Lua e Isfahã é uma das mais belas cidades deste mundo. 

Trump, o lado obscuro da América, o tormento que a Casa Branca agora representa, tal como a sinistra teocracia que sufoca o Irão, remetem-nos para uma Idade da Pedra que mais não é do que terra devastada, gente em sofrimento e futuro desgraçado.  

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