Não foi nesse momento que o Estado Novo nasceu, mas esse foi o primeiro passo para a implantação desse regime fascista no nosso país.
No email que, em maio de 2022, enviei à então
directora desta revista justificando a escolha do tema (e do título - que era “Por
uma EU Federal”) do primeiro dos meus textos publicados na edição online
da SÁBADO, escrevi o seguinte:
“Esta "coisa" da Federação Europeia é,
para mim, da máxima importância.
Deixe-me dar-lhe conta dessa relevância: não
quero que a minha neta, que irá fazer 4 anos em meados de julho, passe por
aquilo que a minha mãe e a minha avó materna passaram, e estou convencido (não
por "achismo") que estamos mesmo a caminhar para a destruição dos
valores europeus (os americanos não são exactamente os mesmos que os nossos),
da Democracia - e democracia iliberal é algo que pura e simplesmente não existe
- e do Estado de Direito.
O Estado Social de Direito esse já está a
"balões de oxigénio".
E, inevitavelmente, passaremos novamente a viver
no estado de guerra permanente que existiu na Europa até 1945, sendo certo que
nenhum dos Estados europeus dispõe já de um império colonial para "aparar
os golpes", o que beneficiará os EUA e a China (a "Rússia"
tornar-se-á, tal como as demais ex-potências europeias, um mero peão
irrelevante).
E a ONU e as organizações que lhe estão agregadas
desaparecerão igualmente.
Nestas condições, será normal que tente fazer
tudo o que estiver ao meu alcance para evitar esse desastre.
Enfim, não "lutarei até à morte" como
os ucranianos e não tenho elevadas expectativas quanto aos resultados desse
esforço - até porque a histeria colectiva (sem aspas) em que o Planeta está
mergulhado não me deixa ser optimista
Ainda assim tentarei e vamos ver o que isto vai
dar.”.
Como referi, em maio de 2025, no primeiro
texto da série “Os despojos de Abril”, “De início, os temas que abordei [(na) minha colaboração com a revista
SÁBADO] tinham um carácter mais ou menos aleatório, mas, a certa altura,
pensei que seria bom - e eventualmente mais eficaz - concentrar a minha atenção
em assuntos mais específicos. E, por essa razão, comecei a dar às crónicas que
fui escrevendo um correspondente título genérico, a saber, “POR UMA UE FEDERAL”.”.
Ainda assim, durante essa primeira
fase, já havia procedido a alguma agregação de textos sob um título comum
partindo da mitologia do Antigo Testamento que nos relata a estória do
assassinato de Abel às mãos do seu irmão Caim.
Esse título era “Os filhos de Caim”
e a linha condutora do mesmo era (e é), que nós - todos nós, ou seja, a
Humanidade inteira - somos filhos do invejoso Caim e não do bondoso Abel.
A inveja é, portanto, mais um
“defeito de fabrico” a juntar ao egoísmo, à selvajaria, e ao tendencial
irracionalismo que faz parte do núcleo central primário da natureza humana, mas
que, como estes últimos, pode ser combatido e vencido com a utilização sistemática
da parte racional dessa mesma nossa natureza primordial.
Racionalidade emotiva, acrescento,
como decorre dos ensinamentos do justamente famoso neurologista e neurocientista
português António Damásio.
Como os resultados práticos da
série de crónicas pugnando pela abertura de um debate a sério acerca da
necessidade de proceder a mudanças estruturais na arquitectura sistémica da
União Europeia foram nulos, mudei os objectivos do encadeado de textos que continuei
a enviar para publicação na edição on line desta revista, os quais
passaram intitular-se genericamente “Os ventos de Oeste”.
Isto porque foram esses “ventos” e
não os “de Leste”, como erradamente previu Mao Zedong (nos meus tempos de
juventude escrevia-se Mao Tse-Tung), que, com a implosão da União Soviética e a
total derrocada do chamado “Bloco de Leste” europeu, cujo primeiro passo foi a
queda do Muro de Berlim, ocorrida a 9 de novembro de 1989, venceram a batalha
ideológica que se iniciou com a Revolução Soviética de 1917.
Acontece, porém, que também esses
“ventos” passaram a ser desprezíveis e nefastos.
Efectivamente, os Valores Éticos
subjacentes a documentos tão fundamentais como a Carta das Nações Unidas, a
Declaração Universal dos Direitos Humanos, a Convenção Europeia doa Direitos
Humanos, e outros imbuídos do mesmo espírito humanista e humanitário – valores
e princípios esses que agora são considerados fraquezas por aqueles que se
consideram os novos donos do Mundo -, começaram a ser paulatina e
sistematicamente combatidos e deixaram de ser considerados o guia do
relacionamento dos Estados a nível planetário.
Logo, nova mudança de título
genérico das crónicas, desta vez com um pendor mais nacionalista, o qual passou
a ser “Os despojos de Abril”.
Entendo, porém, que é altura de
mudar novamente a orientação destes escritos.
Já chega de lamúrias acerca da
perda do muito que foi construído em Portugal após o 25 de abril de 1974 (e, no
fundo, é isso que aquele título genérico significa) e há que passar ao ataque.
No próximo dia 28 deste mês irão
completar-se cem anos sobre a data em que foi concretizado o golpe militar
reaccionário que pôs fim à Primeira República portuguesa.
Não foi nesse momento que o Estado
Novo nasceu, mas esse foi o primeiro passo para a implantação desse regime
fascista no nosso país. Regime que era mesmo fascista, mas à portuguesa e, por
isso, assumindo algumas características distintivas dos fascismos italiano,
francês, inglês ou húngaro, e do nazismo (nazi-fascismo) alemão.
Essa data não merece ser
comemorada, mas merece não ser ignorada.
Tal como merece não ser ignorada
toda a história (e os profundos falhanços) da Primeira República que permitiram
que esse golpe de estado tivesse obtido um tão grande sucesso, bem como a
história e os relativos falhanços do Estado Democrático desde 1974 até hoje,
que permitiram a ascensão da boçalidade, da irracionalidade e da selvajaria dos
novos fascistas, baptizados de extrema-direita nacionalista.
Em João 8:32 (isto é, no versículo
8:32 do Evangelho segundo São João) escreve-se que o Ungido Yeshua ben David
disse "E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará." E um outro judeu, o alemão Karl Marx,
afirmou “Só a verdade é revolucionária”.
Não devemos ter medo da verdade e
daí que seja da maior pertinência que, como proposto pelo Bloco de Esquerda,
sejam tornados públicos os dados relativos aos processos das FP-25, mas, de
igual modo e na mesma exacta medida, os relativos às várias organizações
terroristas de extrema-direita, de que o ELP/MDLP foi o expoente máximo (mas
existiram muitas outras).
Só que, em minha opinião, a
perspectiva dessa actividade deve ser a de lutar pelo alargamento dos direitos
e não apenas pela preservação dos que já existem.
O capitalismo selvagem e predador
que hoje domina o Mundo (incluindo a China) não é a solução e conduzirá
inevitavelmente a novas desgraças e, em última análise, pela cada vez maior
proliferação das guerras, poderá conduzir à extinção do género humano.
Mas porque o comunismo resultante
da Revolução Soviética de 1917 mostrou também não ser a solução, há que voltar
atrás e, socorrendo-me do título de uma bela canção de Ivan Lins e Simone
Bittencourt de Oliveira, começar de novo.
As aspirações a um Mundo Novo, que
obedeça ao primado da justiça e da equidade, e que consagre o bem-estar para
todos os membros da Comunidade, são justificadas e legítimas.
E essa Utopia pode tornar-se uma
realidade se a racionalidade emotiva prevalecer sobre o egoísmo, a selvajaria,
a inveja e a irracionalidade.
Os actuais dirigentes do país, muito provavelmente por força de um revanchismo que, apesar de mascarado de “modernidade”, é cada vez mais indisfarçável, estão mais preocupados em destruir os equilíbrios sociais construídos na sequência do 25 de abril de 1974 e do 25 de novembro de 1975, do que em procurar encontrar soluções para debelar essas dificuldades, ou pelo menos minorar as suas consequências para os mais desfavorecidos.
E nunca como hoje, porque a capacidade de destruição se tornou tão devastadora e porque é tão intenso e generalizado o desprezo pelos valores fundamentais da liberdade, da igualdade, da fraternidade e da soberania do Direito sobre a barbárie, se tornou tão necessário demonstrar que, em termos práticos, a vitória sobre essas forças tenebrosas é possível e está ao nosso alcance.
As várias comemorações de Maio podem e devem motivar debates profundos acerca do nosso quotidiano. Debates de natureza política, sem dúvida, mas também éticos e morais.
Já agora, considero importante repetir, pela enésima vez, que, em termos de ciência política, quer se queira quer não, o PREC foi apenas uma crise revolucionária e não, como muitos afirmam, de ambos os lados do espectro político nacional, uma revolução falhada).
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