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A imperativa identificação e lealdade entre judeu e Estado de Israel levou a uma equivalência entre crítica à política governamental israelita e antissemitismo.
Veja-se a subtileza, o carinho, a ironia das fotografias de Joshua Benoliel, mestre do fotojornalismo português dos primórdios do século XX, e atente-se na denúncia da «porca infecção hebraica» pelo seu contemporâneo António Sardinha.
Joshua, figura omnipresente e acarinhada na Lisboa natal, fotógrafo de reis e revoluções, da plebe e do surpreendente quotidiano, manteve sempre a nacionalidade britânica – os pais vinham de Malta – e era em tudo o oposto do alentejano António.
Cortês, probo e de olho artístico, Benoliel estava sempre lá sem ser intrusivo – fugiu-lhe, contudo, o momento do regicídio de 1908 – e foi a enterrar rodeado de boas memórias no Cemitério Israelita de Lisboa em 1932, sete anos depois de Sardinha morrer em Elvas.
A conversão forçada sob pena de expulsão de judeus e muçulmanos, decretada por D. Manuel I, o Venturoso, em 1496, o massacre do Rossio, em 1506, a Inquisição, desde 1536, o pedregoso caminho para a igualdade de direitos aberto em 1773 por desígnio do Marquês de Pombal, diziam muito a Benoliel, mas não se atravessaram na carreira de um homem tão cauteloso de desvarios que sempre guardara seu passaporte britânico.
Já os judeus de outrora e agora representavam um drama na luta pela «regeneração da raça» para Sardinha.
O «morbo judengo», bem como a nefanda maçonaria, foram obsessões de Sardinha, prócere dos «sacramentos da Tradição» e da «Monarquia Orgânica» em que o soberano zelava pelo seu povo: «o Liberalismo, hoje a Democracia, não são senão as fachadas de um poder oculto que, no subsolo da política, a manobra a seu belo prazer».
Nascido em 1887 e 14 anos mais novo do que Benoliel, Sardinha poetava assim:
«Ó Santa Inquisição, acende as chamas!
E no fulgor terrível que derramas,
Vem acudir à pátria portuguesa!»
Ao ideólogo do integralismo lusitano abominava o liberalismo, «forma espiritual do semitismo», o capitalismo de «inegável extração talmúdica».
Em Sardinha vicejam velhos preconceitos e ódios antijudaicos – os assassinos de Cristo que vertem o sangue das crianças cristãs sacrificadas para seus rituais e confecção de matzá, pão ázimo, na Pessach – que se confundiam com outras fúrias patentes no termo antissemitismo vulgarizado em português na sequência do julgamento e condenação por espionagem e traição do capitão Alfred Dreyfus, em 1894.
O caso do oficial judeu convulsionou a França muito para além do reconhecimento da inocência de Dreyfus em 1906 e é sinal de um confronto ideológico que tivera um marco patente na popularização do termo e vago conceito de «antissemitismo» pelo publicista alemão Wilhelm Marr.
O judeu do capital
No panfleto «A Vitória do Judaísmo sobre a Germanidade», de 1879, Marr denuncia a perfídia da assimilação dos judeus, o reconhecimento de igualdade de direitos, o intolerável controlo hebraico da finança e indústria.
Expulsar judeus, interditar-lhes acesso a profissões, limitar autorizações de residência, eram práticas correntes no Império Russo, que albergava as maiores comunidades hebraicas, mas em desuso ou contestadas na maior parte da Europa.
O antissemitismo surgia como uma das ideias-chave da modernidade na vertente de contestação ao ideário de emancipação cívica e liberdade de crença.
Neste desconforto e inquietação vislumbravam-se bruscas riquezas propiciadas pelo capitalismo aos judeus que por inata propensão, a ciência das raças o provava, acumulavam um poder obscuro e manipulador.
O historiador britânico Mark Mazower num livro essencial acabado de publicar em Portugal defende esta tese, salientado as tortuosas vias através das quais a denúncia da pretensa cabala judaica ganhou força desde a publicação, em 1903, dos «Protocolos dos Sábios do Sião», forjados pela polícia secreta russa do tzar Nicolau II, e publicitados em grande escala nos Estados Unidos pelo magnata Henry Ford.
À ideia da conspiração judaica contrapunham-se movimentos pela emancipação do povo hebraico através do reconhecimento da igualdade de direitos e autonomia cultural, sobretudo no Império Austro-Húngaro.
O ensimesmamento étnico-religioso, muito influente nas comunidades do centro e leste europeus, era outra força alheia ao novo ideário sionista de criação de um estado judaico.
Theodor Herzl, judeu de língua alemã, oriundo do Império Austro-Húngaro, sob o choque do julgamento de Dreyfus tornou-se no ideólogo do sionismo ao publicar, em 1896, «O Estado dos Judeus».
Treze anos depois da sua morte o sionismo passaria por metamorfoses inesperadas através da Declaração Balfour – o reconhecimento britânico do direito à criação de «um lar nacional» na Palestina sob domínio otomano – e com igualdade de direitos promulgada pelo triunfo bolchevique na Rússia.
Mazower destaca a tensão entre as tendências de assimilação por parte de comunidades judaicas em estados democráticos e liberais, como o Reino Unido e os Estados Unidos, a luta pelo reconhecimento de direitos na Roménia ou Polónia, e o movimento de colonização na Palestina sob mandato britânico, maioritariamente povoada por árabes.
Esmagar a ameaça judeo-bolchevique, extirpar o judeu que polui a pureza da raça, ganham, entretanto, força letal do estado com Hitler a partir de 1933 e a guerra conduzirá ao extermínio.
O universo sionista
O genocídio de 6 milhões de judeus na Europa, a criação de um estado israelita em 1948 com a expulsão e fuga de 700 mil árabes, o êxodo de 900 mil judeus de países muçulmanos, reconfiguram por completo a configuração do universo hebraico.
Depois, ultrapassada a hostilidade de Stalin e o antissemitismo comunista no bloco soviético que se desintegraria no final do século XX, a demografia indica que a maior parte dos cerca de 16 milhões de judeus se concentra em Israel – 7,7 milhões – e Estados Unidos, com 6,3 milhões.
O significado das ideias de antissemitismo europeu, irrelevantes ou ausentes do discurso político árabe e islâmico até à década de 1940, e sionismo alteraram-se irremediavelmente.
Em países islâmicos, entre árabes, persas e turcos, mas igualmente para malaios ou indonésios, o termo sionismo passou a significar algo de negativo associado à dominação imposta por judeus em terra do Islão.
A resolução da Assembleia Geral da ONU que, em 1975, equiparou o sionismo a «uma forma de racismo e discriminação racial» é expressão de uma mutação em que se misturam ideias de raça e nacionalismo.
O preconceito de uma essência perene é comum aos ideólogos judeus que identificam um «ódio eterno» ao Povo Eleito e aos antissemitas que vociferam contra os «malditos judeus».
Nos anos de 1960 os sionistas de Israel começam a reivindicar serem representantes da totalidade do povo judeu, a reivindicar, também, a herança das comunidades chacinadas na Shoa.
É posta em causa a reivindicação de autonomia e representatividade exclusiva nos seus países das organizações de judeus liberais e conservadores nos Estados Unidos, Canadá, Europa ou Argentina, descartando comunidades ultraortodoxas que não reconhecem legitimidade a um estado judaico na ausência da aparição do Messias.
A identificação de todas as comunidades com Israel, «Estado-Nação do Povo Judaico» pela Lei Básica de 2018 de cunho constitucional, torna-se um imperativo que redunda na associação entre política governamental de Telavive e interesses da totalidade do Povo Eleito.
O antissemitismo é um preconceito, a hostilidade ou discriminação contra pessoas judias, independentemente de elas se reconhecerem como tal, por motivação religiosa, cultural ou étnica.
É tão perigoso quanto qualquer outro extremismo ao assumir tentações racistas e na história europeia é pedra de toque na esmagadora maioria dos movimentos de extrema-direita e insidiosamente recorrente entre radicais anticapitalistas.
A imperativa identificação e lealdade entre judeu e Estado de Israel levou a uma equivalência entre crítica à política governamental israelita e antissemitismo.
É desgraça que assola Israel e os judeus; é algo que seria confrangedor para Benoliel e empolgante para Sardinha.
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Mark Mazower,
Antissemitismo Uma Palavra na História
D. Quixote, 2026
Texto escrito segundo o Acordo Ortográfico de 1945
A imperativa identificação e lealdade entre judeu e Estado de Israel levou a uma equivalência entre crítica à política governamental israelita e antissemitismo.
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