Quem saiu verdadeiramente derrotado foi o PSD enquanto partido e o Governo enquanto projecto.
Há derrotas eleitorais. E depois há derrotas políticas auto-infligidas, daquelas que não se explicam com “contexto”, “fadiga do eleitorado” ou “condições externas”. A derrota de Marques Mendes nas Presidenciais não pertence à primeira categoria. Pertence à segunda. E tem um autor claro: Luís Montenegro, que fez tudo o que estava ao seu alcance para se humilhar a si próprio e ao seu Governo nesta eleição.
No domingo, perdeu Luís Marques Mendes. Mas quem saiu verdadeiramente derrotado foi o PSD enquanto partido e o Governo enquanto projecto. Um Governo já frágil, sustentado por uma maioria curta, que decidiu (com uma confiança quase comovente) transformar uma eleição presidencial numa espécie de referendo informal à sua própria liderança. O resultado foi previsível. Só não o viu quem não quis.
Comecemos pelo erro original: a escolha do candidato. Marques Mendes foi apresentado como o “nome natural”. O problema é que “natural” não é sinónimo de “competitivo”. Nem de “mobilizador”. Nem sequer de “desejado”. Neste caso o “nome natural” nem era… Natural. A ideia parecia ser esta: Marcelo Rebelo de Sousa resultou, logo basta repetir o molde. Ex-deputado, ex-líder do PSD, nunca primeiro-ministro, comentador dominical em horário nobre. O problema é que recauchutar um CV não reproduz um fenómeno político. Marcelo, com todos os seus defeitos, foi um acidente histórico com carisma próprio; Mendes foi um exercício de nostalgia que ninguém sentia.
Enquanto isso, João Cotrim de Figueiredo fazia aquilo que Marques Mendes nunca conseguiu, nem pareceu querer: falar para o presente e para o futuro. Uniu o espaço eleitoral do centro-direita com uma mensagem moderna, positiva e ambiciosa, sem o ranço do “já fiz isto antes” nem a presunção de que o eleitorado lhe devia alguma coisa pelo currículo (por sinal bem mais vasto que o de Mendes). Onde Mendes oferecia uma continuidade pantanosa, Cotrim oferecia direcção. Onde Mendes falava como comentador que se candidatou, Cotrim falava como candidato que queria liderar.
O PSD tinha um sinal claro à frente dos olhos. O eleitorado deu-o. Repetiu-o. Insistiu nele. Sondagem após sondagem. E o partido, na pessoa de Luís Montenegro, ignorou-o com uma determinação impressionante. Em vez de largar Marques Mendes e alinhar com Cotrim, preferiu dobrar a aposta. E aqui entramos no momento verdadeiramente autodestrutivo da história.
Luís Montenegro decidiu fazer campanha activa por Marques Mendes. Não discretamente. Não por omissão, mas proactivamente. Logo no primeiro dia de campanha, o primeiro-ministro apelou ao voto útil. O apelo durou 24 horas, porque as sondagens que se seguiram mostraram que, a haver voto útil, ele só ocorreria em Cotrim. Além do primeiro-ministro, ministros e figuras do Governo — até eurodeputados! — colaram-se a um candidato que nunca convenceu nem entusiasmou.
O Governo entrou em cena como parte interessada. O próprio candidato, que durante anos cultivara (segundo o próprio) a aura de figura independente por ter criticado o seu partido em horário nobre, sucumbiu logo na primeira semana de campanha: perante sondagens penosas e o fiasco do INEM, Mendes salvou a Ministra da Saúde e atirou o ónus para o Director
Executivo do SNS. A independência durou exactamente até ao primeiro aperto. O resultado? Uma derrota presidencial transformada numa derrota governativa por associação directa. Um quinto lugar com 11% dos votos, ou seja, uma verdadeira humilhação. Isto não foi fogo amigo. Foi imolação.
Num Governo de maioria parca, isto é politicamente suicida. O PSD saiu das Presidenciais mais fraco, mais isolado e mais encurralado. O espaço do centro-direita não está representado na segunda volta e Luís Montenegro não lidera esse espaço: quando pediu ao seu eleitorado para votar em Mendes, este insurgiu-se e votou em Cotrim, o candidato óbvio.
O Governo fica agora refém de dois cenários igualmente maus: ou um Presidente como António José Seguro, que não viabilizará nenhuma das reformas estruturais de que o país precisa, ou André Ventura, cuja vitória significaria, na prática, a queda do Governo à primeira oportunidade. Com toda a probabilidade, confirmar-se-á o primeiro cenário, oferecendo ao PS um balão de oxigénio com o qual o próprio não contava. A espada de Dâmocles cairá sobre o Governo, só não se sabe quando.
A derrota de domingo não foi um acidente. Não foi azar. Não foi por acaso. Foi uma escolha. Aliás, foi a escolha. Luís Montenegro não perdeu no domingo. Perdeu em Fevereiro de 2025, no momento exacto em que decidiu impor Luís Marques Mendes como candidato contra a grande maioria do seu partido e contra o instinto do eleitorado. O resto foi apenas a execução cuidada de um erro original.
Neste universo mental, a política internacional não é um confronto entre regimes com valores incompatíveis. É uma sequência de pareceres jurídicos, notas de rodapé e interpretações doutrinárias que fazem jurisprudência gerando precedente em que a moral é relativa.
O caso de Bruno Mascarenhas na Câmara Municipal de Lisboa tornou-se um manual prático de hipocrisia secular. O partido que denunciava nomeações por afinidade política e familiar descobriu que a afinidade, afinal, é uma competência altamente valorizada.
A emergência exige preparação, continuidade e competência. Três coisas que não sobrevivem bem a um sistema onde cada Governo sente necessidade de “limpar” a casa, mesmo que isso implique mandar fora quem sabe onde estão os extintores (ou as bombas de água).
Isto nunca foi sobre ajudar Seguro. O medo real é que Jorge Pinto acabe atrás dos outros candidatos da extrema-esquerda. O que seria embaraçoso. O cenário torna-se ainda mais cruel quando se olha para as sondagens. Algumas colocam Jorge Pinto empatado com Manuel João Vieira.
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